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Carta da prostituta Raab aos reformados, sobre os 500 anos da Reforma

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Carta da prostituta Raab aos reformados, sobre os 500 anos da Reforma

Queridos irmãos (Sim, vamos nos dirigir aos irmãos porque, como é sabido por todos e todas nós, vocês resistem a presença das mulheres nos lugares de poder e decisão).

Sei que não é de costume ficar tecendo comentários para além da nossa história e do nosso tempo, como vocês sabem. A minha história já foi contada (não tão bem como deveria), então eu deveria apenas observar outras. Mas Eu estou considerando que poucos eventos na história da humanidade completam 500 anos e são tão esperados para ser celebrados. A Reforma Protestante é um destes eventos. Por isso, com ou sem permissão, achei por bem fazer algumas considerações importantes.

Há 500 anos, surpreendentemente, cada vez que vocês fazem memória deste evento, a impressão que me dá é que a chamada Reforma Protestante foi uma disputa e celebração masculina de uma conquista religiosa. Gostaria muito de saber onde estão as mulheres que, assim como eu, Raab, esconderam em suas casas e quartos tantos refugiados, perseguidos, despejados, em meio ao conflito de vocês. Vocês, que sempre trataram minha autonomia como prostituição, o que fizeram com as mulheres “cristãs decentes” que foram usadas, violentadas e relegadas ao esquecimento? Como acreditar numa história contada apenas por homens há 500 anos?  Onde os livros de história de vocês foram escritos? Do alto do meu terraço, onde escondi e salvei os espiões de Josué, o meu relato também fala de subjugação do sexo e silêncio, prazer e invisibilidade, categorias jamais contempladas na fala de vocês.

Parece que vocês são incuráveis quanto a isso. Vão citar mais uma vez Catarina de Bora, à sombra de Lutero? Vão dizer essa frase infeliz de que “por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”? Sinceramente, embora elas não tenham exigido, acho que vocês deveriam começar a pensar em algo mais que isso. Aliás, nem da pobre Idelette vocês discutem devidamente. Ela só existe como a “mulher piedosa” de Calvino, mas a possibilidade de abordar, a partir da história dela, como uma mulher lida com a precarização da vida e a insegurança que lhe impede de ver os filhos crescerem saudáveis nunca aparece como opção. Mas param nisso também. Aqui há mais um lugarzinho para Catarina Zell e pronto. Não por acaso, são conhecidas e citadas as mulheres que tem um grande macho Reformador por trás (ou por cima).

Aliás, só uma mulher como Catarina (ser uma ex-freira já ajudava) se enquadrava no critério de respeito de Lutero. Duvido muito que uma mulher solteira por escolha, autônoma, não dada ao matrimônio, e que ter filhos nem passa pela cabeça, seria aceita em suas fileiras. Mas eu já imagino que vocês vão manter, por mais um ano, o argumento de que “Lutero foi um homem do seu tempo”. O mesmo, claro, vocês vão dizer que vale para Calvino. Como se eles só tivessem feito afirmações machistas única e exclusivamente por conta disso. Bem, o tempo (o atual, já estamos em 2017), ao que parece, não está sendo o suficiente para vocês agirem diferente ou compreenderem a questão das mulheres um pouco melhor. Onde estão as mulheres camponesas que pegaram seus filhos e foram à luta, deixaram suas casas incendiadas, perderam seus maridos assassinados, presos. Estão apagadas e silenciadas. Como estão as mulheres pretas e pobres das chamadas Favelas, e sua luta diária pela sobrevivência em meio as permanentes e violentas “Reformas” dos reinos, digo, do Estado, opressor, tirando a vida dos seus filhos, encarcerando seus maridos, adoecendo seus pais.

Ao que parece, só vale como registro aqueles tratados teológicos (a maioria, convenhamos, chatíssimos e só um vaidoso preciosismo teológico) dos machos de vocês. Eu estou realmente assustada com vocês ainda tentando achar uma nova maneira de dizer que os machos reformadores de vocês tinham alguma razão ao jogarem sobre Eva a maior responsabilidade pela sedução da serpente, que nós somos mais vulneráveis a tentação de satanás, que não deveríamos nos importar em ser inteligentes, que a nossa melhor imagem (quiçá a única) é a de mãe criadora dos filhos que eles faziam (e vocês fazem). Tem Reformador que só aderiu a Reforma pra se deitar com uma mulher, e mulheres que aderiram as causas da Reforma por conta da liberdade que vislumbraram para os seus corpos. Isso prova o quanto o sexo é prazeroso, libertador e tem papel fundamental em qualquer movimento de resistência, no cotidiano da vida. Que o prazer é desejado (sim, o desejo) por homens e mulheres, e vocês nem falam disso. A conferência de vocês falará de que afinal?

Desculpem me alongar, mas eu precisava muito compartilhar isso com vocês. Sei que ninguém pediu minha opinião. Aliás, vocês nunca pedem. Como pedir opinião e valorizar os relatos de uma pu… digo, prostituta. A menos que eu fosse uma Sola Prostituta”. Bem, mas este não é o caso, e, provavelmente, ter dito isso vai fazer com que vocês queimem esta carta. Mas, como eu tenho dito, a minha história já passou. Eu espero que haja algo realmente atual, oxigenado e autocrítico e novo na celebração de vocês. Mesmo que algumas mulheres tenham sido convidadas, a verdade é que, como os Reformadores daquela época, vocês querem sempre ficar por cima.

Ronilso Pacheco é de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Teólogo e pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, é ativista no campo dos direitos humanos e colaborador de diversas organizações, igrejas e movimentos sociais. É formado em Teologia pela PUC-Rio e mestrando em Teologia pelo Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia (EUA). É autor de “Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de racismo, violência e opressão” (Novos Diálogos, 2016) e organizador do livro “Jesus e os Direitos Humanos: porque o reino de Deus é justiça, paz e alegria”, publicado pelo Instituto Vladimir Herzog, em 2018.

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