Bater para educar? Provérbios e outras passagens sobre castigo corporal

5 de abril de 2015
castigo-corporal_640

O castigo corporal é comum entre os cristãos, sejam católicos ou evangélicos. É uma prática generalizada em que, em alguns casos, usam-se argumentos provenientes da Bíblia, especialmente do livro de Provérbios, onde se menciona “a vara da disciplina” (Provérbios 22.15) (1)

Algumas comunidades cristãs ensinam o uso do castigo físico como princípio divino. Exemplo disso é este parágrafo, escrito por um líder espiritual: “Segundo as Escrituras não há outro caminho para que a necessidade seja desligada do coração do menino se não apenas a vara”, e agrega que “a vara deve ser aplicada no corpo físico dos filhos”, pois “só alguém que não conhece a Deus e que não lê as Escrituras pode crer e dizer que não é necessário que os filhos de Deus sejam castigados fisicamente”. E a argumentação termina com uma frase contundente: “A Bíblia inteira nos mostra como os homens de fé em algum ponto de sua vida foram castigados fisicamente por Deus” (2).

No geral, os textos bíblicos que servem como prova encontram-se no livro de Provérbios, no Antigo Testamento. Os versículos mais citados são os seguintes:

“A sabedoria está nos lábios dos que têm discernimento, mas a vara é para as costas daquele que não tem juízo.” (10.13)
“Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo”. (13.24).
“Discipline seu filho, pois nisso há esperança; não queira a morte dele.” (19.18).
“A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a livrará dela. (22.15).
“Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a vara, ela não morrerá. Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a livrará da sepultura”. (23.13, 14).
“O chicote é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara, para as costas do tolo! (26.3).
“A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe” (29.15).

Diante da insistência da prova, vale se perguntar pelo seu significado. Quando o livro dos Provérbios menciona a vara, sempre e em todos os casos se refere ao castigo corporal? Sendo este um dos livros sapienciais da Bíblia, qual é a filosofia educativa que ele promove e qual o seu conceito de sabedoria? Estas duas perguntas orientam o presente exercício de interpretação bíblico-pastoral.

A vara não é o ensino mais relevante, muito menos a prescrição exclusiva do livro de Provérbios.

A palavra vara, tal qual se usa em Provérbios, provém do idioma hebreu antigo. O termo exato é shébet [טבשׁ] e algumas versões da Bíblia o traduzem como “vara”, “garrote”, “bordão”, “pau” ou “açoite”. Shébet é, literalmente, “uma vara para castigar, escrever, lutar, governar ou andar”. Seu único significado não é o de um objeto de castigo ou disciplina física. Por esta mesma razão, em outras partes da Bíblia, traduz-se como “bastão”, “cajado” ou “cetro”, por exemplo em Juízes 5.14, 2 Samuel 7.14, Jó 9.34, Salmos 2.9, Salmos 89.32 e Isaías 9.4 entre outros.

Shébet é também, em outros casos, a vara de apoio que leva os viajantes, o bastão dos anciãos, o cajado que os pastores usam para guiar suas ovelhas ou o cetro de autoridade dos governantes. Só em alguns casos é, de maneira direta, uma vara de castigo físico. Sua tradução depende em grande parte do contexto imediato, ou seja, do tema central da passagem ou parágrafo bíblico no qual se encontra essa palavra.

No caso do conhecido Salmo 23 se usa a mesma palavra: “Ainda que eu ande no vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo, Tua vara (shébet) e teu cajado me consolam”. Neste caso, a vara e o cajado consolam. O contexto imediato no qual se encontra a vara é a declaração de confiança do salmista frente ao cuidado amoroso do Senhor. De nenhuma maneira se permite aqui uma interpretação da vara como forma de castigo.
No caso de Provérbios, a maioria dos biblistas, tanto católicos como protestantes, concordam em traduzirshébet como “vara” ou “palmada” porque o contexto destes versos é, sem dúvida, aplicado à disciplina de tolos. O texto 26.3, por exemplo, diz: “O chicote é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara, para as costas do tolo!”. Foi, então, uma prática cultural e religiosamente aceita.

Nesta acepção, aconselha-se a vara para os adultos “que não têm juízo” (10.13). Em outros casos a vara é aconselhada para a disciplina dos meninos e meninas (22.15; 29.15). A recomendação se localiza dentro de uma série de versículos que contêm uma lição mais ampla acerca da educação integral. É o caso de Provérbios 29.15, situado no contexto de 29.15-21, onde se ensina quais meios utilizar para contribuir para a mudança dos filhos (3). A vara não é o instrumento exclusivo de correção; é um recurso para os mais obstinados e rebeldes. Observe-se o texto e note-se de que maneira aparece a vara no conjunto de diferentes opções educativas:

15 A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe.
16 Quando os ímpios prosperam, prospera o pecado, mas os justos verão a queda deles.
17 Discipline seu filho, e este lhe dará paz; trará grande prazer à sua alma.
18 Onde não há revelação divina, o povo se desvia; mas como é feliz quem obedece à lei!

Que um texto do Antigo Testamento ensine algo não é suficiente para que se converta em regra de comportamento cristão.

19 Meras palavras não bastam para corrigir o escravo; mesmo que entenda, não reagirá bem.
20 Você já viu alguém que se precipita no falar? Há mais esperança para o insensato do que para ele.
21 Se alguém mima seu escravo desde jovem, no fim terá tristezas. (29.15-21).

O que se aconselha de modo mais extenso é educar por meio do ensino da profecia, da Lei e das palavras dos sábios, assim como pelo exemplo dos justos. O modelo dos justos é a esperança do povo.

A vara não é o ensino mais relevante, muito menos a prescrição exclusiva do livro de Provérbios. Afirmar o anterior seria desconhecer o propósito sapiencial do texto. Desde o começo se ensina que o objetivo da tarefa formativa é a sabedoria: “O conselho da sabedoria é: Procure obter sabedoria; use tudo o que você possui para adquirir entendimento.” (4.7). A sabedoria tem a ver com a maturidade humana integral dentro da prática dos valores da fé em um Deus justo e solidário. Propósito que se cumpre com a aplicação adequada da disciplina corretiva.

Quando Provérbios fala da disciplina [Mûsar], tem em mente a orientação positiva que se deve apresentar aos filhos para que eles desenvolvam a sabedoria (29.15), gozem de tranquilidade (29.17), vivam com satisfação (29.17) e sejam fiéis à lei de Deus (29.18) na busca de uma vida plena (10.17). E dentro desse jogo de possibilidades formativas se sugere também o uso da vara tal como se acostumava no marco cultural daquela época (4). Neste marco, o uso da vara era sugerido para os casos de obstinação, imbecilidade, insensatez e aberta rebeldia. Por meio da vara se buscava livrar do mal o menino que era indócil, glutão e indolente (23.19-25).

O ensino central de Provérbios, então, não é a vara, mas a formação de pessoas sábias. Esta formação se promove por meio da disciplina positiva, mas para os casos extremos ou mais difíceis se recomenda o uso da vara, e esta implica o castigo corporal (5).

Cabe perguntar agora se esta última recomendação tem caráter prescritivo e é uma norma inalterável para os fiéis crentes de todas as épocas e os seus filhos e filhas em todos os casos. A pergunta é válida, sobretudo se se leva em conta que em muitos casos os textos sagrados (não apenas o judeu-cristão, mas também o das demais religiões) serviram para legitimar práticas de agressão, discriminação e violência.

Que um texto do Antigo Testamento ensine algo não é suficiente para que se converta em regra de comportamento cristão. Isto é claro e aceito ainda por exegetas amantes das interpretações literais. Por exemplo: Deuteronômio 21.18-21, que fala a respeito do mesmo tema da disciplina de filhos:

“Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedece ao seu pai nem à sua mãe e não os escuta quando o disciplinam, o pai e a mãe o levarão aos líderes da sua comunidade, à porta da cidade, e dirão aos líderes: ‘Este nosso filho é obstinado e rebelde. Não nos obedece! É devasso e vive bêbado’. Então todos os homens da cidade o apedrejarão até a morte. Eliminem o mal do meio de vocês. Todo o Israel saberá disso e temerá.

O escritor sagrado se refere à lapidação dos filhos rebeldes como medida para “extirpar o mal” e abrir precedentes exemplares entre o povo. Mas quem dentre os que querem ser obedientes à Bíblia acata hoje este ensino? Nem este nem muitos outros que beiram a insensibilidade e intolerância. Certamente que “nem a Bíblia nem os rabinos dão testemunho de que esta lei já fora executada alguma vez.” (6). Nestes casos, todos os cristãos e cristãs igualmente apelamos com juízo elementar aos ensinos pacificadores, misericordiosos e amorosos do evangelho de Jesus (Mateus 5.38-48). Sobram argumentos para explicar que estes textos respondem a uma intenção e estão situados em uma época e uma cultura que não são as nossas. Assim acontece com dezenas de outras referências bíblicas a que costumamos responder com os ensinos de Jesus e do Novo Testamento: “Vocês ouviram o que foi dito… Mas eu lhes digo” (Mateus 5.38, 39). Um “mas” que nestes casos explica a superioridade ética de Jesus e exalta o imperativo de seu amor compassivo e misericordioso. A vida e os ensinos de Jesus são a chave de leitura (chave hermenêutica) para aqueles textos bíblicos que sugerem o uso da violência como meio de vencer os inimigos, impor os ensinos da lei divina ou educar os filhos e filhas. Por respeito ao texto sagrado se deveria fazer o esforço de interpretá-lo à luz dos propósitos de Deus revelados na pessoa pacificadora e amorosa de Jesus de Nazaré. As leituras literais, em geral, afirmam o que diz a letra mas sem decifrar o sentido. Razão tem o apóstolo ao dizer que somos ministros de um novo pacto, que não é “da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica”. (2 Coríntios 3:6). E o espírito dos ensinos de Jesus é a não-violência, a misericórdia, a paz e a justiça.

No caso particular da interpretação do livro de Provérbios, recomenda-se distinguir aquilo que expressa verdades absolutas de verdades relativas. “Nem todos os provérbios têm um alcance universal… temos de saber discernir o que é confirmação da Palavra de Deus e o que é apreciação humana derivada de uma experiência, que pode ser muito ampla, mas não comunica uma mensagem infalível” (7). A interpretação literal desses textos ensina que se devem evitar as generalizações errôneas como, por exemplo, pensar que sempre que alguém está em paz com Deus sempre está em paz com seus inimigos (Provérbios 16.7). Também se devem evitar as aplicações eternas, como crer que sempre que haja um filho que zombe de seu pai deve desejar-se sua morte (Provérbios 30.17).

Por outro lado, antes de considerar o castigo corporal como uma “prática disciplinar” baseada nos poucos versículos de Provérbios onde se sugere sua aplicação, deveria se levar em conta a ampla instrução bíblica que propõe outros meios de disciplina positiva e assertiva, expostos no mesmo livro de Provérbios, como por exemplo: oferecer modelos consistentes de conduta; ensinar com respeito; dar instruções precisas e fáceis de compreender; prestar atenção tanto às condutas quanto às motivações, ou seja, tanto ao que foi feito como a por que foi feito; investir tempo e atenção de qualidade e saber que o objetivo da disciplina não é ter os filhos ou filhas sob controle, mas proporcionar-lhes habilidades para que tomem decisões sábias, autocontrolem-se e sejam responsáveis pelo seu próprio comportamento (Provérbios 22.6). A estes ensinos se somam dezenas mais que se encontram tanto no Antigo como no Novo Testamento — formas criativas que nos ensinam como combinar a firmeza com a dignidade, o respeito com o carinho.

A disciplina e a correção são necessárias, como não?!, mas isto não é o mesmo que dizer que ela deve ser punitiva, humilhante ou agressiva. O castigo corporal só funciona no sentido de que detém a conduta problemática no momento (em alguns casos é de efeito imediato), mas não resolve essa conduta no longo prazo. Pelo contrário, gera resistência, desejos de revanche, rebeldia e possíveis retraimentos, entre outras consequências destacadas por médicos, educadores e psicólogos.

O modelo educativo de Deus-Pai é, por excelência, a misericórdia e a paciência. Ele é “Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade” (Êxodo 34.6). O exemplo formativo do Deus-Filho é a instrução por meio do exemplo de sua própria vida e por sua presença amistosa e corretiva: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz”. (João 13.15). O paradigma pedagógico de Deus-Espírito é a confiança, o conselho e o consolo: “O Espírito do Senhor repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que dá conhecimento e temor do Senhor.” (Isaías 11.2).

O Deus trino é educador por excelência, formador de vidas e moldador de consciências. Não falta firmeza ao seu amor, nem sensibilidade ao seu caráter. Ele, que é o Senhor da vida, não poderia ser o nosso modelo de educador positivo? Creio que sim. É uma questão de escolher entre o Deus compassivo e misericordioso, que nos convida a formar com amor, em vez de insistir no rosto severo do Deus castigador que impõe suas regras com sua vara de ira. É uma questão de escolher o Deus que Jesus nos revelou: “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14. 9). É uma questão de seguir Jesus e imitar seus passos, vivendo de acordo com os valores do Reino: justiça, paz e alegria (Romanos 14.17).
_______________________________
Notas

(1) Todas as citações bíblicas foram tomadas da Nova Versão Internacional (NVI), Sociedade Bíblica Internacional.
(2) RHEMA, Ministerios, La disciplina para los hijos, In: http://www.1572-8.com/aa-company/iglesias/rhema/nuevo-rhema/semanario/30%20la%20disciplina%20para%20los%20hijos.pdf. Visitado em 22/07/2008
(3) Gilberto Gorgulho e Ana Flor Anderson, Provérbios, In: William R. Farmer (Org.), Comentario Bílico Internacional, Verbo Divino, Navarra, 2000.
(4) Provérbios é uma coleção de coleções de máximas, comparações, provérbios e alegorias que alcançou sua forma atual no final do século V a.C. Cf. J. Terence Forestell, In: Comentario bíblico San Jerónimo, Tomo II, Ediciones Cristiandad, Madrid, 1971, p. 410.
(5) A respeito, diz Edesio Sánchez C: «Provérbios reconhece a possibilidade de castigo corporal para o filho mau… (Pv.30.17). Provérbios também oferece sentenças e advertências para os pais (Pv. 19.18; 22.6) e descreve o pai insensato (Pv 13.24; 29.15)”, In Deuteronômio, Comentario Bíblico Iberoamericano, Ediciones Kairos, Buenos Aires, p. 345.
(6) Edesio Sánchez C., Op. Cit., p. 344.
(7) José M. Martínez, Hermenéutica bíblica, Editorial Clie, Terrasa, 1984, p. 346.

Harold Segura

Harold Segura

Teólogo, escritor e coordenador de Compromisso Cristão da Visão Mundial para a América Latina e Caribe. Foi um dos oito observadores não católicos na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Aparecida, SP, em 2007. É colombiano mas mora há alguns anos em San José, Costa Rica. É autor de No Caminho com Jesus (Novos Diálogos, 2012) e um dos organizadores de Para falar de criança: Teologia, Bíblia e pastoral para a infância (Novos Diálogos, 2012).
Harold Segura