A teologia e o público

25 de setembro de 2014
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A teologia tem lugar no espaço público, isto é, como um marco para analisar, compreender, questionar e refletir os processos sociais, políticos, econômicos e culturais de um grupo? Se nos restringirmos aos agentes estritamente religiosos ou eclesiais, a resposta pode ser imediatamente positiva. Não é assim se estendermos o cenário a outros atores potenciais, tais como políticos, educacionais ou acadêmicos.

Para poder abordar esta questão complexa e responder muito tangencialmente a essa pergunta devemos começar a investigar mais a fundo sobre o que entendemos por teologia e por público. Quanto ao primeiro elemento, há vários preconceitos — enraizados no imaginário —, como a ideia da teologia como um discurso estritamente dogmático ou confessional, cujo principal sujeito de enunciação é a comunidade de fiéis, ou também como fundamentação racional da fé (fides cuaerens intellectum).

É útil distinguir entre a teologia como discurso religioso identitário e a teologia como uma disciplina dentro do campo do conhecimento. Com relação à primeira, a teologia é entendida como uma estrutura de significadoque parte de uma específica na manifestação histórica de uma entidade sagrada, com base em um conjunto de experiências religiosas mediadas por práticas discursivas, simbólicas, rituais e institucionais dadas em ummarco contextual concreto, que por sua vez responde a um processo histórico dentro de um período de tempo. Com relação à segunda, a teologia se vincularia mais com o campo educacional e acadêmico, aprofundando a análise de todas essas dinâmicas, principalmente no que diz respeito ao estudo dos processos históricos do religioso, dos textos sagrados — no caso de os haver —, das transformações nos espaços religiosos, entre outros.

Por outro lado, o espaço público é comumente considerado como a esfera em que operam certos agentes específicos, tais como o estado e os partidos, e onde prevalece uma série de discursos que se diferenciam de outras visões de mundo dentro do campo social mais amplo. Podemos chamar esse olhar de institucionalista, já que restringe o público a uma série de instituições e suas respectivas burocracias e racionalidades, as quais se diferenciam do coletivo, seja “a cidadania” ou “o povo”. Assim, produz-se uma divisão entre o estritamente político e o social. Em outras palavras, “o político” da sociedade ou do povo é entendido a partir de um tipo de relação pragmática ou funcional para com estas instituições e discursos.

A partir de uma perspectiva mais ampla, podemos dizer que o público é o lócus a partir do qual os diversos sujeitos que constituem o campo social constroem o seu sentido de identidade, seja individual ou coletivo. Este processo está longe de ser homogêneo; é mais plural, refletindo a heterogeneidade própria que o constitui. Portanto, é também a inscrição do conflito e litígio para definir o “comum”, e o lugar que tem cada sujeito reconhecido neste processo. Aqui as mediações institucionais não são apenas algumas — como o Estado ou os partidos —, elas se pluralizam enquanto se transformam em expressões que dão conta da diversidade de formas de dar sentido à polis que as convoca e “nomeia”. Este processo está em curso, isto é, institucionalidades políticas são construídas na medida em que surjam demandas que se considerem como parte do “comum”. Por tudo isso, finalmente, o político não se circunscreve a um setor ou a certas instituições particulares, mas representa uma dinâmica própria a todo o campo social.

Voltando ao início, podemos dizer que a identidade teológica como discurso religioso identitário pode se inscrever como mais um agente de interpretação dentro do espaço público heterogêneo, e como uma voz a mais nessa busca de definir “o comum”. Isto já é evidente ao ver nossos contextos onde as comunidades religiosas têm uma capacidade de aglutinação e de ação social central (considerando, é claro, a extensão de preconceitos ideológicos, culturais e sociais que podem encontrar, o que em muitos casos são até contrários). Vemos também que estes agentes, com suas diferenças e complexidades, são chamados cada vez mais a participar em espaços de discussão e de diálogo social, tanto no interior do estado como de políticas públicas, partidárias e municipais.

Assim, poderíamos dizer que a teologia possui uma dimensão intrinsecamente pública e política, já que parte da formulação de uma série de experiências históricas (individual e coletiva) a respeito de como a identidade é redefinida — neste caso religiosa — à luz das dinâmicas e tensões sociais que atravessam a fé (também vividas pessoal e comunitariamente). Este marco de sentido representa um horizonte sempre aberto a partir da constante manifestação do divino, do sagrado, do mistagógico. Aqui, por exemplo, uma maneira de considerar o lugar das chamadas teologias contextuais: o feminismo, os povos indígenas, os jovens, o movimento LGBTIQ, todos estes espaços e vozes que têm um lugar na teologia, e enquanto particularidades também são projetadas em seu direito de estar no espaço público através dessa dinâmica estritamente teológica.

Voltando à teologia como disciplina dentro do campo de conhecimento, há dois elementos para colocar em debate. Em primeiro lugar, para além de que existem especificidades de estudo neste campo — Bíblia, História, Sistemática, Prática etc. —, o elemento “político”, “social” ou “público” está longe de ser externo ou uma “questão de contextualização” ligado a elas. Eles são aspectos constitutivos. Neste sentido, as interpretações históricas do dogma, os processos institucionais e eclesiológicos, as reflexões sobre o texto sagrado, entre outras, possuem a partir de sua própria especificidade uma função pública, já que, por um lado, a sua construção responde a uma pluralidade de elementos existenciais, históricas e contextuais e dos indivíduos crentes; e por outro — de maneira implícita e explicita —, partem como respostas a problemáticas, questões e eventos contextuais específicos.

Por outro lado, a teologia como campo do conhecimento tem uma capacidade particular para responder aos desafios do espaço público, não só no que se refere ao lugar das comunidades religiosas no campo social, mas por sua capacidade de ressignificação como discurso identitário. No campo acadêmico e político institucional, especialmente na América Latina, a teologia tem um lugar periférico, quase nulo. Inclusive as ciências sociais — como a sociologia e antropologia da religião — costumam se atribuir uma posição excludente para descrever o religioso como “fenômeno”. Embora a especificidade desta abordagem é mais que válida, também é necessário incluir a teologia com o objetivo de aprofundar certos elementos que são próprios de sua especificidade. Ela fornece ferramentas mais completas para a análise dos elementos sincrônicos e diacrônicos que estão em jogo nos processos que fundamentam as experiências e construções de sentido religiosas; isto é, dos rituais, símbolos e discursos religiosos particulares que emergem na experiência de fé, bem como da história dos dogmas e práticas institucionais a que respondem.

Em resumo, destacar a dimensão pública da teologia ajuda, por um lado, a que conjunturas sociais não sejam apenas temáticas ad hoc, mas eixos constitutivos do discurso religioso e, por outro, para entender a contribuição que possui tanto como disciplina para aprofundar o estudo do lugar do discurso, institucionalidade e da prática da especificidade das religiões em diferentes conjunturas sociais. Além disso, a inclusão implicará uma contribuição à dimensão democrática, promovendo a heterogeneidade e a pluralidade de conhecimentos e identidades que fazem a mediação da compreensão e construção de nossas “realidades”.

Nicolás Panotto

Nicolás Panotto

Licenciado en Teologia pelo Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos - ISEDET (Argentina). Mestrando em Antropologia Social e doutorando em Ciências Sociais pela FLACSO Argentina. Diretor geral do Grupo de Estudos Multidisciplinares sobre Religião e Incidência Pública (GEMRIP - www.gemrip.com.ar)

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