Apedrejando a adúltera, de novo

10 de novembro de 2015
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Como diria Adão: #aculpaédamulher. Alguma dúvida? A mulher sempre foi a raiz do problema. Aliás, dos problemas. As mulheres são sempre emocionais, passionais, frágeis, vaidosas, maldosas, sensuais, traiçoeiras, fofoqueiras. Culpadas.

Nós, homens, temos certeza disso – algumas mulheres, inclusive, sabem e admitem. No episódio da tentativa do apedrejamento da adúltera os homens sabiam de quem era a culpa. Ela, talvez, pois ficou calada. Somente Jesus discrepou na história.

Condescendentes com assassinos, rigorosos com a sexualidade

Exemplifiquemos com filmes. Assistimos e comentamos um filme como Duro de Matar e seus similares, mas jamais comentamos ou assistimos (sic) um filme pornô. E antes que alguém diga: “Mas filme pornô é pecado”. Filme de violência, não? Por que somos coniventes com a morte, mas rigorosos com a sexualidade? Principalmente com a sexualidade dos outros. Por que uma relação sexual ilícita é condenada, mas um assassinato é relativizado?

Qual o padrão de um herói do cinema? É normal o herói matar indistintamente; o herói é sempre um matador contumaz. Pode, inclusive, ter tara por assassinato (tipo Rambo e correlatos), mas precisa ser moralista em sua conduta sexual. O Rambo pode, num único filme, matar 94 pessoas, mas não transa com ninguém – daí a censura do filme baixa e pode ser exibido na TV. Um filme com homens se matando indistintamente não causa nenhum espanto, mas se derem um beijo provoca uma convulsão nacional.

Nós estamos em boa (sic) companhia. Os fariseus da época de Jesus, de pedras nas mãos, queriam matar uma mulher adúltera. Esses moralistas de plantão têm a pachorra de levarem a mulher adúltera que, segundo a descrição, “fora pega no ato do adultério”. Sozinha? O nível do cinismo dessa corja é proporcional a sua pureza sexual. Em suma é o seguinte: segundo os legalismos religiosos as mulheres não podem ser adúlteras, mas os homens podem ser assassinos. Jesus, conquanto não deu apoio ao seu presumível adultério, também não relativizou a violência. Jesus preferiu uma prostituta viva a uma prostituta apedrejada. Morta, como pecadora, estaria perdida; viva, mesmo pecadora, poderia se arrepender. Já os legalistas, vivos ou mortos, estão perdidos.

Dinheiro (de corrupção) é benção, aborto é pecado

Eu fazia uma disciplina com o Prof. Pierucci, na USP, quando um casal evangélico foi preso nos Estados Unidos com alguns dólares não declarados. Ao chegar à sala ele me interpelou: “Gedeon, eu estou abismado com a conduta dessa igreja porque até onde conheço os evangélicos são rigorosos com a conduta moral, com a ética. Mas nesse caso, não vi nenhuma manifestação de reprovação, pelo contrário; sua igreja está lhe apoiando!”. Daí eu lhe respondi: “Você esquece que existe uma gradação de pecado. Há pecados e pecados, professor. Não somente nas igrejas evangélicas, mas na sociedade em geral. O apóstolo foi pego com dinheiro. Se ele tivesse sido pego com uma mulher, seria um problema; mas se ele tivesse sido pego com um outro homem, seria excluído da igreja imediatamente. Se a bispa tivesse sido pega com um homem, não teria perdão, mas seria algo muito mais grave se ela tivesse sido pega com outra mulher. Sexualidade é controlada rigorosamente, mas dinheiro? Dinheiro é sinal de benção…”

Ter dinheiro (não declarado) em banco da Suíça é sinônimo de prosperidade. Bênção. Isso é algo bem diferente de um aborto. Isso, sim, é pecado. Grave. Gravíssimo. Mesmo em caso de estupro, são elas as únicas culpadas. Andam com roupas provocantes, rebolam, são vulgares. São fáceis. São tão “fáceis” que qualquer homem pode pegar uma adolescente e estuprar. Fácil, muito fácil. E, grávidas, que elas assumam o problema. Sozinhas. Afinal, como na história bíblica, a mulher estava adulterando sozinha…

E Jesus e os demais não venham com essa história de que somente quem não tem pecado pode atirar a primeira pedra, pois, assim, nos tira a possibilidade moralista de limparmos nossa sociedade dos desvios sexuais. Dos outros.

Adão tinha apenas uma mulher para culpar, nós temos todas.

Gedeon Freire de Alencar

Gedeon Freire de Alencar

Bacharel em Filosofia pela UECE, mestre em Ciências da Religião pela UMESP e doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP. É membro da Igreja Betesta. Escreveu o livro Protestantismo Tupiniquim: Hipóteses Sobre a (não) Contribuição Evangélica à Cultura Brasileira, livro vencedor do Prêmio Areté 2006, e Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus – 1911-2011, pela Editora Novos Diálogos.

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