Baixa ecologia, domesticação burgo-capitalista da ecologia

12 de abril de 2015
capitalismoverde_640

Não se pode desvencilhar a discussão ecológica da modernidade. Até porque, o termo “ecologia” se reconhece no âmbito do raciocínio ocidental preocupado em distinguir homem/natureza. Iniciamos o texto tratando da burguesia por que é o segmento chave do desenvolvimento da Civilização Ocidental. Ela foi o segmento social no qual viveu nos burgos emancipando-se dos feudos, vivendo além das vielas feudais. Contudo, pergunta-se como um grupamento social organizado a partir do comércio, das feiras, da emancipação dos feudos poderia construir uma deformação na consciência entre homem/natureza? Para responder a questão, lembra-se primeiro que a burguesia se alia à monarquia para desestabilizar o poder da aristocracia. A aliança com os reis permite-lhes espaço para circulação de produtos, moedas e o livre comércio nos estados nacionais. Por isso, Noam Chomsky descreve tal grupo social como “na formação dos estados nacionais que segurava a sujeira das moedas, logo trazendo para si a condição de sujar o Mundo” (1). Voltam-se às “a moeda”, mas, sobretudo, “a mais-valia” (Karl Marx).

Entre os séculos XVII-XVIII, seus filhos ajudam no declínio do sistema absolutista promovendo as revoluções como a Revolução Inglesa (século XVIII) e a Revolução Francesa ampliando mais o valor da moeda. A partir disso seu sistema, isto é, o agora capitalismo industrial passa a se afirmar como sistema econômico continental sistematizando entre suas sociedades o massacre ao proletariado – classe alienada diante do progresso burguês. Sublinha-se que a burguesia como classe suja, pois não só vive com as mãos borradas das cédulas e moedas, mas porque seu espírito foi tomado pela mecanização do lucro. Foram tomados pelo espírito sujo que pelos pés impregnam o solo pisado. A má notícia é que a sujeira foi tamanha que houve o início do movimento naturalista na revolução liberal inglesa levando a borrar completamente o ímpeto crítico do movimento. Chegando a deformar as correntes ambientalistas que ora entendiam o meio ambiente de forma contemplativa criticando a dualidade cartesiana do pensamento moderno; e, ora assumiam que a espécie humana seria parte da natureza.

Fruto disso que para Daniel Bensaid (2), funda-se no século XIX o conceito de “ecologia” contemporaneamente ao primeiro livro de Marx, d’O Capital. Nele, o filósofo apresenta um pueril entendimento sobre a apropriação do homem/natureza. Afirma que todo “o progresso da agricultura (…) é um progresso não apenas da arte de depredar o trabalhador, mas também, ao mesmo tempo, da arte de depredar o solo” (3). Embora Marx apresente um senão a exploração das reservas naturais, no geral, pouco desenvolve sobre o tema. Na verdade, é só partir das revisões de seu pensamento que se liga o marxismo à critica ecológica capitalista. Agora, um segundo momento do discurso ecológico ocorre quando pelo aprofundamento dos debates ecológicos, já a partir da década de 1950. Quando da solidificação da biologia e da química se construiu o conceito de “ecossistema”. Intuiu-se a ideia de “ecossistema” como uma estrutura preocupado com os efeitos degradantes que a biosfera sofria. A partir disso, em 1987, a Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas (CMMAD) apresentou um relatório incorporando o conteúdo ético à ecologia. Nele, balanciava os interesses do modo de vida burguês com o inevitável confronto dos problemas como do aquecimento e destruição da flora e da fauna. A partir disso cria-se uma ideia paliativa de ajuste capitalista de exploração das reservas naturais chamado de “sustentabilidade”. Formulação abertamente incorporada ao alto empresariado industrial aprumando o equilíbrio neoliberal de quatro vetores: o ambiental, o social, o econômico e o propagandista. Com a nomenclatura “sustentabilidade” punhada na CMMAD não se busca rever o método e a forma de abordar a submissão da natureza pelo ser humano, mas se aproveita para ajustar os caminhos para a manutenção da lógica fria econômica em benefício de uns ante o todo social. Por isso, Michael Löwy sublinha queixosamente que as novas formas da “questão ambiental” fazem parte da “questão do capitalismo” (4).

Pois hoje as ações designadas de sustentabilidade (e/ou ecologia dos acordos empresariais), desde a década de 1990, com seu turbilhão midiático de propagandas nos quais bombardeiam os meios de informação, caminham a trilha de baixíssima ecologia subservientes ao capitalismo. Não visam somente o lucro, mas, sobretudo, a manutenção de certos segmentos capitalistas à frente da reprodução social (5). Porque a burguesia industrial cooptou de tal maneira um tema tão proativo como a ecologia e a partir do turbilhão de manchetes, espalhando a sensação de terror para ajudar a sua reprodução social. Destilam o medo para que não se reveja sua condição de classe alienadora até da exploração da natureza. Essa seria a baixa ecologia dos mais altos setores burgueses formado por sujeitos que rezam com as mãos nas cédulas monetárias, recitando o complexo propagandista do terror a fim do deus dinheiro manter-lhes as reservas naturais para explorá-las.

Notas
(1) Noam. Chomsky, A luta de classes, Porto Alegre: ArtMed, 1999, p.25-26.
(2) Daniel Bensaid, Marx intempestivo. Grandezas e miséria de uma aventura crítica. São Paulo: Civilização Brasileira. 1999, p.454.
(3) Karl Marx. O Capital.
(4) Michael Lowy, Entrevista.
(5) Utiliza-se o conceito de hegemonia de Gramsci, Concepção dialética de histórica, São Paulo: Civilização Brasileira, 1991.

Referências
PY, Fábio. Crítica a baixa ecologia. São Leopoldo e São Paulo: CEBI e Fonte Editorial, 2015.
PY, Fábio e PEREIRA, Nancy. “Ecologia profunda: para uma ecologia do proletariado”. Voices (Revista da Associação dos Teólogos dos Terceiro Mundo), v. XXXVII, 2014, p. 309-322.

Fabio Py

Fabio Py

Fábio Py é historiador e teólogo, doutor em Teologia pela PUC-Rio e mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Niteroiense, professor na Universidade Cândido Mendes e articulista sobre fé e política no Portal da Revista Caros Amigos. É autor de Crítica à baixa ecologia (CEBI/Fonte Editorial, 2015).
Fabio Py