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Então a oração não está funcionando…

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Então a oração não está funcionando…

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“Porque não há outra forma de falar sobre Deus a não ser falando sobre nós mesmos. Deus é um espelho no qual a imagem da gente aparece refletida com as cores da eternidade.” (Rubem Alves)

Quero compartilhar duas experiências que envolvem a temática da oração. Na primeira, falei a um camarada meu que estava orando por ele quando ele sorrindo disse: “Não faça isso não! Você orou por nossa amiga e ela sofreu um acidente de carro”. Rimos bastante e eu insisti: “Justamente. Se eu não tivesse orado ela poderia ter morrido”. Já a segunda se deu com uma criança que escutou sua tia dizer: “Tá melhor meu filho? Tia ora por você todos os dias e não quer que nenhum mal lhe aconteça. A criança de 4 anos, imediatamente sinaliza: “Tia, então a oração não tá funcionando, meu dedo cortou e só parou de sangrar quando eu coloquei o curativo”.

O que de fato significa a oração? Sabe-se que essa não é uma prática exclusivamente do cristianismo, logo, pessoas de fé (ligadas a uma instituição ou não) realizam estes rituais cotidianamente ou em períodos específicos do ano para: pedir bênçãos sem fim e, vez por outra, agradecer como aponta a narrativa bíblica da cura de leprosos no Evangelho de Lucas 17.11-19.

Com efeito, diria que a oração é a tentativa de um diálogo com o Mistério que acessamos com fé em busca de alento, encorajamento, consolo, esperança para suportar momentos difíceis-terríveis enfrentados na jornada da vida. Muitos fazem deste momento um processo de autopromoção em busca de prestígio e sentimento de superioridade como exemplificado em Lucas 18:9-14.

De fato, neste contexto aponta José Comblin: “O problema é que as Igrejas sempre levantam novas barreiras que expulsam, excluem todos os membros que não se conformam com as regras e normas de prudência humana inspiradas pela vontade de segurança. O problema não é que o mundo não se interessa pela mensagem de Jesus. O problema é que a Igreja fecha as portas para muitos que se interessam pelo povo de Deus, e não se interessam pelas normas, regras, ritos e obrigações.”

Com efeito, suspeito que a oração se torna extremamente relevante quando é compreendida como exercício de uma espiritualidade diaconal da libertação, ou seja, me aproximar do Inefável não pode ser algo antagônico ao encontro do humano em sua múltipla forma de existir. Seguindo Richard Shaull, é significativo “orar, estudar e agir”.

Ora, segundo José Comblin: “Os cristãos não realizam a sua vocação de povo de Deus somente em assembleias de oração. Devem entrar neste mundo e agir nele, para ajudar o surgimento do povo de Deus no meio de todas as nações.” Assim sendo, não se trata de um processo civilizatório colonizador político-econômico, mas uma ação libertadora dos oprimidos que trazem em seus corpos as marcas do cativeiro desumanizador.

Pensando com Frei Betto, a oração deve ser um diálogo, mas o que Deus nos diz? Como faz isso? Temos feito silêncio para discernir sua voz que é polifônica? Como sugere Santa Teresa d’Ávila, “Falais muito bem com outras pessoas, por que vos faltariam palavras para falar com Deus?”.

Com efeito, se orar te faz bem, por favor, não deixe de praticá-la; todavia, pense um pouco nisso: você não é melhor do que ninguém pelos seus exercícios de espiritualidade. Se sua oração não te leva ao encontro do outro e à luta por uma sociedade mais equânime, suspeito honestamente que você precisa se recriar nesse processo. Há muita fome no meu país (não pode juntar com a reza um punhado de farinha?). A oração não é mágica que faz carros não capotarem ou curam, desprezando os inúmeros profissionais da saúde ou o poder das folhas e raízes dos ancestrais.

Suspeito que se quero conhecer ao Mistério que chamo de Deus preciso me humanizar cada vez mais. Não queira limitá-lo ao seu templo denominacional achando que seu jardim é mais florido ou perfumado. Que as suas frutas são as mais saborosas e os pássaros são mais afinados por cantarem em seu coro institucional.

De fato, quem tem ouvidos para ouvir escute o Rubem Alves quando diz: “Ah! Então, Deus tem prazer no vento fresco da tarde… Se Deus tem prazer no vento fresco da tarde, o vento fresco da tarde é divino. Ser espiritual é gozar o vento fresco da tarde, gozar o perfume dos jasmins, sentir o gosto das frutas, deleitar-se na forma e nas cores das flores, amar as montanhas distantes, entregar-se ao frio da água das cachoeiras, sentir o arrepio das carícias na pele. Deus amou tanto esse mundo de prazeres que ele mesmo criou – melhor não poderia ter sido criado – que resolveu tornar-se homem. Ser homem, de carne e osso, com olhos, ouvidos, nariz, boca, pele, é melhor que ser espírito puro. Você quer ser espiritual? Abra os olhos e ande pelo jardim. No universo inteiro não existe nada mais divino…”.

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