Abolição das brancas verdades, afirmação das afroperspectivas

20 de novembro de 2013
consciência-negra

Somente de um lugar centrado na experiência própria dos povos africanos é possível, no contexto social do supremacismo branco, perceber a brancura como etnicidade específica, pois a sociedade a apresenta como norma universal, pano de fundo, identidade subjacente e universal que não precisa se articular.

~ Elisa Larkim Nascimento

Se não sou negro por raça, posso ser negro por opção política.

~ Leonardo Boff

Os olhares embranquecidos sobre o acontecimento histórico “Abolição da Escravatura” em 1888 tendem a invisibilizar o que de fato acontece no Brasil no processo do “pós-Abolição”. Aboliu-se um sistema legal de opressão, mas não se mexeu radicalmente nem nas estruturas sociais, nem nas formas de pensar sobre elas. Quero me deter no segundo ponto.

Abolir a verdade já muito embranquecida do Brasil não é simplesmente jogar no lixo ou ignorar suas formulações, seus discursos. Estes sempre voltam com força: “Por que não um dia da Consciência Branca?”, “Os próprios africanos venderam seus compatriotas como escravos para o Brasil, a culpa não é do europeu ou do filho de europeu brasileiro!”, “Cotas raciais é racismo inverso!”, “A Escravidão já foi há muito tempo, agora todo mundo já disputa em condições de igualdade!”, “O Brasil é um país mestiço, isso de racismo não tá com nada!”, e por aí vai. Abolir as brancas verdades sobre o Brasil é colocá-las em afroperspectiva.

Todas as falas acima pretendem aparecer como verdades universais, mas são feitas a partir de um lugar inconfessado e inconfessável que é o da brancura. Essas falas negam o racismo, negam a “obra da escravidão”, negam a história do tráfico de escravizados no capitalismo. São falas inteligentes, pensadas, arrojadas, estudadas, ou pelo menos, assim se pretendem. Dentre as muitas teses, pesquisas, estudos sobre o tráfico de escravizados, há pelo menos uma, de fato, que coloca nos próprios Estados africanos da época uma parcela importante de culpa em relação à captura e exportação de pessoas (MOORE, 2012). Mas por que dentre tantas teses, apenas essa aparece como boa, válida, plausível, verdadeira, etc.? O que essa escolha de teses — que não aparece como escolha, mas como a própria verdade — quer legitimar? Qual o efeito que essa branca verdade causa?

Outro exemplo, o caso da mestiçagem e da miscigenação. Amplos estudos sobre o assunto e diversas concepções estão em disputa quando o assunto é “Brasil, país mestiço”. Por que escolher a ideia segundo a qual “no Brasil as distinções raciais não são claras o bastante” para fazer valer políticas públicas de ação afirmativa para negros (pretos e pardos) e indígenas? Por que teimar em negar que o racismo continua acontecendo veladamente nas relações interpessoais e nas instituições do país? Por que a insistência em dizer que o problema do Brasil é social e não racial?

Saber-se pertencente a uma sociedade racista é o primeiro passo para combater o racismo em toda e qualquer forma sob a qual ele apareça. Racismo em mim e no outro, nas pessoas e nas instituições. Colocar a história e a atualidade do Brasil em afroperspectiva nos conduz a uma percepção crítica do nosso próprio pertencimento. Não é preciso se identificar (ou ser identificado) diretamente como afrodescendente para assumir esse lugar. Não se trata de reafirmar essências dadas de uma vez por todas. A perspectiva africana, afro-brasileira, ou da Diáspora Africana permite uma crítica de todos os nossos pertencimentos, permite uma crítica daquilo que é hegemônico no nosso modo de pensar, agir, sentir.

Colocar as brancas verdades sobre o Brasil em afroperspectiva permite um novo olhar sobre a contribuição de indígenas, negros, imigrantes europeus, colonizadores, latino-americanos etc. para o pensamento, a cultura, as artes, o desenvolvimento nacional etc. Isto porque, dentre todos os lugares, a África sempre teve o mais baixo na escala de valores em termos de cultura, pensamento e desenvolvimento. Esse lugar não é da natureza da África, não é por causa de nenhuma maldição. A África foi (e ainda é) explorada por outros povos, e com o advento do capitalismo, sobretudo pelos povos europeus, foi colocada por estes num não-lugar: sem cultura, sem história, sem religião, sem língua etc. Esse olhar não é dado, é construído.

Não se trata de culpabilizar ninguém, tampouco de desculpar quem quer que seja, trata-se de responsabilizar a nós mesmos, sociedades, Estados, pessoas, organizações, instituições, educadoras/es, militantes, intelectuais, escritoras/es, teólogas/es, pastoras/es etc. pela tarefa de repensar nossos lugares de fala e ação. Nossas práticas reproduzem as relações de poder hegemônicas?

Nossa teologia e nossa “fé cristã” também partem de uma brancura inconfessada? Hoje, cumpre reconhecer que o evangelicalismo traz consigo um eurocentrismo e uma europeidade subjacentes. Por que o pensamento de “teólogos pop”, como o dos europeus John Stott e C.S. Lewis aparece como reunidor dos grandes temas universais da espiritualidade e da vida do cristão enquanto as formulações das teologias latino-americanas (por exemplo, Gustavo Gutiérrez), das teologias feministas ou queer (por exemplo, Marcella Althaus-Reid) e das teologias negras (por exemplo, James Cone) são relegadas a segundo plano?

Pastor Marco Davi de Oliveira é um dos que nos convida para outras perspectivas sobre a Bíblia e nossa relação com a fé:

Logo, se faz necessário desconstruirmos os paradigmas que produziram as categorias de pensamentos que nos escravizam. É tempo de olharmos a bíblia pelo lado avesso. Ou seja, olhá-la a partir dos que são oprimidos pela exegese e hermenêutica bíblicas. Olhá-la a partir da perspectiva de que toda a história bíblica é uma história de negros que viviam no entroncamento da África com a Ásia. (OLIVEIRA, 2011)

Hoje, mais do que nunca, é preciso abolir as brancas verdades, inclusive na agenda e nas articulações e agenciamentos feitos nas igrejas. O direito à memória, à história, a construção de uma “consciência negra”, os processos de reconhecimento e valorização da cultura negra ou afro-brasileira são também ações afirmativas, mas não podem mais se dar a partir da ideia de “tolerância e respeito” — que ainda pressupõe um tolerante (superior) e um tolerado (inferior) —; é preciso na verdade se colocar num outro lugar. Esse lugar é provocado pela própria luta do movimento negro, das mulheres negras e de outras atrizes e atores sociais. No campo específico da fé e da teologia, é possível articular hoje uma “teologia afroperspectivista” ou uma “teologia da ação afirmativa”?

Referências

BOFF, Leonardo. A voz do arco-íris. Brasília: Letraviva, 2000.

MOORE, C. Racismo & Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. 2ª ed. Belo Horizonte: Nandyala, 2012.

NASCIMENTO, E. L. O olhar afrocentrado: introdução a uma abordagem polêmica. In: NASCIMENTO, E. L. (org.). Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009, p. 181-196.

OLIVEIRA, M. D. Postura negra diante da leitura da Bíblia. Novos Diálogos, 2011. http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=401

Pedro Grabois

Pedro Grabois

Tem mestrado e graduação em Filosofia pela UERJ. Atualmente, no doutorado, desenvolve tese sobre racismo e sociedades de segurança. Foi articulador da Rede Fale e Conselheiro Nacional de Juventude (CONJUVE), representando a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). É professor de Filosofia do IFRJ, em Paracambi, e frequenta a Igreja Batista do Caminho.

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