A nova intolerância

2 de março de 2015
A Muslim man holds a placard, reading "Not in my name", during a gathering on January 9, 2015 near the mosque of Saint-Etienne, eastern France, after the country's bloodiest attack in half a century on the offices of the weekly satirical Charlie Hebdo killing 12 people on January 7.  AFP PHOTO / JEAN-PHILIPPE KSIAZEK        (Photo credit should read JEAN-PHILIPPE KSIAZEK/AFP/Getty Images)

Na terça-feira passada (24/02) um homem armado entrou num restaurante de uma cidade na República Tcheca e matou oito clientes de forma aleatória antes de atirar em si mesmo. O incidente foi relatado em letras pequenas na maioria dos jornais fora da República Tcheca.

Agora compare isso com os recentes ataques em Ottawa, Sydney e Copenhague. Foram imediatamente chamados de “ataques terroristas”, apesar de descobrirem posteriormente que os atiradores agiram sozinhos, eram cidadãos que cresceram no país, tinham histórico de instabilidade mental (incluindo a violência) e eram conhecidos da polícia local. No entanto, os ataques levaram a apelos frenéticos de restrições mais rígidas para estrangeiros, mais vigilância sobre as minorias já vulnerabilizadas, a ampliação de poderes para os serviços policiais e de segurança, e afirmações hipócritas sobre “valores nacionais”.

Na sequência dos ataques em Paris, uma onda de assaltos, incêndios e vandalismo em mesquitas e organizações muçulmanas ocorreu nos Estados Unidos e na Europa, incluindo Copenhague, onde a única mesquita construída na Dinamarca, aberta no ano passado, foi desfigurada com suásticas nazistas.

Surgem questões inquietantes. São atos de violência “terrorista” apenas se são perpetrados por pessoas de origem muçulmana? Por que é dada tanta publicidade (que é, afinal, o que grupos como estes realmente procuram!) às atrocidades cometidas pelo ISIL/ISIS, enquanto atrocidades semelhantes cometidas por regimes pró-ocidentais no mundo árabe e em outros lugares são rotineiramente ignoradas? Apesar da reivindicação prepotente para serem democracias pluralistas e tolerantes, quanto há de engajamento cívico verdadeiro em nações ocidentais entre pessoas com diferentes compromissos de fé, seja “religiosa” ou “secular”?

Os meios de comunicação ocidentais, e especialmente os canais de televisão populares (como Fox News) e tablóides, são notórios pela profunda ignorância que exibem sobre as grandes religiões do mundo, também sobre o cristianismo não menos que o Islã. E há, é claro, essas elites desenraizadas que querem destruir todas as sensibilidades religiosas ao defenderem orgulhosamente a “liberdade de expressão”.

Numa carta a um jornal dinamarquês após o ataque de Copenhague, minha esposa escreveu: “Mais outro ato violento cujas palavras não são suficientes para condenar! Mas colocando isso de lado — vamos analisar por um momento nossos próprios corações: quando defendemos o direito e a necessidade da liberdade de expressão para um mundo democrático e que ama a verdade, nós escandinavos realmente praticamos este princípio central de maneira incondicional? Será que realmente acreditamos com todas as nossas forças na liberdade de expressão? Será que defenderíamos caricaturas que ridicularizam a ideia de igualdade de valor de mulheres, negros e homossexuais? Ou que promovam vigorosamente um renascimento do nazismo, com a sua história de violência contra os judeus e outras minorias? Será que os desenhos de Maomé só conseguem nos revelar como pessoas que não têm imaginação suficiente para entender que existem outras sensibilidades e valores do que as que temos?”

Em um artigo mais antigo (julho de 2010) eu dei o exemplo de Rocco Buttiglioni, Ministro de Assuntos Europeus no governo italiano, que foi escolhido pelo presidente da Comissão Europeia para ser seu comissário de justiça. Quando, em entrevista, ele reconheceu que era católico praticante e acreditava que a atividade homossexual era pecado, mas que não deveria ser criminalizada, foi desqualificado para assumir com a alegação de que suas convicções morais pessoais eram “uma violação direta do direito europeu”. Rocco chamou acertadamente o modo como foi tratado de “o novo totalitarismo”.

Deixe-me repetir algumas coisas que indiquei naquele artigo de cinco anos atrás porque elas continuam a ser relevantes para os debates sobre a liberdade de pensamento e de expressão no Ocidente.

Podemos concordar que evitar uma linguagem que avilta e humilha as pessoas é uma forma de mostrar respeito pelo valor e dignidade dos outros. Por exemplo, o uso da palavra “inválido” para as pessoas com deficiências físicas ou mentais foi uma maneira terrível de falar (e, ironicamente, as mesmas sociedades que abandonaram o termo “inválido” — e até mesmo “deficientes” — estão promovendo uma ideologia pública que olha fetos e pessoas idosas com deficiência como se não tivessem nenhum valor intrínseco, demonstrando assim que apenas a mudança na linguagem não é capaz de alterar nossas percepções morais).

Mas as coisas tomaram um rumo esquisito quando o lobby do “politicamente correto” afirmou o político na frase e começou a usar força bruta para proibir qualquer ponto de vista moral diferente do seu. Como ser “sensível no discurso” deixou de ser uma questão de boas maneiras, civilidade ou educação para se tornar político marcou uma mudança cultural significativa.

Este foi o ponto culminante das mudanças na sociedade ocidental que pensadores como Alasdair MacIntyre, Jeffrey Stout e Charles Taylor traçaram com algum detalhe. Linguagens morais que já fizeram parte de tradições intelectuais coerentes perderam espaço. Tudo o que restou foram fragmentos das crenças anteriores. Não há um conjunto partilhado de valores morais que mantém as sociedades unidas, apenas instituições como governos, sistemas judiciários ou mercados. Instituições sobrevivem, mas as crenças que lhes deram significado são esquecidas. E quando a verdade moral é vista como uma questão de mero gosto pessoal, como podemos discutir publicamente argumentos morais? Ficamos apenas com um diálogo de surdos. E quando queremos que a nossa visão prevaleça recorremos à assertividade nua e crua do poder. A voz mais alta ou os alto-falantes mais vistosos vencem — daí o poder das manchetes de tablóides raivosos, desenhos animados de baixo calão, e jogadas publicitárias.

Esta é a nova repressão disfarçada de “politicamente correto” e “tolerância”. A tragédia, claro, é quando vem à tona em campi universitários, onde a liberdade acadêmica foi uma vez indispensável na busca da verdade — a liberdade de publicar qualquer opinião, mesmo que bizarra, provava que se estava disposto a submetê-la ao escrutínio crítico e ao debate. Ela é vista quando uma professora de direito de Singapura teve seu convite para falar em uma prestigiada universidade americana revogado após intensa pressão do lobby político “gay” por causa de suas opiniões sobre homossexualidade; ou quando alguns acadêmicos no Reino Unido fazem campanha para excluir estudiosos israelenses de participar de conferências porque suas opiniões são consideradas sionistas.

Quem vai garantir a verdadeira liberdade intelectual e a argumentação bem fundamentada nos meios de comunicação e nas universidades do futuro?

Vinoth Ramachandra

Vinoth Ramachandra

Dr. Vinoth Ramachandra nasceu no Sri Lanka. É doutor em Engenharia Nuclear pela Universidade de Londres. Foi Secretário Regional da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE) para o Sul da Ásia. É atualmente Secretário para Diálogo e Engajamento Social da CIEE em nível global. Participa há muitos anos do Movimento de Direitos Humanos do Sri Lanka, da Rede Miquéias e d'A Rocha (organização internacional de conservação ambiental). É autor de vários livros e ensaios, entre os quais A Falência dos Deuses (ABU Editora). Os textos postados na revista podem ser encontrados na sua versão original em inglês no bloghttp://vinothramachandra.wordpress.com/.

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