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Forjando uma arma sagrada: Como a Bíblia se tornou antigay

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Forjando uma arma sagrada: Como a Bíblia se tornou antigay

Forjando uma arma sagrada: Como a Bíblia se tornou antigay

Por Kathy Baldock

Em 1959, David era um seminarista de 21 anos de idade no Canadá. Todos a sua volta o reconheciam como uma pessoa espiritualmente sensível. Sua mãe sabia, quando ele tinha apenas seis anos, que precisaria mudar de igreja para que o jovem David pudesse participar de uma escola dominical melhor. Seu pastor, que o pastoreou durante todo o seu crescimento espiritual desde os anos de adolescência até o início da maturidade, o recomendou para a carreira ministerial na Igreja Unida [United Church of Canada], aos dezenove anos de idade. As pessoas o viam como alguém especial e escolhido.

Ele sempre amou ler a Bíblia. Nos primeiros anos, leu a versão King James. Em 1952, a Revised Standard Version (RSV) foi adotada pela Igreja Unida para o uso nos cultos. Durante seu primeiro ano de Divinity School, David começou a ler a RSV. Foi então que ele se deparou com a tradução de 1 Coríntios 6.9-10:

Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras nem os adúlteros, nem os homossexuais (j), nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

(j) há duas palavras gregas para essa expressão

 

David sabia que era gay desde os dezesseis anos. Ele também sabia que era amado e aceito por Deus, e chamado para o seu ministério. A Revised Standard Version foi a primeira tradução que, entre todos os idiomas já traduzidos, utilizou a palavra “homossexual”. David pensou que a palavra no texto de 1 Co 6.9-10 estivesse errada. Ele checou a redação da passagem da King James e pensou que esta estava mais precisa (“nem afeminados, nem abusadores de si mesmo com a humanidade”). Então, ele buscou no seu dicionário de grego pelo significado de duas palavras gregas (malakos e arsenokoites) indicadas nas notas de rodapé da Revised Standard Version. Isto o convenceu de que a equipe de tradução se equivocou.

Depois de muita reflexão e estudo, escreveu uma carta longa e convincente relatando o caso e enviou uma cópia para o Conselho Nacional de Igrejas de Cristo nos Estados Unidos (NCC), a organização que encomendou a RSV, e outra cópia à Editora Thomas Nelson. A Secretaria Executiva da NCC enviou sua carta ao Dr. Luther Weigle, decano da Yale Divinity [Escola de Teologia da Universidade de Yale] e o líder da equipe de tradução da RSV. David ficou surpreso ao receber uma resposta pessoal poucas semanas depois do Dr. Luther Weigle. Os dois trocaram duas cartas. Na carta final, Dr. Weigle concordou que a equipe consideraria o uso de um termo alternativo a “homossexuais” na próxima revisão.

David nunca falou sobre isso ou compartilhou o conteúdo das cartas com ninguém. Ele não quis arriscar que alguém sequer considerasse que ele fosse gay. Além do mais, era a década de 1950. Quem se importaria em abordar o tema de maneira tão profunda e apaixonada se essa pessoa não fosse gay? Ao assinar a carta, ele se certificou de que sua identidade não seria revelada.

Transportando-se para 2017…

Trabalhando com contextos históricos e com o conhecimento que adquiri enquanto pesquisava para o meu primeiro livro, presumi que a decisão da equipe da RSV em usar o termo “homossexuais” tinha sido uma decisão ideológica e cultural, e provavelmente não tão bem fundamentada em bases teológicas. Poucas pessoas nas décadas de 1940 e 1950, especialmente na igreja, estavam discutindo a homossexualidade, e um número ainda menor a compreendia como orientação sexual. Mas, como provar isto? Então meu amigo Ed Oxford me propôs uma solução – uma pesquisa de campo.

Em setembro de 2017, viajamos para New Heaven (Connecticut) por cinco dias para desenterrar as Coleções de Weigle e da RSV nos arquivos da Universidade de Yale. Procuramos entre aproximadamente sessenta mil documentos na busca da resposta do porquê da escolha do termo “homossexuais” pela equipe de tradução na passagem de 1 Coríntios.

Ficamos desapontados quando, após três dias, não pudemos encontrar nenhuma documentação da decisão do período em que a tradução estava sendo realizada. Pareceu que o uso da palavra “homossexuais” não tinha sido uma questão pra época.

No entanto, mantivemos a busca e a esperança. De repente, encontramos a carta de David de 1959 com as trocas realizadas entre ele e o Dr. Weigle (estas cartas terminariam sendo a única documentação na coleção inteira explicando o porquê da equipe de tradução ter feito tal escolha).

A troca entre o jovem seminarista e o Dr. Weigle, de fato, prova que a decisão do uso do termo “homossexuais” foi um erro (1). Dr. Weigle inclusive admitiu isto em uma de suas cartas. Ele respondeu que entendia a compreensão e preocupação de David e que provavelmente haveria alguma palavra que melhor substituísse “homossexuais”. Juntos eles consideraram uma revisão apropriada. (Na Revised Standard Version de 1971 o termo foi mudado para “pervertidos sexuais”, não mais condenando um grupo específico de pessoas. A atual New Revised Standard Version utiliza “nem prostitutos, nem sodomitas.” [Ver nota de rodapé 1])

Assim que eu e Ed encontramos as cartas, Peter, um documentarista que nós trouxemos, começou a nos filmar lendo as cartas em voz alta e discutindo seu conteúdo por cerca de 35 minutos. Este jovem seminarista fez um excelente trabalho apresentando sua tese de que haviam cometido um erro. Imediatamente, imaginamos: “Quem é esse David que desafiou corajosamente a equipe de tradução?”. Queríamos saber quem ele era e o que ele tinha se tornado.

Através de uma série incrível de eventos (2) (devido ao trabalho duro de uma amiga Tina Wood), identificamos David cerca de um ano após nossa visita aos Arquivos de Yale. E ele ainda estava vivo! Foi um desafio e tanto para localizá-lo. Quando Tina finalmente o identificou, entendemos o porquê de a tarefa ter sido tão difícil. David assinou as cartas utilizando apenas seu primeiro nome e o seu nome do meio. E o endereço de entrega da caixa de correio complicou ainda mais a busca por ele.

Numa manhã de agosto de 2018, porém, Tina me enviou um e-mail com o título “Acho que eu o encontrei”. Ela tinha o nome completo e as informações de contato de David. Ed e eu nunca imaginamos que o jovem de 21 anos que tinha escrito a carta ainda estivesse vivo!

Eu o telefonei às 9h da manhã. “Olá, David, meu nome é Kathy Baldock e eu vivo em Reno, Nevada. Tenho trabalhado com um amigo num projeto de pesquisa das notas de tradução da Revised Standard Version da Bíblia. Entre cerca de sessenta mil documentos, nós encontramos uma carta em que foi questionada o uso da palavra “homossexuais” pela equipe de tradução. Foi escrita em 1959 por David _____. Foi você quem escreveu a carta?”. Aquele homem de 80 anos, atordoado, respondeu: “Sim, fui eu. Por quê?”.

Quando ele escreveu essa carta, pensou que “centenas, senão milhares” de pessoas teriam tido as mesmas objeções à tradução e teriam também contatado a equipe. No entanto, ele foi o único que esceveu. Ele ficou surpreso. E também pensou que certamente suas cartas teriam sido “jogadas no lixo”. Mas sessenta anos depois, eu ainda tinha as cópias. E sua atitude influenciou numa futura revisão.

Nós conversamos e trocamos e-mail muitas vezes nos meses seguintes. David me contou sua história de vida. Após a Divinity School, ele assumiu o ministério pastoral na Igreja Unida e pastoreou em sete igrejas num período de trinta e sete anos. Ele também teve um companheiro, Joe, com quem viveu por vinte e três anos, e que todos presumiam (de um rumor antigo que David nunca corrigira) ser seu primo. Foram um casal até a morte de Joe, depois de longos problemas que ele sofreu com o rim, durante toda a sua vida adulta (3).

***

Ed e eu convidamos o Rev. David para juntar-se a nós na Q Christian Fellowship Conference (4), em Chicago, no mês de janeiro. Foi a primeira vez que nos encontramos pessoalmente. Que benção foi ter não somente descoberto sua identidade, mas também tê-lo encontrado vivo, e ainda perceber que ele está bem, espirituoso, gentil, doce e um senhor simples e bonachão. Imagine a combinação ideal de pastor e avô: esse é o Rev. David.

Este é o material de que são feitos os grandes documentários (Procure pelo documentário neste inverno de 2020 – Lost in Translations, de Rocky Roggio).

Não somente a aparição do Rev. David em nossos workshops foi uma grande surpresa para centenas de participantes, mas também o próprio Rev. David se assumiu publicamente como homem gay pela primeira vez em sua vida. Durante o culto do domingo pela manhã, ele foi apresentado e honrado com uma grande aclamação por 1.300 conferencistas. Após a conferencia, David comentou que ele nunca tinha estado entre tantos cristãos LGBTQ (lembre-se, ele não era assumido); ele não sabia nem mesmo que organizações desse tipo existiam!

A vida de David mudou. Ele é agora transparente quanto a sua sexualidade e tem encontrado um novo propósito em seus dias. Ele continua a servir na igreja, ajudar no resgate de imigrantes refugiados LGBTQ e conduzir idosos e estudantes universitários sem transporte para suas atividades. Ele canta no coral da igreja e se encontra com outros pastores aposentados, que agora sabem que ele é gay. Ao refletir sobre sua vida, diz orgulhosamente: “As duas forças mais efetivas de minha vida tem sido minha fé e minha sexualidade”.

Que presente é a carta de David, escrita quase seis décadas atrás, no esforço de ajudar a reparar um erro esmagador cometido contra a comunidade LGBTQ. Essa troca de correspondência tem nos dado importantes e claras evidências de que precisávamos para desafiar décadas de erros de tradução da Bíblia, começando pela Revised Standard Version, que tem incorretamente usado as palavras “homossexual”, “homossexuais” e “homossexualidade”.

Então, qual o próximo passo?

Ed e eu temos trabalhado diligentemente durante o ultimo ano pesquisando e escrevendo “Forjando uma Arma Sagrada: Como a Bíblia se tornou antigay”. O livro investiga duas questões simples: por que a palavra “homossexuais” teve lugar na Bíblia, e na medida em que fomos conhecendo mais sobre a sexualidade humana, melhoramos traduções bíblicas subsequentes? As respostas são complexas e multifacetadas. A informação é convincente, encorajadora e, acima de tudo, libertadora!

O livro está sendo escrito num estilo similar ao modo como costumo ensinar em minhas oficinas – muitos tópicos e fundamentos cronológicos que se desdobram e nos dão uma visão mais clara de como chegamos de “lá” até “aqui”.

O processo de pesquisa tem sido fascinante. E frustrante.

Seria de se esperar que autores, conferencistas, professores e líderes cristãos, que se opõem à total e igual inclusão de pessoas LGBTQ, voltassem ao marco zero onde a mudança dos termos começou, e revissem as premissas iniciais, especialmente porque passou o tempo e começamos a compreender mais acerca da sexualidade humana. Porém, ninguém nunca havia passado antes pelas caixas de documentos da Revised Standard Version/Weigle, e seus microfilmes.

Sabendo o quão prejudicial a inserção do termo “homossexuais” se tornou, sua falta de integridade acadêmica, curiosidade ou de um desejo amoroso de “reparar o erro” nos deixa chocados.

Autores, conferencistas, professores e líderes cristãos anti-LGBTI+, e aqueles que apoiam terapia de conversão/terapia reparadora/terapia reintegradora/celibato obrigatório, afirmam que eles estão amando as pessoas ao “falar a verdade em amor”, compartilhando “o que a Bíblia claramente diz”, firmando-se numa ortodoxia histórica e bíblica, e “desejando o melhor para os irmãos/irmãs, falando o que Deus diz, não o que eu digo, sobre homossexualidade”. Eles construíram uma teologia fraca, preguiçosa e desleixada baseada em suposições, erros de tradução e falta de compreensão do espectro da orientação sexual.

A Bíblia tem sido usada como uma arma sagrada, causando danos para muitos filhos e filhas de Deus que certamente não estão excluídos do reino de Deus. Ed e eu esperamos que “Forjando um Arma Sagrada: Como a Bíblia se tornou antigay” vá expor o registro histórico de um erro de tradução, ajudando a reparar os prejuízos e danos sofridos à população LGBTQ e suas famílias, e trazer maiores níveis de arrependimento dentro da Igreja Cristã por esses danos.

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NOTAS

* A palavra grega original arsenokoites foi traduzida no início dos anos 1500 (até 1983) para o alemão como Knabenschender, “molestador de meninos”.

A palavra “sodomita” possui várias conotações históricas – significa, principalmente, aqueles que participam de sexo não procriativo. Pessoas heterossexuais, certamente, participavam e ainda participam de relações sexuais sem o intuito de procriar. Uma pessoa sodomita é uma pessoa (de qualquer orientação) que pratica uma ação, não um tipo de pessoa.

Eu acho que uma das mais precisas traduções é “aqueles que usam e abusam do sexo, e aqueles que usam e abusam de outros”, como n’A Mensagem.

(1) Vocês terão que esperar por “Forjando uma arma sagrada: Como a Bíblia se tornou Anti-Gay”, para ter acesso a todos os documentos. Afinal, a resposta foi escondida por cerca de sessenta anos, você pode esperar mais um pouco.

(2) Esta história assombrosa também está no livro.

(3) Mais uma grande história no livro.

(4) Nota do Tradutor: A Q Christian Fellowship Conference é a conferência da Q Christian Fellowship, antes chamada de Gay Christian Network, uma organização de pessoas LGBTIQ+ cristãs nos EUA.

Tradução de Petrus Carvalho

Fonte: http://canyonwalkerconnections.com/forging-a-sacred-weapon-how-the-bible-became-anti-gay/

O Evangélicxs pela Diversidade é uma rede que reúne pessoas LGBTI e aliadxs que se identificam como evangélicas e que entendem que a diversidade sexual e a identidade de gênero devem ser celebradas como expressões da fé e espiritualidade, e que independente do gênero ou sexualidade, as comunidades de fé podem ser um lugar seguro para todxs.

1 Comentário

1 Comentário

  1. OZAIAS DA SILVA RODRIGUES

    9 de fevereiro de 2020 em 12:50

    Que maravilha de artigo – super necessário. Parabéns Kathy!

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