Amizade, amizade: muito além dos ecumenismos estreitos

25 de maio de 2016
amistad

Muitas vezes tenho sido alvo de críticas inflamadas por meus compromissos pastorais em favor da unidade das igrejas. Sou pastor e teólogo batista, e como tal, para muitos de meus amigos e amigas é altamente criticável que participe de ações conjuntas com a Igreja Católica, que pregue em igrejas que não são de minha tradição denominacional ou, pior ainda, que trabalhe em projetos inter-religiosos, mesmo que sejam de viés social e solidário.

Vivemos assim: evangélicos preferem se relacionar com evangélicos, católicos preferem se reunir com católicos, pentecostais preferem congregar com seus irmãos pentecostais e os neopentecostais preferem celebrar com os fiéis de sua própria megaigreja. E o mais grave é que a isto chamam fidelidade à santa doutrina, integridade teológica e lealdade cristã. Vejam vocês!

No meu caso, aprendi muito cedo, na Colômbia convulsionada dos anos 1980, que a unidade não apenas é desejável — como anseio escatológico futuro—, mas necessária e urgente — como projeto missionário presente—, sobre tudo se o que buscamos como pessoas de fé é contribuir na construção de um mundo que sonha o Criador: justo, solidário e em paz (Shalom), onde nossas diferenças confessionais não sejam vistas como obstáculo, mas como uma riqueza criativa para juntar as mãos e servir em favor do sonho de reconciliação, que é o sonho do Reino.

John F. Kennedy expressava com lucidez: “Se não podemos por fim a nossas diferenças, contribuamos para que o mundo seja um lugar apto para elas”. Kennedy não se arvorava teólogo; foi o que foi, mas quanto serviço nos presta sua frase para um trabalho teológico e pastoral em meio ao nosso mundo infestado de hostilidades absurdas!

A propósito de minhas opções interconfessionais e inter-religiosas, guardo como tesouro intangível as amizades que fiz durante estes mais de 35 anos de peregrinação em favor da unidade. Comecei muito jovem, por volta de 1980. A amizade foi minha melhor recompensa: amigos e amigas de uma igreja e de outra, gente com opiniões teológicas contrárias às minhas (mas gente, afinal), irmãos e irmãs de diferentes confissões e denominações que dizem o que eu nunca diria e fazem o que eu jamais faria (mas irmãos e irmãs, afinal).

Minhas convicções batistas, minhas opções evangélicas e meus princípios cristãos cresceram ao mesmo tempo que minha vocação ecumênica (ainda que, seja dito, nunca fui membro institucional de nenhum organismo ecumênico). Seja essa a oportunidade de agradecer a todos sua esplêndida amizade.

Enquanto pensava nestes temas, revisitei em minha biblioteca um livro autografado que me presenteou meu amigo, o pastor Héctor P. Torres. Foi enquanto estávamos em Miami, na Feira Cristã de EXPOLIT. Héctor, para os poucos que não o conhecem, é um dos pioneiros na América Latina da doutrina da guerra espiritual, da cartografia de demônios, da teologia da prosperidade e de outras especulações teológicas (perdão, Héctor). Escreveu vários livros (alguns deles com Peter Wagner), deu centenas de conferências e pregou milhares de sermões sobre estes temas. Tenho pouco a ver com estes ensinos, mas muito que fazer com gente como Héctor. Conheci-o faz muitos anos. Discuti com ele várias vezes. Trabalhamos juntos na criação de uma rede latino-americana de oração. Em que pese as diferenças, mantemos a amizade; acima dos desacordos teológicos, valorizamos nossa vocação comum de serviço às igrejas, cada qual a seu modo. Nossas divergências não impedem o nosso afeto, nem as discordâncias, o respeito mútuo.

Agostinho de Hipona ensinava: “No essencial, unidade; na dúvida, liberdade; em tudo, caridade” (In necesariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas]. E hoje, o nome da caridade é a amizade. Amizade ecumênica que dê testemunho do amor de Deus em tudo. Amizade que vai além de onde costumam ir os ecumenismos estreitos.

Harold Segura

Harold Segura

Teólogo, escritor e coordenador de Compromisso Cristão da Visão Mundial para a América Latina e Caribe. Foi um dos oito observadores não católicos na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Aparecida, SP, em 2007. É colombiano mas mora há alguns anos em San José, Costa Rica. É autor de No Caminho com Jesus (Novos Diálogos, 2012) e um dos organizadores de Para falar de criança: Teologia, Bíblia e pastoral para a infância (Novos Diálogos, 2012).
Harold Segura