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Unidade Eclesiástica Pacificadora?

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Unidade Eclesiástica Pacificadora?

Unidade Eclesiástica Pacificadora?

É PM, a Civil, pronto pra te esculachar, e a força militar, pronto pra te exterminar, UPP pacificar, pacificar, pra reprimir, pra reprimir, para matar, o pobre exterminar… (“A Maré tá cheia” – Anarkofunk)

O compromisso das igrejas evangélicas com a promoção da paz é um tema social e político bem interessante para aqueles/as que se engajam na defesa dos direitos humanos, pois em todo lugar que há conflitos sociais, lá estará presente uma igreja evangélica, para o bem e para o mal. Este é também um tema fundamental para as/os próprias/os cristãs/ãos. Na Bíblia, não faltam menções à “paz”. Alguns possíveis exemplos: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mateus 5:9); “O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranquilidade e na segurança para sempre.” (Isaías 32:17); “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração.” (João 14:27); “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” (Filipenses 4:7).

A presença dessa “paz” aí mencionada não é nada “pacífica”. A paz apresentada na Bíblia já está no contexto de uma disputa de leituras de mundos possíveis. Sem dúvida, a paz reivindicada no texto bíblico não pode ser reduzida a uma “paz mundana”, o que não significa que esteja alheia às condições sociais e políticas da “paz no campo e na cidade”.

Se quisermos falar de “juventude e violência” a partir de um engajamento ético e político cristão, temos vasto respaldo no texto bíblico. Olhando para a realidade brasileira, veremos números assustadores e entristecedores. Os jovens estão sobrerrepresentados entre os números de vítimas. Segundo o Mapa da Violência 2016, no período de 1980 a 2014, os jovens de 15 a 29 anos representavam 26% da população brasileira e 58% de vítimas de Homicídios por Armas de Fogo (HAF). São quase 500 mil jovens vidas brutalmente interrompidas num universo de mais de 830 mil vítimas no período. Enquanto igreja, um engajamento possível e real é estar ao lado dessas famílias que perdem seus jovens, das mães, pais, tios, tias, irmãos, irmãs, avôs, avós que ficam sem seus queridos filhos, sobrinhos, irmãos, netos…

Tratar a dimensão psíquica da perda é um caminho necessário, no entanto, não se pode, enquanto igreja, tratar o fenômeno apenas como “casos isolados”… É preciso perceber o que coloca a vida de alguns jovens na mira das armas muito mais que outros. Neste sentido, o racismo estrutural da sociedade é talvez o elemento central nesse processo de vitimação. Como já afirmei em duas reflexões anteriores (“Abolir a segurança” e “Jesus Cristo contra a vida segura”), não basta agir em termos de “securizar” a vida dos jovens, é preciso desarmar os mecanismos que hoje estão apontados contra eles. Escolas, ONGs, Governos, Hospitais, Polícias, Jornais, Igrejas, Tribunais etc., cada uma dessas instituições envolve uma série de práticas e políticas que intencionalmente ou não coloca a vida dos jovens em risco, reforça, reitera os lugares de “vulnerabilidade”.

As armas apontadas contra os jovens precisam parar de matar. A igreja também é violenta, racista, machista, homofóbica, elitista etc. e precisa deixar de sê-lo. A igreja que se alia a uma “paz armada” promove a violência que diz combater. A legitimação da inclusão/exclusão dos/as jovens nos espaços da igreja se dá por “argumentos” nem sempre declarados, visíveis ou explícitos, que se pretendem uma leitura autêntica, original, fundamental, pura de fé, mas que na verdade são marcados por sensibilidades culturais, raciais, de gênero, de classe, de sexualidade, de faixa etária etc.

Se a igreja quer promover a paz, se quer ser de fato “pacificadora”, precisa abandonar suas táticas de guerra, sua aliança com a “paz armada” vendida pelo Estado e pelas empresas privadas de segurança. Não se aliar à paz do “Império Romano” é fundamental como ponto de partida. A partir daí, construir outros caminhos, perceber que os/as jovens dentro e fora das igrejas têm encontrado seus próprios processos de sobrevivência.

Uma crítica-denúncia

Não gosto de pessoalizar as críticas que faço. Em geral, estou mais preocupado em inventariar as práticas e os conceitos que nos movem. Essas práticas e conceitos estão presentes em muitos lugares e inclusive dentro de nós. Identificar num único governo, numa instituição, num único partido etc. o inimigo de nossa perspectiva pode ser danoso porque pode nos cegar em relação às opressões que nós mesmos (re)produzimos.

No entanto, venho a público dizer que, no sábado, 5 de novembro de 2016, falei num evento ligado à Convenção Batista Brasileira (CBB) chamado Igreja Pacificadora. Na parte da tarde, as quatro falas previstas, que antes funcionariam como oficinas, seriam transmitidas ao vivo pela internet. A minha intervenção, a segunda a ocorrer (depois de uma fala sobre “violência e subjetividade”), foi sobre “violência e juventude”. Parece que minha fala não era o que alguns “setores” da instituição em questão esperavam ouvir, o que gerou um forte incômodo. Algumas pessoas à frente do evento resolveram então tirar do ar a gravação da transmissão ao vivo já realizada. Transmitiram normalmente a fala seguinte sobre “violência e infância” e não transmitiram a quarta e última fala, da professora Lília Mariano, sobre “violência e gênero”. Fomos avisados posteriormente do ocorrido, o que gerou bastante revolta na professora Lília, em mim e em nossos pares.

Resisti em fazer essa crítica pública pelos motivos que coloquei no começo dessa denúncia, mas tudo isso precisa gerar uma reflexão crítica e autocrítica. Como querer ser “igreja pacificadora”, negando-se a ouvir vozes destoantes? Como querer promover “vida para a juventude”, se os/as jovens são silenciados/as? Como querer combater a “violência contra mulher”, se o debate de gênero é chamado pra conversa, mas ao mesmo tempo silenciado?

Parece que a minha fala incomodou tanto que a única resposta possível no momento foi provar que o que dizia tinha mesmo razão de ser – a igreja promove a violência e está aliada a uma paz armada. O curioso disso tudo é que nada disso é novo. Já fui membro de uma igreja ligada à CBB e já estive nessa posição difícil de querer promover bons debates, ventilar outras ideias e ser/sentir-me tolhido pela instituição.

Neste sentido, não quero com essa crítica punir ou responsabilizar indivíduos que hoje se encontram nessas posições difíceis e carregadas de ambiguidades de agradar a “gregos e troianos”. Acredito que é preciso antes de tudo rever o que torna possível essa “difícil situação” de tentar fazer algo diferente “dentro e apesar da instituição”, mas de se ver preso pelos próprios limites institucionais impostos.

Enfim, faço essa crítica-denúncia com o maior respeito possível às pessoas que me chamaram para contribuir com o evento, mas com um profundo lamento no “mais do mesmo” do qual a igreja-instituição em questão se vê armada. Que a CBB possa também se desarmar e promover vida para jovens, mulheres, negros/as, LGBTs, reconhecendo onde tem falhado como instituição.

Pedro Grabois tem mestrado e graduação em Filosofia pela UERJ. Atualmente, no doutorado, desenvolve tese sobre racismo e sociedades de segurança. Foi articulador da Rede Fale e Conselheiro Nacional de Juventude (CONJUVE), representando a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). É professor de Filosofia do IFRJ, em Paracambi, e frequenta a Igreja Batista do Caminho.

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