A Igreja e o aborto, o que não foi dito

13 de outubro de 2010
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Há algum tempo quero compartilhar com irmãos e irmãs na fé algumas reflexões sobre o tema do aborto e a opressão das mulheres.

Infelizmente demorei a fazê-lo e, nesse momento, quando paro para escrever, estamos em meio a um debate público sobre posições cheias de rancor, preconceito de classe e machismo. Mais do que expressar uma posição contrária a uma candidatura, setores importantes da Igreja evangélica brasileira enunciam um discurso contrário à igualdade e à liberdade.

Quero dizer ainda que faço isso com muito temor e tremor diante do Deus a quem sirvo, afirmando minha submissão e obediência à Palavra e à revelação que vem de seu santo Espírito e também assumindo o papel de denúncia daquilo que tenho visto, ouvido e que enche meu coração de tristeza. O tema é delicado. Difícil. Muito criticado, pouco debatido entre nós e de grande importância.

Olhando nossas heranças históricas

Uma das grandes contribuições da Reforma Protestante à sociedade moderna e à democracia foi enunciar a importância do Estado laico. É verdade que, hoje, os desafios frente a esse tema são muito distintos com os quais se deparava Lutero, mas segue sendo relevante ao debate político e religioso.

Paul Freston, sociólogo cristão que gosto muito, publicou há alguns anos pela Editora Ultimato um livro com o título Religião e Política sim, Igreja e Estado não. O nome é muito feliz ao descrever a perspectiva de um cristianismo engajado em contraposição a uma Igreja que tenta impor suas opiniões para além dos que compartilham das mesmas.

O Estado tem seus deveres independente das religiões que professem os cidadãos e cidadãs de cada lugar. Seu papel é determinante não só na regulação de leis que coíbem a discriminação, mas também como agente de mudanças nas condições objetivas de vida dos menos favorecidos como as mulheres. Reconhecer suas demandas específicas e admitir a existência de desigualdade, e seu papel nas ações de combate a estas, é parte desse processo. Cabe a ele garantir direitos, e a vida das milhares de mulheres que morrem todos os anos pelo fato do aborto ser uma prática ilegal no Brasil.

Descobrir o papel da Igreja no que se refere aos excluídos e necessitados é fundamental para localizar uma atuação social e política. Nossa fé tem uma dimensão política que deve olhar para os que sofrem e padecem, os tantas vezes esquecidos por nossa estrutura religiosa pronta a defender uma vida em abstrato, mas distante de acolher as mulheres oprimidas .O evangelho da cruz nos chama a acolher as necessitadas e não condená-las ao escárnio público por meio da criminalização da prática do aborto.

As posições sobre o aborto que cultivamos em nossas estruturas não pode deixar de considerar a sobrecarga social que representa a maternidade para a maioria das mulheres. Assim, é preciso posicionar-se ao lado (ou adiante) da afirmação de que a maternidade tem uma função social, ou seja, que o poder público, e não só a mulher, tem responsabilidade em garantir serviços de saúde pré-natal, parto digno para todas, creche e educação de qualidade, entre outras políticas.

Todas as mulheres devem ter a possibilidade de decidir se querem ou não ter filhos e o momento de tê-los. Afinal, a maternidade deve ser sempre sinônimo de bênção e não castigo.

Diferenças no debate

A falta de tradição da Igreja evangélica brasileira em participar de debates públicos e intervir na política institucional faz com que, algumas vezes, suas posições estejam associadas diretamente às opiniões da Igreja Católica. Majoritária no Brasil, não é difícil entender que a grande influência e institucionalidade bem definida da igreja romana seja determinante em muitos temas nacionais, como o aborto.

A Igreja Católica enuncia que o sexo foi criado por Deus para a reprodução humana. Por isso defende o não uso de métodos contraceptivos e posiciona-se contrariamente à legalização e/ou descriminalização do aborto.

Já o ponto de vista protestante sobre o sexo afirma que esse não foi criado exclusivamente para a reprodução, mas também para o prazer. O sexo e o prazer são expressões da graça de Deus em nossas vidas. A consequência dessa afirmação é, por exemplo, que admitimos a possibilidade de que os casais, no livre exercício de sua sexualidade, possam evitar uma possível gravidez não planejada.

O que é o sexo e para que serve, ou em outras palavras, em que contextos as mulheres engravidam, fazem toda a diferença sobre como nos deparamos com o debate do aborto.

Diferente do que em geral se afirma, o debate sobre o aborto não é exclusivamente uma discussão sobre a vida, mas principalmente um debate sobre uma visão de sexualidade. Por trás de um discurso que pretende defender a vida, há opressão, desigualdade e manipulação da vida de milhões de mulheres.

Em 2010, foi publicada uma pesquisa sobre o perfil do abortamento no Brasil que indicava que 15% das mulheres brasileiras em idade reprodutiva, ou seja, 5.3 milhões, já fizeram um aborto. Uma em cada cinco mulheres aos 40 anos já fizeram um aborto. Ter em conta esse perfil é importante, pois muitas vezes o tema está associado à ideia de uma prática irresponsável da sexualidade, de jovens, da ausência de informações e métodos contraceptivos. Essas mulheres têm rosto, nome, endereço. Em geral, são casadas e já tem um filho e usam métodos contraceptivos. 75% são católicas e 25% protestantes ou evangélicas (1).

Diante disso, que temos a propor hoje como seguidores de Jesus comprometidos com um evangelho relevante? Que essas mulheres sejam presas? Simplesmente reproduzir o argumento católico não me parece suficiente para organizar uma posição da igreja evangélica diante de um tema complexo como esse.

Ao invés de empreender uma grande Cruzada contra as mulheres que por circunstâncias variadas e difíceis de julgar optaram por interromper sua gestação, é preciso encontrar-se com uma postura relevante ao nosso tempo histórico e coerente com Cristo a quem seguimos.

Olhando para Jesus

Em toda sua trajetória, Jesus expressa especial amor e acolhimento a todas as mulheres e crianças com quem se encontra. Durante todo seu ministério questionou uma religiosidade hipócrita e ultrapassou limites impostos pela Lei, propondo outra forma de relacionar-se com ela. Essa flexibilidade foi sempre um dos elementos mais difíceis de seus discípulos incorporarem e, por conseguinte, da Igreja. A lei do amor, o tempo da graça.

Em Mateus vemos que Jesus faz milagres para os excluídos e ao juntar a multidão começa o sermão do Monte. O que fazemos nós por esses oprimidos e qual Reino anunciamos para eles? E quando esses são as mulheres? O que temos a dizer a elas, se em nossas práticas e em nossa cultura religiosa reforçamos sua opressão?

A trajetória do povo de Deus, mesmo antes da constituição da Igreja, é marcada pela dureza dos corações, por um lado; e por outro, pela insistência de Deus em nos amar independente de nos afastarmos dessa flexibilidade e da necessidade de redimir um kosmos caído.

Por que insistimos em viver e anunciar um evangelho da Lei quando Cristo nos propõe um evangelho da Graça?

Obediência e justiça

Não quero repetir o que outros já disseram sobre o absurdo de setores da Igreja evangélica e católica reduzirem a discussão eleitoral ao tema do aborto e da união civil entre pessoas do mesmo sexo, deixando de abordar temas como a saúde e educação públicas, segurança, energia, estrutura de poder no campo, erradicação do analfabetismo, déficit de moradia etc. Entre milhares de temas, a Igreja escolhe o aborto e a união civil.

Faz isso por uma visão equivocada do evangelho e da graça de Deus. No pano de fundo desse debate está uma determinada visão sobre sexo e sexualidade, uma visão sobre o corpo e, em especial, uma visão sobre as mulheres e seu papel na sociedade.

Como lemos e interpretamos a Bíblia reflete muito sobre como vemos as questões de nosso tempo. Cada época lê as escrituras com olhos próprios. Isso significa que o Espírito Santo nos quer revelar coisas relevantes ao nosso momento histórico e que o evangelho tem uma mensagem fundamental em qualquer tempo. Mas também significa que a Bíblia já foi usada para justificar grandes absurdos que não tinham a bênção de Deus. Para explicar a escravidão, o racismo, a ideia de que mulheres não tinham alma, as cruzadas, a inquisição, a devolução de esposas etc., citava-se um versículo e parecia revestido de um manto de santidade.

A obediência a que somos chamados e chamadas é devida a Deus, ou seja, fidelidade ao caminho de Jesus. A exemplo de muitos cristãos e cristãs, obedecer a Deus significou por vezes desobedecer a autoridades políticas e religiosas.

O problema não é só como a Igreja se posiciona. Se adesista ou se retoma uma nova inquisição no século XXI, se apóia ou não esse ou outro candidato, mas sim o que significa anunciar um evangelho que, adoecido pelo pecado, coloca-se contra os excluídos e mais necessitados.

A Igreja não está a salvo do patriarcado, ou seja, desse sistema de dominação que exclui as mulheres. Pelo contrário, tem contribuído para aprofundar muitas das mazelas que elas sofrem.

Imagino as milhares de mulheres que poderiam fazer suas as palavras de Paulo ao dialogar profeticamente com a Igreja ao anunciar: “Vocês que procuram ser justificados pela Lei separam-se de Cristo; caíram da graça. Pois é mediante ao espírito que nós aguardamos pela fé a justiça, que é nossa esperança” (Gálatas 5.4, 5).

Escutemos o Santo Espírito da vida e arrependamo-nos. Anunciemos um evangelho de vida abundante para homens e mulheres que vivem e que sofrem.

Notas

(1) Pesquisa Nacional do Aborto 2010. Publicado na revista Época, também pode ser consultada em   http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232010000700002&lng=en&nrm=iso.

Sarah De Roure

Sarah De Roure

Sarah de Roure é historiadora de formação, cristã por vocação e militante feminista por opção.

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