A dupla “função social” do pastor Silas Malafaia

12 de março de 2013
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Nunca antes na história desse país, um pastor evangélico – muito menos um assembleiano – foi entrevistado numa semana por Veja, na outra pela IstoÉ, e na seguinte convidado ao programa De frente com Gabi, no SBT. Sem falar que semanas antes o mesmo pastor havia aparecido na Forbes. Definitivamente, a imprensa percebeu que existem evangélicos no Brasil. Mais de 40 milhões, segundo o Censo de 2010. E a figura icônica do Malafaia, uma das mais conhecidas.

Este país nasceu de uma missa celebrada pelos colonizadores, no ano de 1500, daí sua “natureza católica”, como assim definiram os jesuítas. Logo depois, em 1555, chegam no Rio os protestantes huguenotes, franceses, que foram recepcionados pela Santa Inquisição. Dá para imaginar o resultado. A segunda tentativa foi a holandesa, no Nordeste, no século XVII, mas a Companhia das Índias Ocidentais, liderada por Maurício de Nassau, entre fazer comércio ou prosélitos, priorizaram o primeiro. Detalhe que me intriga: por que a história brasileira registra a Invasão Francesa e a Invasão Holandesa? E a portuguesa, foi o quê? Convite dos índios?

Quase trezentos anos depois, chegam por aqui os protestantes ingleses para construir as linhas de trem, os bancos, e mais uma vez fazer comércio. E aproveitando a viagem, trouxeram uma parte da corte portuguesa. Caminho aberto, no século XIX chegam as diversas denominações protestantes de origem europeia e americana. Depois de mais de um século de presença no Brasil, em 1910, o protestantismo tem apenas 1,1% da população. Oitenta anos depois, em 1991, alcança 9%; em 2000, ultrapassa os 15%, e, no último Censo de 2010, chega a 22% da população; portanto, somente nas últimas três décadas eles se tornam quantitativamente significativos. Agora importam, porque são milhões de eleitores e consumidores; agora são vistos e ouvidos, porque, inclusive, alguns se tornaram milionários.

Uma nota pessoal: nascido em berço evangélico assembleiano, com militância de esquerda desde o início da juventude, gostaria muito que a grande marca da presença evangélica no Brasil fosse a defesa da Justiça, para, assim, me sentir próximo dos profetas bíblicos e, mais ainda, de Jesus.

Quinhentos anos depois do Brasil ser descoberto, a Forbes descobriu o Edir, o RR, o Valdemiro, o Malafaia e o casal Hernandes (Misoginia dessa Forbes, por que não cita as demais mulheres?). A Marília Gabriela, no SBT, metida a juiza da Santa Inquisição, proclama que a teologia da prosperidade é herética. Bobagem. A Forbes – a bíblia do capitalismo – diz que eles estão certos; suas fortunas lhes atestam certeza. Eles não pregam prosperidade? Como acreditar em uma propaganda de creme dental com uma atriz com os dentes sujos? Eu tenho certeza que eles estão certos. Porém já não tenho tanta certeza acerca dos que contribuíram com suas riquezas. O Malafaia, por exemplo, com sua versão da “Bíblia de Vitória Financeira”, vendeu milhares de exemplares, e ficou ainda mais rico. O mesmo não se pode dizer dos que compraram a tal Bíblia. Por isso, me ocorreu que a edição devesse se chamar “Bíblia de Vitória Financeira para Quem Vende”.

A primeira tentativa de presença institucional dos evangélicos no Brasil, unindo denominações diversas, foi o surgimento da Confederação Evangélica do Brasil, em 1934, e um dos seus objetivos era erradicar o analfabetismo. Pelas dificuldades inerentes do sectarismo protestante, obteve poucos resultados. Foi uma das atividades abortadas pelo Golpe de 64. A Confederação foi reerguida durante a Constituinte de 86, mas apropriada por políticos, se tornou uma subsidiária do chamado Centrão, e morreu por inanição institucional, e por excesso de verbas e denúncias. No início da década de 1990, surgiu a Associação Evangélica Brasileira – AEVB. Foi um dos poucos momentos da história evangélica deste país em que houve uma interlocução entre os grupos, de pentecostais a luteranos. Mas a AEVB, na época, querendo resolver os problemas da Igreja do Brasil e do mundo, não deu conta e também morreu. Atualmente existe um grupo tentando erguer uma nova Aliança Evangélica Brasileira. Inexpressiva quantitativamente, pode ser que em algum momento essa nova Aliança consiga dar conta da inglória tarefa de representar os evangélicos no Brasil. É nesse vácuo que o Malafaia entra.

À exceção do Malafaia, todos os demais nomes – Edir Macedo, RR Soares, Valdemiro e os Hernandes – são fundadores de denominações e igrejas locais; tem um compromisso prioritário com suas próprias igrejas, projetos, doutrinas. Malafaia é um outsider. Apesar de ser pastor assembleiano há mais de trinta anos, ele transcende – para o mal ou para o bem – as Assembleias de Deus. Tem uma carreira solo, projetando a si mesmo, sem precisar prestar contas ou recuar institucionalmente (como aconteceu com o Edir Macedo, quando um de seus bispos chutou a santa). Daí o Malafaia ter uma dupla “função social” neste cenário.

Primeiro externo. Seu discurso em defesa da “família padrão heterossexual e monogâmica” (típica propaganda de margarina e de venda de apartamentos) tem uma ressonância social que extrapola o universo evangélico. É quando ele se autocacifa como o grande defensor da família, da moral e dos bons costumes. Discurso conservador que poderia – ou deveria – ser da Igreja Católica ou dos partidos de oposição ao PT. Ele fez campanha acirrada contra a eleição da Dilma e do Haddad, perdeu nas duas, mas saiu “vencedor” porque se tornou a voz que denuncia os avanços sociais deste governo na questão do aborto e da homossexualidade. Quem é a oposição política ao Governo Dilma, hoje? O DEM morreu. O PDSB está respirando por aparelhos, e os demais partidos fazem figuração. Portanto, com a aprovação popular e força que a Dilma tem hoje, poderia, se quisesse, avançar nas duas questões apontadas. Mas há um Silas Malafaia no meio do caminho. Não um Malafaia  e isolado, mas sua institucionalização: tudo e todos que sua fala representa; uma massa popular refratária e, principalmente, ciosa das questões da sexualidade. Com o STF no encalço, o PT e todas as suas pretensas posturas progressistas estão na defensiva. E entre defender os gays ao Dirceu e sua curriola, não há muita opção.

Segundo, o principal e melhor resultado do Malafaia é interno. Nesse ambiente protestante, em que todos podem se manifestar, dar sua interpretação bíblica, defender seu posicionamento e até abrir uma igreja, temos muita propensão ao personalismo. Ganha quem é melhor na fabulação; é ouvido quem fala mais alto; tem espaço quem aproveita a oportunidade; sobressai quem – com verdade ou falsidade – tem carisma. Como ensina Weber, carisma é um caráter de excepcionalidade que uma pessoa tem e é legalizado e reconhecido por seus seguidores. Elementar. Sem entrar no mérito de concordar ou não com o discurso, nisso o Malafaia é exemplar. Todos os demais pastores milionários emudeceram diante da publicação da Forbes, mas o Malafaia está tonitruando que vai processar a publicação. Dá, assim, uma “satisfação” ao seu público interno, posa de injustiçado, e cacifa a si mesmo, ainda mais.

Assim, neste vácuo institucional de representatividade do mundo evangélico protestante, o Malafaia conseguiu o que ninguém ainda havia conseguido. E mais um detalhe interno do mundo protestante: as centenárias denominações evangélicas, herdeiras de Reforma, com tradição europeia e americana, majoritariamente estão em crescimento negativo. Mesmo a maior igreja pentecostal no Brasil (que na verdade é um aglomerado de igrejas distintas com um mesmo nome), a Assembleia de Deus, na década 1990-2000 cresceu 245%, mas na década seguinte, 2000-2010, apenas 46%, quando até a IURD cresceu menos. A explosão evangélica no Brasil se deu entre igrejas autônomas de perfil pentecostal, são centenas de igrejas espalhadas pelo país, grupos locais ou regionais. Quem fala por elas ou quem fala o que elas querem ouvir?

A frase final da Marília Gabriela foi: “Que o meu Deus, que eu não sei se é o mesmo que o seu, te perdoe”.

Ele usa o espaço do programa dela para se promover, e ela usa um pastor polêmico para alavancar sua audiência. Espero que Deus tenha um bom estoque de perdão, porque vai precisar perdoar muita gente. Eu, inclusive.

Gedeon Freire de Alencar

Gedeon Freire de Alencar

Bacharel em Filosofia pela UECE, mestre em Ciências da Religião pela UMESP e doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP. É membro da Igreja Betesta. Escreveu o livro Protestantismo Tupiniquim: Hipóteses Sobre a (não) Contribuição Evangélica à Cultura Brasileira, livro vencedor do Prêmio Areté 2006, e Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus – 1911-2011, pela Editora Novos Diálogos.

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