A idolatria do(de) Mercado: contra a teologia política neoliberal

6 de março de 2015
Crony Capitalism_640

Como ser liberal e conservador ao mesmo tempo? Simples, basta que ambas as palavras se refiram a esferas [1] diferentes do mundo, e da vida, que a conta fecha. Ou pelo menos convence boa parte dos leitores e do público evangélico em geral. Essa parece ser a nova posição defendida pelo teólogo brasileiro Franklin Ferreira: teologicamente conservador (ortodoxo, ou reformado); e politicamente liberal – no sentidoeconômico, apenas. Nesta série de textos, vou responder aos cinco principais argumentos de Franklin em alguns de seus posts recentes [2] na revista Teologia Brasileira, demonstrando a fragilidade conceitual de sua posição. Nestes textos o autor procura fazer um convite aos cristãos para adesão a um sistema ideológico: oliberalismo econômico. Isso fica claro ao ler ao menos dois de seus textos em sequência. O primeiro post a que me refiro abre o tema com uma comparação limitada entre os conceitos atuais de “esquerda” e “direita”. Já o segundo, onde o autor revê e atenua algumas de suas posições no primeiro, se encerra com uma bela citação do teólogo neo-ortodoxo Karl Barth, alertando os cristãos para os perigos de se permitir que uma posição sociopolítica – ou ideológica – seja superior a sua própria fé. Finalmente, coloca em pauta o objeto de pancadaria do autor: o socialismo que, segundo ele, é uma “visão de mundo rival do cristianismo”.

Contudo, gostaria de deixar bem claro que todos os argumentos aqui expostos se dirigem contra as ideias do autor a quem me refiro, e não contra sua pessoa. Isso deveria ser óbvio mas, nesse caso, merece ser dito preliminarmente, por uma simples razão: considero o teólogo Franklin Ferreira um amigo pessoal – um irmão. Fui seu discípulo – no sentido integral em que a palavra é empregada no contexto protestante brasileiro. Quando adolescente, e ainda recém convertido ao Cristianismo, me juntei a um seleto grupo de quatro jovens com quem o então seminarista Franklin Ferreira organizava estudos bíblicos e debates teológicos, exibição de filmes e futebol – as duas últimas atividades contavam com um grupo maior de 20 pessoas…afinal, não é fácil chamar jovens para ler e discutir um catecismo numa sexta-feira à tarde. Além disso, trata-se de um autor exemplar: ainda novo, sua obra já conta com inúmeras publicações, dentre elas uma das poucas obras de Teologia Sistemática escrita por um autor brasileiro.

Confesso, ainda, ao iniciar essa série de artigos, que relutei muito em responder a Franklin: talvez pelo peso de tê-lo tido como referencia teológica; ou talvez pelo simples trabalho de articular uma resposta aos seus textos – que trazem referências de primeira e segunda mão meticulosamente trabalhadas, exigindo esforço de quem se presta a uma resposta. Mas decidi encarar a tarefa por dois motivos. Em primeiro lugar, porque há aproximadamente 6 anos, travei um longo debate com o autor e outros interlocutores, neste tema – um debate que se estendeu por quase 3 anos, e de onde parece ter se originado boa parte dos argumentos que ele levanta nos seus textos atuais. O debate havia se iniciado pelo incômodo que senti, à época, ao ver que dois ou três líderes eclesiásticos influentes no meio dito cristão reformado, aderiam sem reservas às ideologias neoliberais disponíveis no mercado político norte-americano – no caso aderiam ao que se denomina republican and conservatives, nos EUA.

Em segundo lugar, a resposta segue porque boa parte dos argumentos que ele traz acabam se reproduzindo para dentro e além deste universo cristão reformado, um contexto no qual cresci e do qual boa parte dos meus amigos faz parte – jovens que ele ataca como parte de uma “Geração Coca-cola”, e que recentemente utilizaram destes argumentos em discussão comigo nas redes sociais. Aliás, ambos os textos chegaram a mim por parte deles: um me acusou de ser um cidadão de “classe média alta” que não sabe nada do Brasil, por gozar de uma bolsa no exterior; e o outro, equiparava nazismo e comunismo, atacando o governo atual, petista, como sendo mais ou menos as duas coisas ao mesmo tempo. Mas vamos aos textos.

Em Espectro político, mentes cativas e idolatria, Franklin defende, como tese central, a ideia de que é praticamente impossível ser cristão e socialista. A opção política pelo socialismo, além de ser sempre a escolha por um regime político autoritário – e assassino –, seria um tipo de heresia que substituiria, necessariamente, Deus pelo Estado. Já no segundo texto, Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho, após atenuar alguns dos argumentos do primeiro texto – revisitando, por exemplo, o Diagrama de Nolan [3] –, o autor sustenta que não há partido propriamente “de direita” no Brasil, e até que nunca houve um governo de fato liberal na história do país…

Franklin faz isso através de cinco teses centrais, que passo aqui a explicitar, e rebater:

1) a direita não pode ser autoritária: ao colocar o indivíduo e a garantia as liberdades individuais em primeiro plano, não haveria possibilidade de um regime ser ao mesmo tempo autoritário e de direita.

Os regimes políticos geralmente classificados como extrema direita, para Franklin, o são por equívoco, por uma mera “contradição entre definição conceitual e realidade histórica”: a direita, digamos, pura, seria somente aquela que adere ao liberalismo econômico, garantindo propriedade privada, direitos individuais e eleições livres aos cidadãos. Por outro lado, nessa leitura, todo totalitarismo seria “esquerda”, no qual se encaixariam tanto os regimes comunistas, como os nazistas e fascistas. A estratégia do autor é tentadora: ao adotar um conceito diferente de direita e esquerda, a primeira aparece como a única opção realmente democrática.

É com essa perspectiva que Franklin comete seu primeiro erro conceitual: há uma diferença significativa entretotalitarismo e autoritarismo que passa batida pelo texto do autor. Embora ele faça citações [4] que fazem o leitor acreditar que compreende a diferença entre os termos, Franklin se detém apenas a explicar o primeiro, totalitarismo, ignorando o segundo, o autoritarismo – o mais relevante para compreendermos a associação entre fascismo e liberalismo econômico na América Latina, como vou argumentar mais a frente.Totalitarismo, em linhas gerais, se refere aos regimes políticos de partido único, onde o Estado molda toda a sociedade e a absorve em si; enquanto autoritarismo se refere a práticas e governos antidemocráticos, de poder concentrado num indivíduo (ditador) ou numa junta governamental – ou ainda, em monopólios e oligopólios corporativos –, e que podem existir ao mesmo tempo que práticas de livre mercado e eleições relativamente livres.

No entanto, ainda que ignorássemos o erro conceitual de Franklin no debate, sua estratégia de adotar um novo conceito para salvar sua posição política cai por terra facilmente, diante da realidade histórica. Isso fica mais claro no segundo texto que analisamos aqui, quando observamos o uso que o autor se propõe a fazer do Diagrama de Nolan que, por sua vez, demonstra a possibilidade de uma posição política, por exemplo,libertária e de esquerda (nesse caso, por definição, anarquista). Mesmo diante do esquema visual, o autor insiste em ignorar a existência desse tipo de posição. Para ele apenas a direita – em estado hipoteticamentepuro e liberal, como veremos a seguir, é capaz de garantir um bom estado e governo.

Por outro lado, a tese teológico-política central de Franklin parece ignorar também a existência e as consequências do que podemos chamar de uma “teologia política” [5] secular: algo que tem ocupado o centro dos debates da teoria política e do direito público, durante praticamente todo o século 20. Mas não há nenhuma menção nos textos de Franklin, por exemplo, às obras de Carl Schmidt [6], ao seu extenso debate com Hans Kelsen [7] sobre Constitução e Soberania e sobretudo – e talvez de maneira mais importante –, ao debate sobre o conceito de Estado de Exceção: justamente o dispositivo constitucional, ao mesmo tempo jurídico e político, que garante a possibilidade de regimes economicamente liberais (e supostamente democráticos) se tornarem autoritários, justificando a suspensão de garantias e direitos individuais fundamentais, em nome da segurança nacional e/ou da economia [8]. Talvez seja por ignorar a noção e o uso histórico (e mesmo recente, no caso brasileiro) de medidas de exceção; ou por ignorar qualquer tipo de teologia política que não seja aquela produzida por “crentes”, que Franklin acabe se confundindo, e não percebendo a possibilidade, a existência e as características históricas de um método liberal de governo autoritário.

Mas esses não são os únicos problemas com a primeira tese de Franklin. Ao tentar rechaçar um argumento de Paul e Raphael Freston [9] sobre o tema, o autor comete outro erro grave no debate político: atribui aos seus adversários o mesmo artifício que emprega. Franklin alega que os socialistas geralmente comparam osocialismo utópico com o capitalismo real, dando obviamente preferencia ao primeiro; quando deveriam comparar o “socialismo real” – no caso, os países ditos comunistas, alinhados com a antiga URSS – com o capitalismo real. Entretanto, Franklin parece fazer exatamente a mesma coisa em sua defesa do liberalismo econômico e, por tabela, do sistema capitalista de produção: ele compara os países comunistas decadentes ao que podemos chamar de um liberalismo utópico. Nesse ponto, sua teoria (ou teologia) parece se deslocar completamente da realidade, ignorando que países liberais tiveram – e têm! – colônias, que impuseram sua força e dominação a outros países de maneira pecaminosa, exterminando povos, culturas e civilizações em nome da introdução e defesa do seu “livre mercado”. Parece que casos de autoritarismo e tortura em solo nacional, assim como o financiamento de ditaduras e do terrorismo internacional por países economicamente liberais, como os Estados Unidos da América, ou o Reino Unido, nunca existiram para Franklin – apenas a título de exemplo, vale lembrar o envolvimento do Reino Unido nos casos de tortura de irlandeses tanto em processo aberto ainda na década de 1970, e reaberto recentemente, sob o título Ireland v UK (Five Techniques) [10], quanto no famoso caso The Guilford Four [11]; do lado dos Estados Unidos, há inúmeros casos que poderiam ser citados aqui, mas para os propósitos deste texto, gostaria de relembrar apenas o assassinato do Comandante do Exército Chileno, o General René Schneider [12], e o atual e problemático caso deGuantánamo, um campo de concentração pós-moderno.

No plano internacional, o que Franklin faz nos textos é equipar um liberalismo teórico e ideal ao stalinismo soviético da pior espécie. Sua posição não dá conta das críticas contemporâneas ao modelo de capitalismo atual que vem da própria direita; nem aquelas que têm origem na esquerda democrática, ou socialista. Como exemplo de uma crítica do primeiro grupo, poderíamos citar a noção de Croony Capitalism [13] (ou capitalismo de conchavo), cunhada pela direita libertária estadunidense, que descreve o estado atual do capitalismo sob oliberalismo real, concreto, como sendo um sistema que impede a própria livre concorrência e igualdade de oportunidades no mercado: sempre em benefício de grandes corporações e empresas, capazes de alterar as regras do jogo político (e do mercado) em busca de lucro.

Da mesma forma como Franklin não concebe que possa haver uma esquerda democrática, também não dá a devida atenção as críticas oriundas deste campo do espectro político, que demonstram a existência e as características de movimentos sociais e regimes de direita autoritários, capazes de articular elementos ao mesmo tempo fascistas e economicamente liberais [14] em suas cartilhas. Um bom exemplo dessa posição é o conceito de Friendly Fascism [15] (ou Fascismo “gente boa”) desenvolvido pelo cientista político norte-americano Bertram Gross, para explicar a problemática situação política dos Estados Unidos. Segundo Gross, ofascismo-gente-boa ocorre quando um governo é dominado por uma oligarquia formada por grandes corporações que trabalham apenas para expandir seus poderes e privilégios em detrimento da constituição, e sem se importar com as consequências econômicas disso para a maior parte da população. Embora o domínio de corporações sobre uma sociedade economicamente liberal possa guardar semelhanças teóricas com a noção de corporativismo [16], defendida no fascismo italiano, o autor faz questão de deixar claro que essefascismo-light não nos dominará utilizando camisas pretas, partidos de massa ou homens a cavalo; ele será conduzido por executivos, cartões de crédito e “tortas de maçã”: será um “fascismo sorridente”. Da mesma maneira, a subversão da democracia constitucional também não ocorreria de forma violenta: mas sim, pela lenta, gradual, segura e silenciosa usurpação de direitos e liberdades do povo – ou, como argumenta Giorgio Agamben, pela simples decretação de um estado de exceção, capaz de colocar a democracia “em suspenso”.

Nesse sentido, é interessante observar como os ideais utópicos do liberalismo econômico [17] se distinguem do fenômeno que foi denominado de neoliberalismo [18], no período final da Guerra Fria. Os governos tachados de neoliberais, com frequência foram também – pelo menos no uso retórico do termo –, acusados de fascismo. Tanto os governos de Margareth Thatcher, quanto os governos de seus aliados como Augusto Pinochet [19], Ronald Reagan e, posteriormente, George Bush, foram governos economicamente liberais e politicamente conservadores – ao ponto de se entrecruzar com posições fascistas –, e que certamente contribuíram para a caracterização do atual modelo de fascismo-boa-praça que nos cerca [20].

A direita liberal real é aquela que implementa medidas de segurança autoritárias, suprime liberdades fundamentais e garante os privilégios de corporações, mesmo que em detrimento da livre concorrência e da igualdade de oportunidades – aliás, estes dois últimos motes, recentemente, se tornaram lemas de grupos que estão a esquerda do espectro político. Como já argumentei antes [21], em referência às eleições estadunidenses de 2012, quem defende de verdade os mais pobres, a classe media e a pequena burguesia hoje é a esquerda que se representou, ainda que efemeramente, no movimento Occupy Wall Street. A direita economicamente liberal norte-americana – no caso, conservatives and republicans –, e mesmo a europeia, é formada quase que por uma classe social híbrida, uma espécie de aristocracia-burguesa que na verdade não produz, vive de renda e de lucros de commodities e, por isso, não paga impostos – ou tenta não pagar impostos. Gente que não sabe quanto as coisas custam no dia a dia do povo, simplesmente porque nunca precisou saber, nunca viveu os altos e baixos dos serviços públicos e do mercado.

* Publicado originalmente em: http://ultimato.com.br/sites/dignidade/2015/03/04/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal/

Notas:
[1] Utilizo aqui a palavra no senso comum, embora reconheça que a noção de “esfera” tenha um significado particular no pensamento reformando e nos meios intelectuais conservadores – especialmente no que se refere a obra de Abraham Kuyper. Para entender o uso reformado do termo, ver: Kuyper, Abraham.Calvinismo, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2002.
[2] Nessa série de artigos, responderei a diversos argumentos de Franklin Ferreira que se encontram em 3 artigos diferentes. A maioria dos argumentos, no entanto, se encontram nos seguintes artigos: “Espectro político, mentes cativas e idolatria”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=381; E, com especial atenção também ao artigo “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392.
[3] O Diagrama de Nolan é um esquema visual de autoria do cientista político estadunidense, David Nolan. O esquema se propõe a demonstrar posicionamentos políticos em termos visuais. Cf.http://pt.wikipedia.org/wiki/Diagrama_de_Nolan.
[4] Me refiro a nota de número 3 no artigo “Espectro Político, mentes cativas e idolatria”, disponível emhttp://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=381. Nesta nota, Franklin cita a obra “As Origens do Totalitarismo” (1979), de Hannah Arendt, e é a partir desta definição que baseia suas assertivas a respeito do que é totalitarismo. Nesta obra, que está centrada no contexto europeu, o conceito de “totalitarism” aparece inúmeras vezes, como é óbvio; mas a palavra “authoritarianism”, aparece apenas uma vez (p.364), exatamente para reforçar a importância em distinguir os dois fenômenos: “The so-called ‘leader principle’ is in itself not totalitarian; it has borrowed certain features from authoritarianism and military dictatorship which have greatly contributed toward obscuring and belittling the essentially totalitarian phenomenon”. Ou seja, mesmo Arendt reconhece que há uma diferença entre regimes totalitários e ditadurasmilitares. Em nenhum lugar no texto, porém, Franklin chega a explicitar o que é autoritarismo, o que prova que nestes textos, o autor se utilizou apenas dos conceitos que fortalecem suas teses – ainda que diminuindo sua credibilidade para o contexto da América Latina.
[5] Essa tese é formulada primeiramente por Carl Schmitt, para quem “Todos os conceitos da Teoria do Estado Moderna são conceitos teológicos secularizados”. Ver: Schmitt, Carl. A Teologia Política. Del Rey, 2006, p.35.
[6] Schmitt foi um acadêmico alemão, católico e conservador, considerado até hoje um dos maiores críticos do liberalismo (político e econômico). É também o jurista a quem se atribuem muitas das formulações jurídico-políticas do nacional-socialismo – como aponta seu ex-aluno e crítico Franz Neumann. De acordo com Neumann, Schmitt teria protagonizado uma atuação política muito maior do que o papel de intelectual que comumente lhe atribuem, rearticulando o empresariado liberal alemão para apoiar o Nazismo através das promessas de monopólio do regime. Nesse sentido, ver: NEUMANN, Franz. Beremoth – pensamiento y acción en el nacionalismo-socialismo. México: FCE, 1943, p.63.
[7] Nesse sentido, ver: Suganami, Hidemi. Understanding sovereignty through Kelsen/Schmitt. In: Review of International Studies. V.33, Issue 03. Cambridge Journals Online, 2007.
[8] A discussão sobre as implicações do Estado de Exceção é extensa, e mobilizou autores como Carl Schmitt, Walter Benjamin, e Hans Kelsen, dentre outros. A leitura mais recente e interessante do problema, bem como a descrição detalhada das inúmeras decretações e do uso do dispositivo na Europa no período entre guerras foi feita por Giorgio Agamben. Cf: AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Sao Paulo: Boitempo, 2004.
[9] Me refiro ao artigo “De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos”, publicado pela Revista Ultimato e disponível online em: http://www.ultimato.com.br/conteudo/de-esquerda-ou-de-direita-sejamos-inteligentes-e-cristaos.
[10] Trata-se de processo envolvendo o uso deliberado de técnicas de tortura contra prisioneiros em métodos que relembram – ou inspiram – os que foram utilizados recentemente na Guerra do Iraque, em Abu Grahib, pelos Estados Unidos. Para maiores informações sobre o processo, a página da Wikipedia no caso traz links diretos: http://en.wikipedia.org/wiki/Five_techniques.
[11] Este processo ficou famoso quando posteriormente foi retratado no filme estadunidense “Em nome do Pai”. Mas os casos aos quais o filme se refere ocorreram sob vários processos, e maiores informações no original podem também ser encontradas a partir de visita à página http://en.wikipedia.org/wiki/Guildford_Four_and_Maguire_Seven.
[12] Segundo documentos da CIA, o general chileno foi assassinado por militares de direita, naquele que foi o maior atentado terrorista contra autoridades latino-americanas financiado e arquitetado – com doação de armas -, pela Embaixada Americana no Chile, em 1970. Cf: Elio Gaspari, A Ditadura Escancarada, 2a edição, 2014.
[13] Para uma definição do termo é útil o artigo de Peter Schweizer intitulado “A crise moral do capitalismo de conchavo”, publicado na revista liberal Religion & Liberty, disponível em: http://www.acton.org/pub/religion-liberty/volume-23-number-1/moral-crisis-crony-capitalism. A crítica cai como uma luva ao discurso economicamente liberal e politicamente autoritário que sempre foi a tônica dos partidos políticos liberais no Brasil – argumento que desenvolverei mais a fundo nos próximos artigos.
[14] O argumento de Franklin de que se posicionar em defesa apenas do liberalismo econômico não passa de estratégia retórica que, ao ser analisada nos detalhes, e associada aos problemas comuns de tradução, apenas ajudam a confundir os leitores. Neste sentido, é importante esclarecer que nos Estados Unidos, o adjetivo “liberal” geralmente se refere a grupos associados ao Partido Democrata, que no espectro politico daquele país está à esquerda, junto com os intitulados “progressives”. O liberalismo economico defendido por Franklin, na realidade, está muito mais próximo de uma posição conservadora, do que propriamente liberal, deste ponto de vista. Por outro lado, a afirmação de que regimes fascistas são de esquerda não subsiste a uma investigação histórica rigorosa, sem que sejam alteradas os sentidos básicos em que os conceitos foram utilizados. Da mesma forma, a relação entre partidos políticos e movimentos sociais de extrema direita, no início do século 20 é quase que explícita, se analisarmos o que sobra neste campo após a queda dos regimes fascistas, no pós-guerra. Nesse sentido, ver: Cf. Peter Davies, Derek Lynch. The Routledge Companion to Fascism and the Far Right, 2002.
[15] Cf. Bertram Gross, Friendly Fascism: The New Face of Power in America, South End Press: Boston, 1999.
[16] A Itália no período anterior à Segunda Guerra Mundial é um exemplo contundente de como proposições do liberalismo econômico podem ser combinadas com a ideologia fascista: “Os industriais italianos desenvolveram uma ideologia produtivista liberal-tecnocrata bastante sofisticada que constituiu um núcleo ao qual eles permaneceriam constantemente e impressionantemente fiéis, antes, durante e mesmo depois do Fascismo. Diferentemente dos alemães (…), os industriais italianos eram profundamente ideológicos e, de fato, interviram ideologicamente na construção de um sedutor estado fascista. Quando eles, também, foram forçados a se acomodar ao regime fascista, o fizeram de uma posição de relativa autonomia e força, redefinindo a seu favor noções básicas, e ambíguas, dos princípios fascistas, como o corporativismo” (Prefácio, p. x). Cf. Franklin Hugh Adler, Industrialists from Liberalism to Fascism: The political development of the industrial bourgeoisie, 1906-1934, Cambridge University Press: Cambridge, 2002. Tradução livre do autor.
[17] Há uma contradição e distância gigantesca entre o que defendem os políticos liberais e os ideais do liberalismo utópico – contradições que são explicáveis pelo papel do capital na teoria marxista. Me refiro aqui a alguns principios do liberalismo clássico, como por exemplo, o Princípio da Utilidade, conforme proposto por Jeremy Bentham, que determina que o dinheiro pode ser mais útil nas mãos do pobre, do que do rico. Cf: Bentham, Jeremy. Principles of Moral and Legislation, 1979, pp.14-26; ou, ainda, a noção de que o trabalho e seu fruto devem ser, sempre e inquestionavelmente, propriedade do trabalhador, conforme proposto pelo próprio John Locke. Cf. Locke, John. Two Treatises of Government, CUP, 1965, pp. 326-330.
[18] O termo neoliberal pode facilmente ser equiparado a designação de neoconservador (neocon), conforme utilizado nos Estados Unidos. Embora naquele país possam haver diferenças significativas entre as duas posições, na América Latina, em geral, as duas se equiparam na defesa da economia de livre mercado associada a medidas autoritárias de controle político.
[19] A ditadura chilena de Augusto Pinochet foi uma autêntica ditadura autoritária, e economicamente liberal. Suas relações com o governo de Thatcher no Reino Unido são amplamente conhecidas e, foi por conta disso que o ditador resolveu se tratar de saúde lá. Neste sentido, ver:http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/467114.stm. Em uma dessas visitas, teve sua prisão decretada pela Corte Internacional de Direitos Humanos e, não fosse por uma tecnicalidade processual – o teste de viés aplicado a House of the Lords, na época –, teria sido extraditado para julgamento. Os detalhes do caso podem ser encontrados nos seguintes processos: Bartle and the Commissioner of Police for the Metropolis and Others, Ex Parte Pinochet, R v. [1998] UKHL 41; [2000] 1 AC 61; [1998] 4 All ER 897; [1998] 3 WLR 1456 (25th November, 1998); Pinochet, In re [1999] UKHL 1; [2000] 1 AC 119; [1999] 1 All ER 577; [1999] 2 WLR 272 (15th January, 1999); Pinochet, Re [1999] UKHL 52 (15 January 1999); Commissioner of Police for the Metropolis and Others, Ex Parte Pinochet [1999] UKHL 17 (24 March 1999).
[20] Aliás, importa mencionar, há até quem faça um paralelo direto e explícito entre os discursos e propostas utilizados por partidos e pessoas nessas posições, e aqueles dos fascistas do passado. Nesse sentido ver: Joseph Burrell, Republican Treason: Republican Fascism Exposed. Algora, 2008.
[21] Me refiro ao texto “Entre o Homem de Lata e a Dama de Ferro”, onde tracei uma comparação entre as imagens produzidas pelo cinema popular contemporâneo, reconstruindo a imagem de Margareth Tatcher quase como uma “progressista”. O filme foi lançado durante o ano eleitoral estadunidense; e, de certa forma, associado à campanha presidencial do candidato republicano estadunidense, Mitt Romney. Disponível em:http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=855.

Marcus Vinicius Matos

Marcus Vinicius Matos

Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGD/UFRJ). É membro da Coordenação Nacional da Rede FALE de defesa de direitos, e pesquisador associado do Instituto de Estudos da Religião. Doutorando no Birkbeck College, Universidade de Londres, onde leciona Teoria do Direito (Legal Theory II and II) e Direito de Propriedade (Property Law I – Land law). É também líder do ministério estudantil na igreja All Souls, em Londres.

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