A Eleição e as Eleições

21 de outubro de 2014
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Existem dois temas que dividem os evangélicos, dentre outros tantos: a eleição enquanto questão teológica e as eleições enquanto questão política. De alguma forma os dois estão relacionados e vale uma reflexão ante o atual cenário do segundo turno das eleições para presidente da república.

O primeiro tema vem de uma longa duração ou tradição, desde o período pós-reforma ou até antes, quando agostinianos e pelagianos, calvinistas e arminianos polarizaram os debates acerca dos critérios divinos para salvar uns e não outros e do grau de participação e autonomia humana no seu destino eterno. O segundo tem uma curta duração porque votar ainda é uma experiência recente na outrora instável, ameaçada e interrompida democracia brasileira.

Se a eleição implica nos decretos divinos envoltos em propósitos inalcançáveis à mente humana, as eleições funcionam segundo os decretos humanos sujeitos aos interesses dos grupos e dos indivíduos, aos programas dos partidos, às alianças e aos pactos possíveis entre as forças políticas atuantes. Estas também acontecem em meio a disputas, temores, discriminações, interesses, acirramentos de ânimos, ódios e conflitos ideológicos de classe.

Por um lado, é necessário reconhecer que esta demanda faz parte do jogo político e da própria democracia. Não há como conciliar de todo os conflitos tão complexos surgidos numa ordem política e econômica atravessada por agudas contradições. Por outro, ela reproduz certos sentimentos e valores até não conscientes que foram tecidos numa cultura política historicamente marcada por séculos de desigualdades, exclusões e preconceitos.

No Império somente os abastados votavam porque o voto dependia da renda para usufruir deste privilégioautoconcedido. Negros escravos e forros, indígenas, mulheres, analfabetos e até segmentos médios letrados ficavam de fora das eleições que ainda eram determinadas em seus resultados pelas fraudes. Apesar da República proclamada e do direito universalizado do voto não houve o avanço quantitativo da participação popular, mas a permanência das restrições às mulheres, aos analfabetos e aos que não possuíam renda mantiveram o mesmo percentual de pouco mais de 1% de votantes!

Isso porque, pelos decretos e arcanos simulados das elites governantes do país, a cidadania era uma concessão controlada e temerosa ante a participação popular direta na coisa pública. Quando o voto universal foi sendo estendido a todos os segmentos, seja pela pressão popular das greves, dos partidos progressistas, dos segmentos liberais, dos movimentos sociais e das classes médias emergentes, ainda assim esteve sujeito aocabresto das camadas dirigentes. Este voto de cabresto se perpetuou sob outras modalidades mais sofisticadas e disfarçadas no campo religioso evangélico, por exemplo, como bem denunciou a Rede Fale acerca do voto de cajado praticado nas igrejas evangélicas.

As tentativas golpistas desde Getúlio Vargas até o sucesso do golpe de 1964 representaram o esforço de conter as massas em suas reivindicações legítimas por justiça social, salário justo, reforma agrária, educação e outras temáticas básicas. O regime militar favoreceu a violência contra os movimentos sociais e aprofundou, nos segmentos médios e dirigentes da sociedade, o medo diante de qualquer processo de empoderamento das populações secularmente desassistidas e excluídas.

Daí o ressurgimento de leituras rancorosas, senão odiosas, voltadas contra políticas que favorecem a elevação da condição social dos mais empobrecidos, por meio de políticas sociais efetivas. Reacendem os velhos horrores ante as ameaças do comunismo travestidos nos discursos preconceituosos aos nordestinos e aos favorecidos por estas políticas sociais enquanto vagabundos que sobrevivem a custas dos recursos públicos.

Se o voto é um gesto cívico perpassado por tantas implicações ele não pode tornar-se refém de motivações determinadas pelo medo, pelo rancor e pela coerção. Sobretudo, escolher pelo voto um(a) candidato(a) deve contribuir muito mais para um processo de mudança em direção à justiça social, à distribuição de renda e ao aprofundamento da democracia. Não estamos votando em messias, antes em processos de mudança reais ou na conservação de privilégios aos segmentos elitizados.

A eleição divina tem como motivação a graça e a inclusão de todo(a)s que se arrependem, sem acepções, sem preconceitos e sem interesses, pois Ele morreu pelo mundo todo por amor. Incondicional. Daí ela ser tambémpolítica no sentido em que “os que nada são” foram escolhidos e transformados em gente, filhos e filhas de Deus. Os excluídos são aceitos e os pobres se tornam ricos na fé para serem sujeitos na história da salvação. A subclasse da humanidade se torna protagonista porque foi escolhida para ser povo de Deus igualmente aos demais que se julgam escolhidos pela condição social superior.

Sendo assim, a eleição é um ato político de Deus. E isto se demonstrou nos dias do ministério do seu Filho. Ao invés do berço no palácio de Herodes, escolheu a manjedoura num estábulo anônimo de Belém. No lugar dos ministros de estado, esteve na companhia dos pastores do campo. Não priorizou a Judéia como lugar do ministério, mas a Galileia dos gentios, terra onde havia sombra e morte. Na maior parte do tempo ele andou nas aldeias, nas vilas, nas ruas, nas sinagogas e nas margens do mar entre pessoas simples, pescadores, mulheres, enfermos, endemoninhados e lunáticos. Seu programa ministerial era político conforme expresso em Lucas 4.18: dar vista, curar, restaurar, libertar e anunciar.

Sem ódio e sem medo.

Publicado originalmente em: http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-eleicao-e-as-eleicoes

Lyndon De Araújo Santos

Lyndon De Araújo Santos

Lyndon de Araújo Santos é pastor congregacional em São Luís, MA. É bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional do Rio deJaneiro, licenciado em História pela UNESP-Franca, mestre em Ciências da Religião pela UMESP e doutor em História pela UNESP-Assis. É professor do Departamento de História da UFMA e presidente da FTL-B e da Associação Basiléia. É casado com Márcia Regina e tem três filhas: Ludmilla, Mariana e Beatriz.

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