A política do medo

12 de maio de 2016
politica do medo

Em sua encíclica merecidamente aclamada, Laudato Si (com o subtítulo “Sobre o cuidado da casa comum”), Papa Francisco afirma que “muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localizados longe [dos excluídos], em áreas urbanas isoladas, sem ter contacto direto com os seus problemas”.

Esta observação pode explicar parcialmente por que é tão frequente que comentadores na mídia e videntes da política errem na hora de predizer resultados eleitorais. A eleição recente da ultradireita para presidente na Áustria enviou ondas sísmicas para a União Europeia. A explosão de popularidade de Donald Trump entre os brancos das classes médias baixas nos Estados Unidos pegou quase todo mundo de surpresa. Se políticos de esquerda incitam muitas vezes o ressentimento de classe, a direita cresce com base no medo: medo do estranho e dos estrangeiros, medo do desemprego crescente, medo das mudanças nas normas culturais.

Muitas “teologias da libertação” romantizaram os pobres. Elas ignoraram os preconceitos homofóbicos, sexistas e racistas que são tão prevalecentes em muitas comunidades pobres quanto entre as classes médias. Na falta de oportunidades educacionais que as crianças ricas possuem, tais preconceitos são obviamente menos passíveis de serem culpados. Mas, de qualquer maneira, eles têm de ser reconhecidos e confrontados. Fascistas têm sabido há bastante tempo como explorá-los para ganhar vantagem política.

É ainda mais trágico quando cristãos, seja nos Estados Unidos, Brasil, Uganda ou Coréia do Sul, apoiam candidatos apenas porque eles alegam ser “convertidos”. Em 6 de maio a Suprema Corte do Brasil afastou Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados mencionando suas tentativas de obstruir o inquérito que investiga seu suposto envolvimento em corrupção. Ele é conhecido como “cristão evangélico” e é um dos líderes de um partido de direita. A despeito de enfrentar acusações criminais, como suborno e evasão de dinheiro em contas em bancos suíços, Cunha sobreviveu meses de tentativas de procuradores e na comissão de ética do congresso de levá-lo à justiça. Os brasileiros se referem a ele como um Frank Underwood da vida real, o político corrupto da série popular House of Cards. O ministro expressou preocupação no Supremo Tribunal Federal de que com a Dilma afastada, Cunha entraria na linha de sucessão presidencial. Zavascki disse em sua sentença: “não há a menor dúvida de que o investigado não possui condições pessoais mínimas para exercer, neste momento, na sua plenitude, as responsabilidades do cargo de Presidente da Câmara dos Deputados”.

Retornei semana passada de um encontro muito interessante de centenas de estudantes universitários e profissionais cristãos no Quênia. Esta conferência foi parte do lançamento público de uma campanha nacional contra a corrupção chamada Hesabika (Faça ouvir sua voz!) liderada pelo movimento nacional queniano afiliado à organização para a qual trabalho. Cerca de 70% dos quenianos se identificam como “cristãos” e mesmo assim a corrupção, o nepotismo e a desonestidade é prevalecente na vida pública.

Ouvi várias lamentações da plataforma sobre a separação do “espiritual” e “secular” na vida dos cristãos (considerado não autenticamente africana). Isso é o produto de anos de evangelicalismo ocidental (em particular através de canais de TV “cristãos”). Mas a indiferença em relação à política deu lugar (nos Estados Unidos desde os anos 1980) ao apoio ativo a políticos “evangélicos” que se mostraram desastrosos para os seus países. Líderes de igrejas ingenuamente assumiram que colocar “crentes” em postos públicos automaticamente daria lugar a uma política cristã. Contudo não cristãos parecem seguir mais os valores cristãos que muitos dos tais “crentes”. Na verdade, geralmente ditadores amam pastores “evangélicos” porque eles sabem como cooptá-los em suas redes clientelistas. Apenas ofereça a eles terrenos públicos para construir igrejas, dinheiro público para cruzadas evangelísticas, leis restringindo atividades muçulmanas e a proibição da homossexualidade!

A ingenuidade política, claro, não está confinada a tais pastores “evangélicos”. Os supostos “progressistas liberais” fariam bem em observar que a diversidade pela diversidade não se traduz em política progressista. O tipo de feminismo que Hilary Clinton e suas apoiadoras (majoritariamente brancas, em ascensão social) defendem não está em contato com as diferentes realidades sociais que as mulheres americanas se encontram e, assim, é cega para as questões estruturais mais amplas da justiça de gênero. O governo Bush, afinal de contas, incluiu Condoleezza Rice e Colin Powell, demonstrando que a política de identidade pode ser implementada tanto por conservadores quanto por progressistas.

Voltando para onde comecei, certamente que líderes eclesiais em todos os lugares deveriam renunciar publicamente à política de fomentar o medo. Deveriam, em vez disso, seguir o exemplo de nossos irmãos quenianos e fazer ouvir sua voz (“Hesabika”) por uma política de justiça, compaixão e honestidade.

Por que os cristãos de todas as nacionalidades e denominações não podem se unir em torno de valores políticos cristãos articulados em encíclicas como a Laudato Si, a saber, dedicar-se ao bem comum global, defender os mais explorados e excluídos em nossas sociedades, desmascarar a corrupção, demonstrar hospitalidade aos refugiados, respeitar a criação não humana, buscar a justiça econômica acima do consumismo compulsivo e proteger os direitos humanos e civis de todas as pessoas?

Tradução: Flávio Conrado

Vinoth Ramachandra

Vinoth Ramachandra

Dr. Vinoth Ramachandra nasceu no Sri Lanka. É doutor em Engenharia Nuclear pela Universidade de Londres. Foi Secretário Regional da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE) para o Sul da Ásia. É atualmente Secretário para Diálogo e Engajamento Social da CIEE em nível global. Participa há muitos anos do Movimento de Direitos Humanos do Sri Lanka, da Rede Miquéias e d'A Rocha (organização internacional de conservação ambiental). É autor de vários livros e ensaios, entre os quais A Falência dos Deuses (ABU Editora). Os textos postados na revista podem ser encontrados na sua versão original em inglês no bloghttp://vinothramachandra.wordpress.com/.

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