A irracionalidade idolátrica do mundo: a novidade de Alegria do Evangelho

30 de março de 2014
Aprenda a atrair dinheiro
Há no documento “Alegria do Evangelho” (especialmente nos n. 50 a 62), do papa Francisco, uma novidade teórica que não está sendo muito comentada (pelo menos no que pude acompanhar) que penso ser fundamental para uma nova compreensão do mundo em que vivemos e da missão do cristianismo hoje. Por isso, quero comprometer-me a escrever uma pequena série de artigos sobre isso.
O papa inicia o segundo capítulo do documento dizendo que, antes de falar sobre algumas questões fundamentais da evangelização, convém falar do mundo em que vivemos e agimos (n. 50). Essa postura nos lembra o método “ver-julgar-agir”; porém é mais do que um simples “ver” a realidade para depois “julgar” se essa está de acordo ou não com o “projeto de Deus”, e depois “agir” ou planejar a ação. Isto é, a forma como o documento articula a visão da realidade e a evangelização não é linear – uma sequência que vai do primeiro passo para o segundo e depois o terceiro –, pois o próprio momento do “ver” não é autônomo e neutro (como pretende as ciências modernas) e anterior ao julgar, mas está influenciado pelo “julgar”. O papa diz que uma visão sociológica da realidade, com pretensão de neutralidade ética, não serve para quem está preocupada com a missão de evangelização (e nem para quem busca profundas transformações sociais), por isso é preciso fazer um diagnóstico da realidade social hoje na linha de “discernimento evangélico”.
Após a explicitação do seu “método”, o papa aponta a exclusão social e a enorme desigualdade social (que está preocupando até a elite capitalista mundial, como o Fórum Econômico Mundial de Davos) como os grandes desafios do mundo de hoje e propõe uma chave de leitura para explicar essa situação. A principal causa não é, como dizem os pensadores neoliberais, a falta da liberdade do mercado ou da eficiência econômica, mas sim a “idolatria do dinheiro”, que leva a absolutização das leis do mercado em detrimento da vida humana.
É preciso destacar aqui que o tema da exclusão social e excessiva desigualdade econômico-social no mundo não aparece em um documento do “Ensino/Doutrina Social da Igreja” – como era costume –, mas sim em um documento que tem como tema central a evangelização. Nas últimas décadas e mesmo séculos, toda vez que a Igreja tratava do tema da evangelização, o “adversário” era o ateísmo, racionalismo e o secularismo do mundo moderno. Por isso, temos tantos trabalhos teológicos para justificar a fé diante da razão e da ciência. Se compreendemos que a missão de evangelização se dá em um mundo racionalista e ateu, a principal tarefa é anunciar que Deus existe, e, em seguida, que Deus se encarnou em Jesus. E para isso é preciso justificar e defender a fé e a religião diante do secularismo (que é distinto da secularização –um tema que não é possível abordar aqui). Se olharmos com cuidado, podemos perceber que a grande maioria das obras teológicas “progressistas” europeias assumem como verdade o discurso moderno de que o mundo moderno capitalista é baseado na razão e procuram justificar e explicar a fé cristã em diálogo com a razão e ciências modernas.
Quando o papa diz que o mundo atual não é ateu, centrado na razão, mas é fundado na “idolatria do dinheiro” – um tema bastante desenvolvido pela Teologia da Libertação, especialmente pela “Escola Dei” (Franz Hinkelammert, Hugo Assmann, E. Dussel e outros) – o tema econômico se desloca para o centro da discussão teológica sobre a missão de evangelização; e, mais do que isso, afirma que o mundo moderno não é fundado na razão ateia, mas sim na irracionalidade da idolatria. Ou como diz Hinkelammert, a “razão moderna é a racionalização do irracional”. Aliás, o pequeno texto de Walter Benjamin, “O capitalismo como religião”, publicado pela primeira vez em 1985, tem suscitado muitos debates sobre esse tema também entre pensadores não ligados à teologia.
A obra coletiva A luta dos deuses (1980, Paulinas), que é um marco na Teologia da Libertação, já defendia que o problema central do mundo moderno não é o ateísmo, mas sim a idolatria que exige sacrifícios de vidas humanas, especialmente dos pobres, em nome de deuses da opressão do nosso tempo. Assim como Israel lutou contra o “bezerro de ouro” e Baal, hoje enfrentamos a idolatria do dinheiro, do mercado e do capital.
Ídolos são deuses que exigem sacrifícios de vidas humanas e a adoração desses deuses fascina os seus “fiéis”; e esses exploram e matam em nome de uma missão sagrada. Por isso, diante de idolatria, não basta denunciar injustiças pois essas não são vistas como algo mal a ser combatido, mas como “sacrifícios necessários para a salvação”. Essa percepção deve mudar nossa forma de fazer pastorais e lutas sociais. (Continua)
Jung Mo Sung

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung é Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993), com Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, com Nestor Míguez e Joerg Rieger, Para além do Espírito do Império: novas perspectivas em política e religião (Paulus, 2012).
Jung Mo Sung