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Um olhar sobre as eleições a partir da fé cristã

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Um olhar sobre as eleições a partir da fé cristã

No último sábado, 15 de setembro, participei do IV Encontro do Movimento Fé e Política do ABC Paulista como palestrante. O MF&P é um movimento que reúne pessoas cristãs, desde 1989, engajadas em causas sociais “com o objetivo de alimentar a dimensão ética e espiritual que deve animar a atividade política”.

O movimento “não propõe diretrizes para ação política dos cristãos, nem se comporta como se fosse uma tendência político-partidária”, definindo-se como “um serviço de formação e estímulo a grupos de reflexão”.

Há os Encontros Nacionais de Fé e Política e encontros regionais, como o do ABC Paulista, de sábado passado, com o tema “As eleições a partir da nossa fé”, sobre o qual fui convidada a expor a reflexão que aqui compartilho.

Este processo eleitoral se configura com grande importância desde 1989. Se esse ocorria ao fim da ditadura militar, o de 2018 acontece dois anos depois de um forte golpe na democracia brasileira. O processo democrático foi abalado pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, reeleita nas urnas em 2014, resultante de uma articulação de setores do parlamento, do poder judiciário e das grandes mídias.

Com isso foi incrementada um judicialização da política (iniciada já em 2004, com o chamado “processo do mensalão” e catapultada pelos desdobramentos da Operação Lava Jato, iniciada em 2014) e uma reativação do poder político dos militares.

Isto promoveu um revigoramento do conservadorismo político com agudas expressões reacionárias: uma reação de grupos de poder econômico, sociocultural e religioso às transformações socioculturais e econômicas que o Brasil experimentou a partir dos anos 2000. Nelas destacam-se a abertura e a potencialização de políticas públicas voltadas para o acesso maior a bens e serviços e ao ensino superior da parte da população historicamente empobrecida, e a direitos de gênero e à autonomia dos corpos.

Uma intensa polarização esquerda x direita se estabelece neste quadro, sendo destacado o lugar das mídias digitais e das novas formas de ativismo que elas proporcionam. Isto tem efeitos positivos, como a geração de interesse por participação nos processos políticos, mas também negativos, com o acirramento das intolerâncias e a exposição pública do ódio.

Identifica-se uma forte aversão ao sistema político, acompanhada de ira contra partidos e políticos, em especial contra os adversários daqueles que são apresentados como “puros”, pretensamente não contaminados pelo sistema condenado. O farto uso de mentiras por meio de textos, montagens de fotos e de vídeos, e a invasão (hackeamento) de páginas nas redes, somados à incitação ao ódio presente no discurso de candidatos, têm revelado marcas de um processo eleitoral violento.

Este clima facilita o crescimento do ultraconservadorismo, da extrema direita. Este setor alcança grande número de eleitores ao trazer propostas simplistas mas que tocam em demandas agudas da sociedade alicerçadas no medo: o combate à criminalidade e o poder sobre o corpo e a sexualidade.

Com isso, a discussão das políticas públicas fundamentais (saúde, educação, emprego e trabalho, segurança, entre tantas) fica abandonada em nome de uma guerra moral (questões de gênero e de orientação sexual, muito especialmente, mas também a eliminação de criminosos) entre conservadores e progressistas, direita e esquerda.

A falta de atenção às eleições para o Congresso Nacional é marcante neste cenário. A previsão de renovação é pequena e o crescimento conservador deve acirrar a tensão, na próxima legislatura, sobre temas como a redução da maioridade penal, a revisão do estatuto do desarmamento e a imposição de barreiras a discussões envolvendo os direitos de gênero.

Como, então, participar do processo eleitoral, levando em conta este cenário, com base na fé cristã? No Encontro Fé & Política vimos a importância de cristãos e cristãs terem a liberdade de escolha de voto e basearem-na nos valores do Evangelho de Jesus, dos quais são discípulos e discípulas: amor, misericórdia, justiça, humildade, cuidado, partilha, mansidão, tolerância, inclusão. Eles devem orientar todas as dimensões da vida de alguém que afirme a fé cristã e devem ter, como parâmetro, na solidariedade ativa com as minorias (“famintos”, “sedentos”, “sem roupa”, “imigrantes”, “doentes”, “presos”) é fazer para o Mestre (Mateus 25).

Por isso, para cristãos e cristãs é imprescindível o desenvolvimento de uma fé cidadã, ou seja, a fé para além do privado, que se reveste de uma presença pública, como sal da terra e luz do mundo (Mateus 5), com as escolhas e as ações políticas tendo como bases estes valores do Evangelho.

Isto significa participar das eleições em coerência com a fé abraçada e ter responsabilidade com o voto:

– Relacionar candidatos (nomes) com partidos e programas/propostas para o país (não com promessas vãs ou voltadas ao próprio grupo) e que revelem compromisso amoroso com as minorias (Mateus 25);

– Estudar históricos e projeções futuras/consequências da eleição (“pelos frutos os conhecereis” Mateus 7);

– Avaliar campanhas e estratégias: alianças, apoios, discursos (palavras expostas, imagem construída) a partir de critérios de justiça e de paz;

– Rechaçar o voto de cabresto (compra de votos com favores) ou de cajado (imposto por líderes religiosos) e o voto útil (determinado por números de pesquisas ou por chantagens de candidatos);

– Desenvolver olhar crítico sobre o noticiário e o que é divulgado nas redes, checar informações e buscar diferentes fontes em compromisso com a verdade e com a ética (“Conhecereis a verdade e ela vos libertará”, João 8).

 

Fonte: Diálogos da Fé, Carta Capital, 19/09/2018

Jornalista, educadora, membro da Igreja Metodista. É doutora em Ciências da Comunicação, mestre em Memória Social e graduada em Comunicação Social (Jornalismo). É autora de "Explosão Gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico contemporâneo", pela Editora Mauad. É integrante do Grupo de Referência da Peregrinação de Justiça e Paz do Conselho Mundial de Igrejas. É colunista da Carta Capital.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Jason Chaves Schmidt

    23 de setembro de 2018 em 07:10

    E, mas não ficou nem um pouco cristã essa discussão, você foi sagazmente desmontando todos os argumentos dos candidatos de direita e enaltecendo todos os predicados de esquerda! Minha cara irmã, ser cristão, nesse mundo ocidental hoje, NÃO significa apoiar o socialismo, seu texto foi extremamente tendencioso; Jesus agia, dadas as devidas proporções, muito mais como um vereador ou prefeito, não como quem deverá presidir uma nação continental com um Congresso Nacional com mais de 500 deputados, não incuta na cabeça dos cristãos que ser cristão é ser esquerda, ou socialista porque isso perde todo o objetivo ser cristão, que é ser livre e ter seu papel social no seu oikós e não sair militando de maneira simplória sem nem entender tanta coisa que está envolvida pra cuidar de um país tão grande. Apregoemos ser cristãos aqui e eles serem gerentes da coisa pública, não adianta sonhar que eles serão cristãos, ou mesmo missionários por nós lá, não existe procuração evangélica no Reino de Deus.

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