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Efraín Ríos Montt: regime da Bíblia e da metralhadora

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Efraín Ríos Montt: regime da Bíblia e da metralhadora

Efraín Ríos Montt, ex-general reformado do Exército Guatemalteco, foi presidente do seu país entre os anos 1982 e 1983

— Tão pouco tempo?, perguntei faz alguns anos a um taxista na Cidade de Guatemala.

Eu não me lembrava bem quanto tempo havia estado na verdade como presidente, ainda que nunca me esqueci de que em seu governo foram criadas as Patrulhas de Autodefesa Civil (PAC) e se perpetraram os piores crimes e atos de violência. Pouco tempo foi o bastante para tantas mortes (a eficiência do mal).

Seu regime executou a chamada política de terra arrasada sobre populações indígenas às quais acusava de apoiar a guerrilha. Um relatório da ONU de 1999 — apresentado pelo Promotoria no processo contra Ríos Montt — documenta massacres em 500 aldeias, que classifica como “genocídio”, e aponta que entre 1978 e 1984 ocorreu 91% das violações de direitos humanos da guerra (1960-1996), que deixou um total de 200 mil mortos e desaparecidos.

Desde 1978, Ríos Montt pertencia à Igreja Verbo, filial da organização evangélica Gospel Outreach na Guatemala. Ele não era apenas um membro dessa comunidade mas era reconhecido nela como Ancião Governante, o que em outras comunidades equivale ao status pastoral ou de liderança.

Foi o primeiro presidente evangélico na América Latina, o que encheu de orgulho a este movimento e fomentou seu ingênuo triunfalismo. Em muitas de suas apresentações televisivas (os Discursos de Domingo) aparecia com seu traje militar verde expondo mensagens moralistas em que interpretava a Bíblia a sua maneira, ao mesmo tempo em que em seu país se violavam os direitos humanos. Em uma de suas exposições dominicais afirmou que o bom cristão se desenvolvia “com a Bíblia e a metralhadora”. No dia 30 de junho de 1982, por exemplo, ameaçou seus opositores dizendo:

Ouça-me bem, guatemalteco, vamos combater a subversão pelos meios que sejam… totalmente justos, e ao mesmo tempo com energia e rigor… estamos dispostos a mudar a Guatemala, estamos dispostos a que reine a honestidade e a justiça, a paz e o respeito para aqueles que são pacíficos e respeitam a lei: prisão e morte para aqueles que semeiam o crime e a violência, crimes de traição.

Ríos Montt, depois de sair da presidência, fundou a Frente Republicana Guatemalteca, que conduziu à Presidência a Alfonso Portillo (2000-2004). Com este partido manteve grande parte do controle político do Congresso da República durante vários anos e protagonizou muitos dos escândalos de corrupção desses mesmos anos. As contínuas denúncias fizeram com que a liderança de sua igreja lhe retirasse seu apoio institucional, que perdesse popularidade entre os fiéis e que, segundo escutei faz vários anos, também lhe retirassem a licença como Ancião Governante.

Gostaria muito de dizer que o ex-ditador Ríos Montt não foi evangélico! Mas foi, ainda que antes de sua morte já não assistisse às celebrações litúrgicas de sua igreja e ainda que não tivesse a credencial como líder. Foi evangélico, como são os milhões em América Latina e no mundo que creem com firmeza na eficácia da Bíblia e da violência (violência com a desculpa da ordem), da igreja e da intolerância, da fé e do fanatismo. Que nem todos creiam assim (eu sou um pastor evangélico, se por acaso surjam dúvidas) não nega que a maioria o faça.

Ríos Montt, outrora esperança do movimento evangélico latino-americano conservador, é hoje a sua vergonha. Morreu na impunidade, acusado de genocídio e outros crimes.

Publicado originalmente em: https://www.elblogdebernabe.com/2013/05/efrain-rios-montt-regimen-de-biblia-y.html

Teólogo, escritor e coordenador de Compromisso Cristão da Visão Mundial para a América Latina e Caribe. Foi um dos oito observadores não católicos na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Aparecida, SP, em 2007. É colombiano mas mora há alguns anos em San José, Costa Rica. É autor de "No Caminho com Jesus" (Novos Diálogos, 2012) e um dos organizadores de "Para falar de criança: Teologia, Bíblia e pastoral para a infância" (Novos Diálogos, 2012).

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