A “direita evangélica”

13 de maio de 2016
direita evangelica

No discurso político do nosso tempo, ser “evangélico” e “de direita” são tratados como sinônimos intercambiáveis. Neste contexto semântico, ser evangélico significa apoiar o governo golpista de Honduras e a oposição de direita da Venezuela e do Brasil. Nos Estados Unidos significa pertencer ao Partido Republicano, possivelmente a seus setores mais reacionários. Encontrar um “evangélico democrata” é mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro.

Neste contexto, o termo “evangélico” não tem absolutamente nada a ver com sua raiz: o evangelho, as boas novas do reino de Deus. De fato, em seu uso atual, é um rótulo que carece totalmente de significado teológico. Donald Trump pode se jactar: “I’m Evangelical, and proud of it” (‘Sou evangélico, com muito orgulho”), sem a menor suspeita do significado do termo. Levantou uma Bíblia e a declarou o maior livro de todos os séculos, mas não pôde citar nenhum versículo favorito, nem mesmo João 3.16. (recentemente declarou que “olho por olho” lhe parece um texto bem apropriado para nosso tempo, sem se dar conta de que é uma frase que não justifica a vingança mas a limita). Ele não está acostumado a se arrepender, disse, porque não comete más ações para se arrepender. Assim é o evangelicalismo de Donald Trump e de muitos outros “evangélicos”.

Na verdade, pouquíssimas pessoas e igrejas “evangélicas” o são de fato. A grande maioria é fundamentalista, que é essencialmente o contrário. Vejamos um pouco de história.

O título “evangélico” tem uma história longa e muito honrada. Algumas igrejas nascidas da Reforma optaram por se chamar de “Igreja Evangélica”. No século dezenove os evangélicos estadunidenses lutavam pela emancipação dos escravos e pelo voto feminino. Depois da guerra civil o movimento perdeu força e começou a luta dos fundamentalistas contra os liberais (modernistas). Estes últimos, em seu objetivo de acomodar o evangelho ao pensamento moderno, negavam a deidade de Cristo e sua ressurreição, a inspiração bíblica e outras doutrinas históricas. Os fundamentalistas, ao contrário, santificaram as tradições doutrinárias como verdades absolutas acima de qualquer questionamento. Insistiram na criação literal do mundo, na inspiração verbal (e depois na inerrância) da Bíblia, na deidade, ressurreição e volta de Jesus (e depois, no pré-milenismo e no arrebatamento pré-tribulacionista). Faltou uma teologia da igreja, do Espírito Santo, da história e da sociedade, entre outros temas. Essa teologia fundamentalista reducionista ia acompanhada de um código moral igualmente reducionista: não fumar, não beber, não dançar e não ir ao cinema.

Nos anos 1950 um grupo de teólogos e líderes, inspirados/as pelos Reformadores do século dezesseis, decidiu romper com o fundamentalismo e iniciar um movimento neoevangélico que não seria nem liberal nem fundamentalista, mas uma nova opção teológica. Tentavam ser menos dogmáticos mas muito mais críticos, tanto na ciência exegética quanto na teologia bíblica. Assumiam uma atitude mais aberta e objetiva, mais honesta, para com os demais teólogos/as e teologias (1). Abriram-se também a toda problemática ética, inclusive um compromisso incipiente com os pobres e com a justiça.

Em pouco tempo, como num passe de mágica, colou-se ao termo um adjetivo questionável para se converter em “evangélico conservador”, entendido na prática como sinônimo de “Republicano”. Assim aos poucos a dinamite do evangelho foi convertida em um sedativo ideológico. Descrever o evangelho como essencialmente “conservador” é seriamente mal interpretá-lo.

Hoje muito poucas igrejas e líderes aceitam serem chamados de “fundamentalistas” e todos se converteram em “evangélicos”, mas apenas de nome. Em sua teologia e ideologia continuam sendo fundamentalistas.

Logo nesse processo surgiu uma nova opção chamada de “evangélico radical” (“evangélico progressista”, “evangélico de esquerda”). Fiel aos fundadores do movimento, preocupam-se em manter a teologia bíblica e evangélica, mas encontram nessas fontes outras perspectivas éticas. Apelam fortemente à teologia do Reino de Deus, um tema central também para Rauschenbusch, um famoso liberal do século dezenove. Outras bases para sua ética social eram o Ano Sabático e o Ano do Jubileu, os profetas hebreus e também a leitura política do Apocalipse. Abriram-se também ao feminismo e à teologia da libertação, quando estas tinham fundamentos bíblicos. Entre os evangélicos radicais dos Estados Unidos figuram Ron Sider, autor de Cristãos Ricos em Tempo de Fome, e Jim Wallis, da revista Sojourners. Entre os latino-americanos se destacam Orlando Costas, René Padilla e Samuel Escobar, entre outros.

Que curioso: os “evangélicos de direita” não são evangélicos, e muitos evangélicos não são de direita!

Estes dados sugerem uma situação bem diferente, como segue:

(1) direita fundamentalista: embora a maioria se autodenomine “evangélica”, não foi afetada pelo despertar neoevangélico. É ideologicamente reacionária.

(2) evangélicos conservadores: sua fé foi renovada pelo evangelho, mas continuam sendo conservadores embora não reacionários. Que Deus os abençoe.

(3) esquerda evangélica: evangélicos radicais, comprometidos com a fé bíblica e a realidade contemporânea. Sentem um chamado profético para denunciar o pecado e a injustiça e anunciar o Reino de Deus.

(Haveria que agregar a esquerda liberal e a direita liberal, teologicamente falando, mas esse já é outro assunto).

Filologicamente o termo “evangélico” é muito polissêmico e seu uso poucas vezes corresponde à realidade. Na maior parte das vezes significa simplesmente “protestante”, fundamentalista e reacionário. São raras as vezes que conserva seu rico significado teológico para nossa fé.

Será possível resgatar essa palavra tão linda?

Nota

(1) Ver “Ética y estética del discurso teológico”, in: Stam, Juan. Haciendo teología en América Latina, Tomo I, pp. 23-46.

Tradução: Flávio Conrado

Juan Stam

Juan Stam

Juan Stam é estadunidense de nascimento, costarriquenho por adoção e latino-americano de coração. Doutorou-se em Teologia pela Universidade da Basileia, Suíça. Foi docente em várias instituições teológicas e universitárias da América Central e de outras partes do mundo. É membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana e escreveu vários livros e numerosos artigos, entre eles As Boas Novas da Criação (Novos Diálogos, 2012).

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