As comissões das verdades

11 de agosto de 2014
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As “comissões da verdade” se espalham por todo país, para celebração de uns e irritação de tantos, para ouvir e entender um tempo de difícil consignação. Como a “verdade” tem muitas faces, o que se procura agora é a verdade dos vencidos, derrotados pela ditadura, tachados pela mesma de “subversivos” e “terroristas” agora considerados “heróis”, mania do tempo de jogar com as palavras, transformando os significados. Mesmo sabendo que os heróis têm calcanhares, o privilégio de ouvir os depoimentos em Feira de Santana traz recordações e esperanças em meio à dubiedade da vida e às brincadeiras da história.

Assisti a três depoimentos de pessoas perseguidas, difamadas ou torturadas, acusadas do crime de tentar mudar o mundo, a partir de bandeiras diversas e complexas, como “nacionalismo”, “democracia”, “reformas de base”, “socialismo” ou “comunismo”. Em alguns momentos essas bandeiras confluíam e em outros divergiam, mas a ditadura conseguiu provocar uma frente única contra si mesma. Os depoimentos em pauta foram de um pequeno comerciante, Moacir da Costa Cerqueira, proprietário da “Casa das Canetas”, nacionalista, de um político, vereador, Antônio Carlos Daltro Coelho, filiado na época ao Partido Comunista e de Jaime Cunha, militante de movimentos sociais, como a AP (Aliança Popular) e a Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-Polop), hoje advogado.

Cada depoimento trazia uma contribuição específica para se entender o momento vivido pelo país. Antônio Coelho, o “Coelhinho”, acompanhou a política do país em toda a sua complexidade, fazendo parte do governo municipal do cassado pelo golpe militar, Chico Pinto, figura popular histórica. Nos anos setenta, o “Coelhinho”, então vereador, foi inquirido por uma junta militar pelo crime de ter feito uma moção pela indicação do Prêmio Nobel da Paz a Dom Helder Câmara, considerado um dos maiores inimigos da ditadura militar.

O depoimento de Jaime Cunha trouxe detalhes da trajetória de jovens estudantes idealistas que também queriam mudar o mundo. Radicalizando na mesma proporção do endurecimento da ditadura, foi perseguido e julgado à revelia como terrorista e aliciador de menores, o que lhe deixou perplexo e convicto de que estava condenado à morte, a essa morte clandestina que tantos companheiros experimentaram. Em um dado momento foi tomado de uma emoção incontrolável, choro que interrompia a narrativa, mas que narrava de modo mais forte as tensões vividas no período. Escapou da prisão, da tortura e da morte, mesmo continuando suas lutas.

Mas, talvez, o depoimento mais interessante tenha sido o de Moacir Cerqueira. Ele não estava ligado a nenhum movimento sindical, não era militante de organizações revolucionárias, nem filiado a nenhum partido de esquerda, era apenas um comerciante pai de família e queria defender o país da voracidade do capital internacional que impedia um crescimento econômico mais autônomo do nosso país. A bandeira do nacionalismo cabia inclusive no mastro de alguns militares, inclusive ditadores.

Ele não foi ameaçado, preso ou torturado, mas vivia a angústia do pensador herege, que convivia com grupos diversos em rodas de conversa, esses bares da vida que agrupam pensadores dissidentes. Quando a pressão aumentou fugiu para Salvador, mas voltou logo porque a tensão estava em todo o canto. A polícia invadiu o cinema em que assistia a um filme com sua esposa, e saiu arrastando outra pessoa. Voltou para Feira e para a sua vida, acrescentando o medo à sua rotina de comerciante e às suas convicções intactas. Ele representa esses heróis anônimos, imersos em seus cotidianos, mas que também anseiam por mudanças e por um mundo melhor.

Tudo isso me remeteu a Bertold Brecht e à sua peça Galileu Galilei. Galileu enfrentou outro tipo de comissão, a famosa Inquisição, em que a verdade era a verdade do dogma e dos poderosos. Na peça, Galileu pretende mesmo é mudar o mundo, por acreditar “na força suave da razão” e que “pensar é um dos maiores prazeres da raça humana”. Defender que a terra gira ao redor do sol e não o contrário seria enfrentar fortes convicções e “verdades” religiosas dogmáticas, deslocando e ameaçando a distribuição de poder.

Um amigo tenta lhe dissuadir chamando-o de desgraçado por acreditar na razão e na humanidade. “Os poderosos não podem deixar solto alguém que saiba a verdade, mesmo que seja sobre as estrelas mais distantes!” E Galileu é silenciado pelo tribunal da inquisição. Nega a redondeza e o movimento da terra, para garantir a vida. Um seu discípulo, consternado e decepcionado, o encontra depois e lhe diz: “Infeliz a terra que não tem heróis” e Galileu lhe responde: “Não. Infeliz da terra que precisa de heróis”.

Na esteira dos “nunca mais” (o livro de denúncias Brasil nunca mais, o lema repetido “tortura nunca mais”), escrevo aqui o meu desejo: Que se multipliquem sempre os espaços de narrativas de tantas vítimas de tantos abusos, para que nunca mais precisemos de tantos heróis!

(Citações do livro: BRECHT, Bertold. Vida de Galileu. São Paulo: Abril, 1977.)

Publicado originalmente em http://www.madoniram.blogspot.com.br/2014/08/as-comissoes-das-verdades.html

Marcos Monteiro

Marcos Monteiro

Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão (CEPESC). Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana (BA) e e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda (PE). Também faz parte da diretoria da Aliança de Batistas do Brasil e é membro da Fraternidade Teológica Latino-americana do Brasil

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