A graça e a economia política: a novidade de Alegria do Evangelho (Parte VII)

14 de junho de 2014
Aprenda a atrair dinheiro

Vimos nos dois artigos anteriores que o fetichismo do dinheiro no capitalismo leva as pessoas a julgarem o valor de si e de outras pessoas a partir do valor econômico que possuem. Com isso, os problemas dos pobres não são considerados problemas importantes porque eles não são importantes. Essa é a razão da insensibilidade social frente aos excluídos que o papa Francisco denuncia no documento Alegria do Evangelho.

Diante dessa realidade social, vimos também que a experiência da graça e a fé no Deus que não faz distinção entre as pessoas (Rm 2) nos leva a ver, para além das diferenças sociais, que todo ser humano tem uma dignidade fundamental; e que os problemas que ameaçam a vida dos pobres são (ou deveriam ser) importantes para toda a sociedade.

Nas décadas de 1960 e 1970, a Igreja na América Latina, movida por essa fé, tomou consciência do fenômeno de exploração e opressão que abatia sobre o povo. Mas, como o documento do papa diz: “já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’.” (n.53).

Diante dessa realidade desumana, é preciso resgatar a centralidade teológica da “graça”. É preciso mostrar que os pobres e excluídos também têm direito a viver uma vida digna. E esse direito não nasce do seu poder econômico (que não têm), mas da sua dignidade humana; porque essa dignidade, que não pode ser medida e comparada, é algo que nos foi “dada” gratuitamente pelo fato de sermos seres humanos.

Ao introduzirmos a teologia da graça na discussão econômica, não devemos cair no equívoco de que a economia deve ser regida pelo princípio da graça. Na economia, os bens econômicos, por serem escassos em relação às necessidades ou desejos humanos, devem ter seus valores quantificados para que se possam fazer cálculos econômicos e também as trocas mercantis. A teologia da graça deve nos mostrar a dignidade fundamental de todas as pessoas e, portanto, a importância dos problemas econômicos e sociais que afetam a vida daqueles que não podem pagar os preços exigidos pelo mercado.

Pelas leis do mercado absolutizado, as pessoas que não podem pagar os preços exigidos não têm direito a ter acesso aos bens que lhes permitem sobreviver. Isto é, pobres não merecem viver! É diante dessa inversão idolátrica que coloca as leis do mercado acima do direito à vida que devemos nos levantar e fazer dessa luta um tema central da nossa missão de evangelizar.

O alerta de que não se pode confundir o âmbito da teologia da graça com o da economia não pode nos levar a um outro equívoco: o de separar completamente o campo da teologia e da economia. A teologia ou os ensinamentos do evangelho não podem ser substitutos da economia, mas há aspectos teológicos e éticos nas teorias econômicas que devem ser discutidos na evangelização. Por isso, o Alegria do Evangelho critica a teoria econômica do “trickle down” (expressão inglesa usada na economia que foi traduzido na versão portuguesa do documento como “recaída favorável”). Essa teoria, que faz parte do ideário neoliberal, diz que os problemas sociais e da pobreza serão resolvidos na medida em que se aumenta a riqueza dos ricos, favorecidos pelo livre mercado, e parte dessa riqueza cai como gotas para baixo. Com essa ideologia se cortou os impostos dos ricos e justificou-se a concentração absurda de riqueza que ocorreu nas duas últimas décadas em todo o mundo capitalista.

Em resumo, a esperança dos pobres e excluídos estaria no aumento da riqueza dos ricos. Não haveria contradição entre os interesses dos ricos capitalistas e os trabalhadores pobres. É a ideologia do fim da “luta de classes”. A libertação dos pobres e excluídos das suas condições sub-humanas de vida e de morte viria através do mercado livre que aumenta a riqueza dos ricos. Essa tese não tem nada a ver com “ciência econômica”, é expressão de uma fé idolátrica no mercado e de cinismo frente aos sofrimentos e mortes dos pobres. Por isso, o papa denuncia dizendo: “Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante” (n.54).

A experiência de sermos amados gratuitamente por Deus deve nos levar a reconhecer o direito à vida digna dos pobres e excluídos, daqueles que a sociedade não considera merecedores de vida digna porque não têm como pagar pelas mercadorias. Em um contexto assim, lutar gratuitamente pela vida dessas pessoas, sem cobrar em troca valores econômicos ou até mesmo a vivência dos nossos valores morais e religiosos, é a forma apropriada de anunciar a boa nova de que Deus ama toda a humanidade gratuitamente.

E no campo da economia e dos problemas sociais, esse testemunho da misericórdia infinita e Deus precisam ser encarnados em ações e políticas econômicas e sociais que, mesmo não podendo ser regidos pela pura lógica da graça, assumam como prioritários os problemas que ameaçam a vida dos pobres, excluídos e marginalizados. Essa articulação entre a experiência da graça e economia política é uma forma de expressar a nossa fé no mistério do Deus que se encarnou em um ser humano pobre e marginalizado, anunciou e mostrou a presença do Reino de Deus entre nós e, por isso, foi crucificado pelo Império Romano.

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung é Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993), com Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, com Nestor Míguez e Joerg Rieger, Para além do Espírito do Império: novas perspectivas em política e religião (Paulus, 2012).
Jung Mo Sung