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Celebrando a injustiça da ressurreição

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Celebrando a injustiça da ressurreição

Celebrando a injustiça da ressurreição

A morte de Jesus foi uma grande justiça. Para o poder romano era um sedicioso, e para o poder judaico um herege blasfemador, e a sua cruz não foi a única. Ele a mereceu, como mereceria Barrabás e como mereceu Espártaco e seus seis mil companheiros escravos, crucificados muitos anos antes em Roma, em plena Via Ápia.

Injusta foi a ressurreição. Se era para ressuscitar alguém, Deus desrespeitou critérios políticos, econômicos e religiosos, dando nova vida a um aldeão carpinteiro, subvertendo méritos e garantias de qualquer tipo de legislação. A ressurreição, então, é a injustiça de Deus que subverte toda a justiça humana.

A vida é o maior dos mistérios do universo. Ela simplesmente acontece, de tantas maneiras inesperadas, em exuberância e diversidade, um encantador desperdício que contraria qualquer lógica. A morte não é misteriosa.  Tem a banalidade do previsível e a lógica fria da tragédia, única certeza na incerteza da vida.

No relato do evangelho de Marcos, na cruz, Jesus dá um grande grito no momento de sua morte, último brado de revolta contra todas as justiças humanas (Mc 15,37). A injustiça da ressurreição transforma esse grito em urro de vitória, momento de subversão de todas as lógicas, critérios e legislações humanas, plena vitória da incerta vida contra a tão certa e arrogante morte.

A injustiça da ressurreição cria um desequilíbrio cósmico que afeta as estruturas e relações humanas e as certezas e incertezas, os afetos e desafetos, as expectativas otimistas ou pessimistas, vão timidamente compreendendo o que é fé, amor ou esperança.

O ressuscitado vai marcando encontro com o cotidiano dos amigos, no sepulcro, nos caminhos, à beira mar, trazendo nova vida às suas vidas. E continua marcando encontro, mesmo depois da ascensão, como aquele que transforma a justiça sanguinária de Paulo em arauto da injustiça da ressurreição. Acho bonito o texto em que ele exclama:

“Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída pela vitória”. 1Co 15,54.

Celebramos hoje a injustiça da ressurreição que destruiu a morte. Então, diante das nossas mortes de cada dia, grandes ou pequenas, vamos viver intensamente a incerteza da vida e subverter a lógica das justiças do poder, pelo delírio do amor.

Assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão (CEPESC). Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana (BA) e e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda (PE). É membro da Fraternidade Teológica Latino-americana do Brasil e da Aliança de Batistas do Brasil. Escritor, editor e articulador na Editora e Rede Curviana.

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