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O reino impacta todas as esferas da sociedade

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O reino impacta todas as esferas da sociedade

O reino impacta todas as esferas da sociedade

Notas sobre o Fórum Mundial do Trabalho[1] do Movimento Lausanne (2019)

“O reino de Deus impacta todas as esferas da sociedade”. Essa frase-título resume bem o espírito do Movimento Lausanne e o tom do Fórum Mundial do Trabalho que acaba de acontecer em Manilla, nas Filipinas, entre 25 a 29 de junho.

O tema central do fórum foi exatamente o mundo do trabalho como uma esfera central para a missão cristã na contemporaneidade. Conexão, diversidade, compartilhamento, engajamento, transformação… Essas e muitas outras palavras-chaves descrevem um pouco do que significou essa iniciativa do Movimento Lausanne para pensar a missão da igreja e os desafios dos contextos de trabalho.

De fato, o Congresso Mundial de Evangelização ocorrido em Lausanne em 1974 marcou uma geração de cristãos e foi mais que um evento pontual. Foi o início de um grande movimento global da igreja cristã em prol da evangelização e luta pela justiça do Reino de Deus em todo o mundo. Esse processo global está muito vivo e em pleno andamento. Agora, precisamos encarar a situação atual: Estamos em um novo século, temos uma nova geração de líderes e cristãos e estamos frente a novos e complexos desafios na tarefa de levar o Evangelho todo, para a pessoa toda, para todas as pessoas!

Nesse texto, eu trago breves comentários sobre o Fórum, direcionados para Igreja Cristã Brasileira para dar contribuições e críticas para nossa missão no país.

Algumas características do Fórum

O fórum representou uma riquíssima fonte de reflexões, materiais e recursos sobre a relação entre fé, missão e trabalho para energizar e mobilizar pessoas a cumprirem a missão de Deus relacionada ao trabalho.

Além das múltiplas temáticas chamou a atenção o estilo participativo e coletivo do evento. Ele fugiu ao modelo padrão de conferência que, embora muito utilizado entre nós e tenha seu lugar, se assemelha à uma pedagogia bancária, onde apenas uma pessoa fala e todos os demais escutam em silêncio. Foram realizados painéis, rodas de conversa, mesas de debate, compartilhamento intenso, muito inspiradores.

Além do modelo interativo, houve uma diversidade étnica e regional, de gênero e cor. O evento não teve o rosto masculino, branco, americano e/ou euro-centrado, mas teve olhos puxados, peles negras, amarelas e muitas vozes do sul e femininas. Os convidados para exposições bíblicas, compartilhar histórias e experiências ministeriais não reproduziram as desigualdades de gênero, raça e etnia que vemos na sociedade atual e no palco do trabalho. Nesse sentido, o evento se distanciou de modelos patriarcais e coloniais muito presentes entre setores do cristianismo e na evangelização tantas vezes misturada com aculturação de diferentes povos. Essa diversidade representou ali a “multiforme graça de Deus” (1 Pe. 4.10).

Estiveram presentes em torno de 850 pessoas de todos os continentes, 109 nações e mais de 150 participantes on-line. A maior parte dessas pessoas são profissionais que atuam em diferentes frentes “seculares” e não pastores, líderes e missionários que vivem do ministério eclesiástico. O ambiente e estilo permitiram a construção de redes e relacionamentos multiculturais cumprindo assim o propósito de Lausanne: conectar pessoas que influenciam a missão de Deus no mundo global para impactar toda a sociedade global.

Do ponto de vista do conteúdo, seria impossível expressar aqui a profundidade, extensão e qualidade daquilo que foi compartilhado. Eu expresso apenas algumas linhas, eixos e temáticas que me chamaram atenção e são importantes para nossa igreja brasileira.

Todos são chamados a esse ministério

Em primeiro lugar, geralmente, pensamos que os vocacionados, os verdadeiros chamados por Deus para uma obra especial são aqueles que fazem parte de apenas 1% da igreja global. Ou seja, aqueles que vivem do ministério e em geral são pastores, líderes denominacionais e missionários de tempo integral. Acontece que 99% dos cristãos vivem e trabalham nos mais diferentes campos, setores e contextos sem ter consciência do ministério cristão em seu local de trabalho. Esse enorme grupo tem um potencial incrível para revolucionar o mundo pelo Evangelho. Muitas pessoas vão e voltam para o trabalho sem a segurança e clareza de estarem servindo a Deus nele! Aí entra a relevância de conectar melhor Fé e Trabalho e mobilizar esse 99% da igreja global a se colocar nas mãos de Deus para transformar o mundo e moldá-lo conforme os princípios do reino. Afinal, Deus envia pessoas a todos os setores: na mídia, governos, literatura e artes, nas creches, escolas, universidades, nos serviços de saúde, na segurança pública, nas empresas, etc., para tocar cada esfera da sociedade e usar cada pessoa para construir uma nova história. Aliás, a maioria das pessoas passa mais tempo no trabalho que em outros lugares. É preciso então ampliar a mentalidade para fazer a missão da igreja avançar. Precisamos reconhecer que o mundo do trabalho oferece grandes desafios e também oportunidades para evangelização do mundo. Todo ambiente de trabalho deve ser visto com um ambiente de ministério. Todos os lugares são lugares para a glória de Deus. Deus usa nosso trabalho para fazer o Seu trabalho em nós e na sociedade, porque Ele cuida tanto do nosso caráter como da nossa carreira.

Ampliando a visão bíblico-teológica para a missão no mundo do trabalho

O trabalho não pode ser uma arena esquecida na missão da igreja. Precisamos de princípios bíblico-teológicos para pensar o trabalho e uma revolução teológico-prática que repense o trabalho como santo, superando assim a dicotomia sagrado-profano. A compreensão de que o trabalho importa muito para Deus nos leva a dois focos: energizar a igreja para entender o mercado e as relações de trabalho como oportunidades de missão e mobilizar os cristãos para lutar, evangelizar e cumprir sua missão nos ambientes de trabalho, junto às pessoas que lá estão e nas esferas decisivas para o que acontece dentro dos processos de trabalho (política, regulação, etc.). Ou seja, agir tanto na esfera da micro-dimensão no ambiente de trabalho quando na macro-dimensão das políticas e sistemas. Isso porque, ao pensar o trabalho a igreja não pode reduzir o foco à dimensão interna das organizações e companhias. Não reduzir a visão ao mercado de trabalho ou à micro-dimensão individual e privada no trabalho. Existe uma teologia pública do trabalho em macrorrealidades onde estão políticas, sistemas, práticas que temos que responde e transformar. Dar mais atenção ao mundo público do trabalho. Essa é uma teologia do trabalho que a gente precisa alargando a compreensão eclesiológica para as múltiplas manifestações da igreja como comunidade de adoração, congregação local e também grupos e movimentos atuantes em outros âmbitos sociais.

De acordo com a Bíblia, Deus ama a ordem da Criação inteira e quer transformar o mundo à luz do reino que vem (Jo 3.16). Nós somos cocriadores com Ele e cooperadores de dEle (1Co 3.9; 2 Co 6.1). O trabalho enquanto atividade humana possui esse senso, sentido e propósito: atuação criativa no mundo para expressão a glória e amor de Deus. Além disso, a bíblia também afirma que todos os cristãos têm seus dons e talentos para expressar suas obras na igreja e no mundo, por meio das quais, Deus é glorificado e reconhecido (Ef 2.10)

Todos e todas são chamados e podemos reconhecer isso na conexão entre necessidades, dons e paixão. Ou seja, o chamado para o trabalho é também um chamado espiritual. Por meio do trabalho, todos os cristãos podem expressar o amor ao próximo como ensinou Jesus: criando oportunidades, serviços e produtos para melhorar a qualidade de vida e atender às necessidades humanas, desenvolver comunidades e ajudar cada ser humano a florescer. No plano pessoal, cada cristão pode exercitar sua criatividade, capacidade e imaginação como portadores da Imagem de Deus, entender o lugar que Deus o ou a colocou para cumprir seu propósito, se perguntando sempre: Qual propósito Deus quer cumprir nesse lugar para onde ele me levou? Além disso, ter uma profunda relação com Cristo para discernir os passos a seguir em um processo de formação espiritual contínuo. Precisamos ampliar a visão e promover sistemas de igualdade e um senso mais profundo de missão nas indústrias, nos serviços, na agricultura e não ficar enrijecido e isolado dentro de uma subcultura cristã.

Cenários de trabalho como múltiplas arenas de missão

Considerando a diversidade de situações, foram abordadas as múltiplas realidades dos contextos de trabalho ao redor do mundo. Os dilemas do trabalho pago e não-pago, o trabalho das mulheres, as atividades em situações de risco, a questão ambiental e importância do cuidado ecológico, a importância do descanso, os impactos dos processos de trabalho na saúde mental e física dos trabalhadores, experiências de quem trabalha com mulheres que sofreram tráfico humano, os impactos do mundo do trabalho na vida, na saúde e no desenvolvimento das crianças, o problema do abuso sexual, os desafios da urbanização e do trabalho nas cidades, a questão migratória e a exploração de trabalhadores mais vulneráveis, ao mesmo tempo, os desafios do trabalho no campo, frente a populações tradicionais, a exemplo dos indígenas.

Foi impressionante conhecer o quanto Deus está fazendo por meio de cristãos e cristãs que se dedicam às pessoas mais vulneráveis da sociedade. Projetos com crianças em situação de risco, mulheres violentadas devido ao tráfico humano e suas consequências, pessoas em contextos de escravidão, ministérios com as pessoas mais pobres moradoras de favelas, etc.

Isso é uma grande lição para nós porque é nossa missão cultivar e disseminar fé e boas obras para fazer o evangelho florescer, plantar igrejas, desenvolver pessoas, dignificar o ser humano e combater a pobreza. Afinal, o evangelho é uma transformação efetiva na vida em todas as suas dimensões: a gente sai do domínio da maldade para a graça, da corrupção e violência para a prática do bem e paz, da injustiça para a justiça, da raiva para o perdão, do isolamento para a vida comunitária, das trevas para a luz, do pecado consentido para uma vida correta, do domínio do outro para o serviço ao outro, do apego ao dinheiro para o amor a Deus e a generosidade com os outros, do abuso dos mais fracos, das mulheres, para a proteção de todos.

A luta contra as discriminações

No atual estágio da sociedade, pode-se dizer que o trabalho é uma esfera onde muitas segregações, divisões, discriminações e iniquidades aparecem claramente. Se por um lado, atualmente, existe grande avanço tecnológico e desenvolvimento técnico incrível, por outro, não desenvolvemos tanto como humanos. Persistem problemas como a discriminação, preconceitos, violências, etc. A bíblia ensina que nossa identidade está em Cristo (Gl 3.28) e não em nossa cor, étnica, nacionalidade, sexo, orientação sexual, classe social, entre outros. Se Cristo derrubou essas barreiras das separações (Ef 2.14), os cristãos são pessoas chamadas por Deus para reconciliar o mundo (2Co 5.19-20) e resgatar também o mundo do trabalho para Deus. Deus nos envia ao mundo das desigualdades do trabalho como campo missionário! Aliás, o trabalho foi o ponto central de grandes conflitos e movimentos durante os séculos XIX, XX e continuam no XXI. A obediência e serviço a Deus, portanto, devem estar acima dos mandamentos patronais (Co 3.23-24).

Importância de considerar a mulher nos contextos de trabalho

Nesse sentido, uma realidade que igreja não pode ignorar nos diferentes contextos de trabalho, especialmente no Brasil, é a questão do trabalho doméstico. As mulheres são 25% mais não pagas que os homens. Além das desigualdades entre o trabalho masculino e feminino e a divisão sexual do trabalho, a igreja precisa valorizar o trabalho não pago das mulheres em casa para a reprodução da vida e da fé nos lares. São muitas as lutas de ser mãe e não trabalhar fora. Além disso, são grandes os desafios das mães e pais para reproduzir a fé cristã no ambiente doméstico. Esse trabalho envolve alegrias e desafios e múltiplas tarefas para formar filhos para Deus, cuidar dos pais mais velhos, dos adoecidos, etc. Essa área precisa ser mais compreendida pela missão da igreja. É preciso falar com homens de negócios, mas é preciso lembrar também daqueles que limpam, cuidam, lavam, passam, costuram e reproduzem o mundo. A missão é para o trabalho pago, mas para o trabalho não pago também. Foram feitas críticas à dominação masculina nos ambientes de trabalho, as diferenças salariais existentes; importância de pensar mais amplo entendendo a diversidade de cristãos envolvidos no trabalho para além dos evangélicos.

No âmbito do trabalho com comunidades, precisamos lembrar que as mulheres são grandes tomadoras de decisão nas suas comunidades, empreendedoras e cuidadoras. A missão precisa investir nas mulheres como agentes de desenvolvimento e crescimento econômico em suas comunidades. Ao mesmo tempo investir esforços para a proteção da mulher. Muitos países, por exemplo, não têm leis contra assédio sexual e violências contra a mulher no trabalho. Existem muitas iniquidades em relação às mulheres no ambiente de trabalho. Jesus em seu ministério atentou a muitas mulheres castigadas física e socialmente pela sociedade. Ele ministrou cura sobre elas. Cada cristão hoje precisa assumir como missão a responsabilidade de contribuir para as melhores condições de vida e trabalho das mulheres em nossas sociedades. Como igreja, temos a missão de criar sociedades mais justas, compassivas e equânimes. O trabalho em prol da justiça é também o trabalho da evangelização! Nosso olhar não é apenas para pessoas (indivíduos), mas para sociedade e cultura. Como igreja, somos parte da resposta que Deus dá às pessoas, aos grupos e às estruturas sociais.

O problema migratório

Embora o fenômeno migratório não seja novo, atualmente o mundo vive desafios enormes relativos a diferentes tipos de migrantes e refugiados. As migrações motivadas por problemas de desastres ambientais, catástrofes, situações de tensão política, crises econômicas, conflitos e guerras, e as próprias pressões do capitalismo global aos países mais periféricos geram uma intensificação das migrações e a igreja têm aí uma ampla e desafiadora arena para cumprir a missão. É preciso lembrar que, em geral, migrantes trabalham em postos mais precarizados, com maior risco de acidentes, salários mais baixos e menor reconhecimento social e são mais explorados e descartados.

Uma comunidade de cura integral do mundo

Essa missão da igreja frente ao mundo do trabalho implica em desenvolver diversas estratégias como uma comunidade direcionada a curar o mundo. Devemos sair da ideia de igreja no mundo, em direção à igreja para o mundo. Cristãos podem influenciar nos ambientes de trabalho criando políticas e sistemas de proteção aos mais vulneráveis, especialmente as crianças. Precisamos de pesquisas e ação para melhorar as condições de saúde e vida de crianças e trabalhadores em geral. Além disso, temos a oportunidade de ser uma comunidade de cura todos e todas, especialmente aqueles que sofreram violências e abusos. Precisamos lembrar a importância de ter paixão por servir, como Jesus tinha e ser expressão de atos do coração de Jesus, sempre conectando espiritualidade e as dimensões físicas. Porque a cura de Deus é para o coração das pessoas e também suas realidades físicas, emocionais, culturais. Espiritualidade e transformação social caminham juntas na fé e missão cristã. Isso nos leva a ter sempre em mente as implicações sociais do Evangelho. A grande comissão também é “não esquecer os pobres”. Preocupação com erradicar a pobreza é uma preocupação cristã. O evento mostrou algumas experiências de pessoas vivendo junto aos pobres, nas favelas do mundo, agindo nos governos com programas de desenvolvimento comunitário, na tentativa de erradicar a corrupção no topo e a pobreza em baixo. Trazer ao centro da missão estratégias para quebrar o ciclo da escravidão contemporânea e da pobreza que afeta tantas pessoas.

Saúde física e mental de trabalhadores

Nessa dimensão, convém integrar à missão da igreja o âmbito da saúde física e mental dos trabalhadores. Em diversos lugares existem mortes por excesso de trabalho, suicídios e problemas mentais. Os desafios da saúde mental no trabalho são relativos a um amplo espectro de sofrimentos. Pessoas que sofrem por depressão, ansiedade, estresse, podem experimentar ainda formas de estigma no trabalho, serem consideradas pessoas defeituosas. Essa é uma arena para a igreja em seu desafio de cuidar daqueles que estão quebrados. Nesse sentido, a igreja precisa também de programas concretos para dar suporte ao ministério pastoral. Em geral, pastores e suas famílias são muito expostos e pouco protegidos. As igrejas, em geral, não oferecem oportunidades de aconselhamento e acompanhamento da saúde da família pastoral. Os pastores não têm também programas de saúde mental e manejo do estresse em seus ministérios, entre outros. Igreja, como uma comunidade que cuida, precisa cuidar de quem a cuida.

O business e a grande comissão

Na tentativa de compreender melhor as questões da fé e as demandas do trabalho, em todo o evento houve um direcionamento para pensar a relação entre negócios e a grande comissão. Essa ideia foi muito divulgada entre vários painéis e falas. Percebi bastante a presença dos discursos corporativos. Até porque o perfil de muitos participantes envolveu também empreendedores, CEO de empresas, diretores de organizações, profissionais liberais, etc. Foi muito presente a ideia de levar cristãos que atuam nas empresas a estabelecerem negócios justos, criar empregos que garantam a dignidade e liberdade aos trabalhadores, sem ceder à corrupção e atuar com eficiência, profissionalismo e integridade. Tudo isso é muito importante sim. Cristo também reina nessa esfera da vida.

De fato, muitos empreendimentos têm condições de diminuir a pobreza e desenvolver comunidades. Para isso, se faz necessário desenvolver líderes empreendedores cristãos no reino e investir neles. Muitos homens e mulheres de negócios têm mais influência em alguns países do que os líderes governamentais. Essas pessoas têm um papel diante de Deus e diante da sua geração nas cidades: Fazer o evangelho florescer e combater a exploração como forma de expressar o amor ao próximo. Ou seja, direcionar os negócios para a justiça. Isso implica em mudar o foco e se perguntar: Quem é meu próximo quando eu faço negócios? Cliente? Competidor? Consumidor? Concorrente? A esfera do fazer negócios não está fora da Grande Comissão.

A meu ver, aqui talvez esteja o ponto mais sensível porque, criar empregos com justiça e equidade, sem dúvida, é algo muito importante, ainda mais quando se percebe a sede de integridade nas pessoas do nosso país. Ninguém aguenta mais os bilhetes debaixo da mesa, os acordos entre empresários e políticos para obter vantagens, negócios escusos, empreendimentos que destroem o ambiente e exploram ao nível máximo a força de trabalho (comprometendo a qualidade de vida de tantas pessoas e comunidades). Tudo isso aponta a relevância das mulheres e homens cristãs e cristãos do mundo dos negócios aplicarem os princípios da fé nesse contexto: criando processos limpos, corretos, transparentes, justos, dignificadores dos seres humanos, com uso de recursos naturais considerando-o como parte da criação de Deus. Ao mesmo tempo, o desafio está em conciliar os princípios da fé cristão com o sistema econômico vigente predatório, competitivo, injusto, desigual e que se ancora na exploração para gerar o seu objetivo principal: lucro. Os cristãos nessa esfera talvez precisem encarar o desafio de pensar outro modelo, porque os negócios devem existir para satisfação das necessidades humanas e o trabalho como uma atividade humana que expressa os potenciais humanos para a glória de Deus. Reduzir os negócios e o trabalho ao objetivo de lucrar parece ser contraditório com a fé cristã. Esse desafio precisa ser enfrentado com realismo, seriedade e espírito humilde diante de Deus.

Nessa direção, um desafio lançado se refere ao aumento da generosidade. Foram feitos chamados aos cristãos para serem mais generosos e investirem mais no reino. Generosidade é uma disposição do nosso coração. Dar nossos talentos, nosso tempo, nossos bens para Deus. Existem vários caminhos através das culturas para expressar a generosidade. Quando nossos corações estão conectados com Deus, dar se torna mais fácil. Entender o dinheiro como uma ferramenta e não como um fim em si mesmo.

Missão, trabalho e a questão ambiental

Outra importante questão aborda foi a dimensão ecológica. Nossa visão cristã necessita compreender que as crises ambientais são crises espirituais, porque expressam uma incapacidade humana de cuidar da criação de Deus. Criar processos mais sustentáveis é função do cristão também. O propósito do trabalho é a glória de Deus e não o lucro e a degradação dos ecossistemas. Isso implica em cuidado grande com os sistemas naturais que Deus criou, porque Deus tem compaixão por todos os seres vivos: humanos e não humanos. Essa missão ambiental é mais que plantar árvores, é enfrentar os complexos desafios ambientais – qualidade do ar, da água, do solo, uso de químicos nos processos de trabalho, etc. A igreja deve atentar para as pessoas que vivem em verdadeiras áreas ambientalmente degradadas e se engajar em compreender e agir em direção à Justiça Ambiental. Se a criação morre, morre também o ser humano. Como cristãos temos responsabilidades, oportunidades e poder para engendrar mudanças frentes às necessidades do mundo atual. Temos que nos colocar diante do trono de Deus e pedir ajuda para essa grande tarefa. Orar por pessoas atingidas por desastres naturais. Pessoas que Deus ama.

Missão e participação social

Outro ponto importante que apareceu em alguns momentos e pode ser melhor desenvolvido por todos nós, seria o diálogo sobre a participação dos cristãos em grupos, associações, sindicatos e movimentos sociais ambientais e de justiça social como uma poderosa força de transformação na história. Na história da Revolução Industrial e no avanço do capitalismo foram as resistências de trabalhadores e a sua organização que puderam garantir muitos direitos aos trabalhadores. Esse também é um lugar de engajamento importante que poderia ter sido mais abordado pelos participantes, debatedores, expositores e todas em geral. Precisamos de uma visão Bíblica e Teológica sobre essa importante esfera na qual o reino também impacta. Muitos cristãos, inclusive, foram pioneiros na criação de sindicatos rurais no Brasil. Outros estão na linha de frente na defesa de Direitos em tantos contextos no campo e ou nas cidades.

Justiça do reino e os processos de trabalho

Considerando que existem muitos ambientes e processos de trabalho que não refletem a justiça de Deus – ou seja, locais onde a injustiça e a exploração imperam; ambientes de degradação e exploração extremas – é função dos cristãos moldar todas as esferas do mundo para a glória de Deus e atuar em favor da redenção do mundo do trabalho, criar um mundo melhor e recriar processo e relações sociais com base no Evangelho de Deus. Para isso precisamos ouvir a voz de Deus e também ouvir a voz daqueles que são explorados no trabalho. Retirar escamas dos nossos olhos e entender que pregação do evangelho sem perseguirmos a justiça e libertamos o pobre é algo repulsivo para Deus (Is. 58). A exploração, escravidão, acidentes e mortes de trabalhadores, devem ser uma preocupação latente em todo cristão. Devemos sempre direcionar a atenção mais pelas perdas de vidas no trabalho que pela perda dos lucros das empresas.

Grandes desafios para o nosso tempo

Para mim, foi um grande privilégio participar desse fórum, seja pelos impactos na minha vida e espiritualidade ou pelos insights e visão que geram para a igreja brasileira. Ficam algumas perguntas:

O que nós podemos fazer pelo nosso Brasil? Que passos podemos dar para criar processos de produção mais justos, equânimes, solidários que ajudem a desenvolver a vida do povo brasileiro, gerar renda e melhorar as condições e a qualidade de vida nos mais remotos cantos do nosso país? São grandes esses desafios para nós! Deixemos o talk dos domingos e encaremos o walk da segunda-feira em direção ao mundo do trabalho. O Espírito de Deus continua a chamar pessoas para participar de sua obra no mundo. Oremos para que Ele inspire e mova a gente na direção onde ele quer nesse tempo! Que ele amplie a nossa consciência, expanda nossa compreensão da missão, aumente o nosso amor e fortaleça nossa prática de anunciar o Evangelho e buscar estabelecer a justiça de Deus no mundo do trabalho brasileiro!

[1] Global Workplace Forum: https://www.lausanne.org/pt-br/fmt

Luís Henrique Leão é batista, doutor em ciências na área de Saúde Pública e professor da Univesidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

3 Comentários

3 Comments

  1. Lúcia Stela

    22 de julho de 2019 em 18:15

    Excelentes informações e reflexões sobre o Fórum, parabéns!
    Creio é preciso que nós, discípulos do nosso amado e doce Jesus ressignifiquemos o campo do trabalho como sendo o nosso campo missionário. É um desafio, porque significa andar na contra mão da maioria.
    Mas esse é o ponto, dia a dia, alimentar nossa fé em Jesus, e nosso amor, e sair para a prática, aproveitando cada oportunidade. Viver assim até que Ele venha!!

  2. LUCIA STELA

    22 de julho de 2019 em 22:57

    Excelentes informações e reflexões!
    Creio que seja um desafio para o discípulo de Jesus dar essa outra significação ao trabalho, isto é, passa a ser um campo missionário. É andar na contra mão da maioria na sociedade. Entretanto é um privilégio cada um(a) de nós, discípulos de Jesus ser comissionado(a) para testemunhar e demonstrar o amor de Deus no nosso cotidiano. Para tanto, precisamos cada dia do enchimento do Espírito de Deus, e assim cheios do Seu fruto. Sermos como Jesus, compassivos e justos.

  3. Helleny Nobre

    5 de janeiro de 2020 em 01:41

    Excelente texto!
    Pensar numa sociedade que n usa o trabalho como meio de exploração racial e de classe, e que cuida da criação! Somente esses dois pontos se mais praticados, trariam uma significativa mudança!
    🙂

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