Capitalcentrismo e antropocentrismo: a novidade de Alegria do Evangelho (Parte III)

19 de abril de 2014
Aprenda a atrair dinheiro

No artigo anterior eu apresentei a tese de que o mundo moderno ocidental criou uma nova noção de religião reduzida à esfera privada da vida e voltada somente a discussão sobre o sentido último da existência e a salvação eterna da alma após-morte. Na construção dessa noção de religião (que não existia na Europa Medieval e nem em outras partes do mundo antes da influência do Ocidente), há um “irmão siamês”, a noção do secular: o campo religioso se entende a partir da oposição ao campo secular, o mundo da esfera pública “liberto” da submissão à religião.

Quando o papa Francisco, no “Alegria do Evangelho”, critica a confiança ingênua na bondade “dos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante” (n. 54), ele não aceita a modernidade como secularizada, isto é sem fundamentos sagrados. Pelo contrário, ele afirma que o mercado, que é fruto das interações humanas e sociais, foi sacralizado e em nome dessa sacralidade se tornou inquestionável e o critério de vida e morte sobre pessoas. Ser excluída do mercado significa ser abandonada à morte. O mercado não mata diretamente, como o Estado totalitário, mas não permite que essas pessoas possam viver. Para piorar, a insensibilidade da sociedade frente aos sofrimentos delas.

Diante da crise econômico-social e da insensibilidade social, o papa afirma que por detrás disso “há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos.” ( n.55). Assim, o papa reivindica a primazia do ser humano frente aos ídolos, como o fetiche do dinheiro. Essa expressão “primazia do ser humano” pode chocar ouvidos de muitos acostumados com a crítica ao antropocentrismo do mundo moderno. Já há uma vasta literatura, também no campo da teologia, afirmando que a crise ecológica que vivemos resulta do antropocentrismo e que para superar essa crise é preciso, em primeiro lugar, lutar contra o antropocentrismo. E agora o papa vem proclamar a primazia do ser humano? Não seria isso voltar as costas a toda reflexão ecológica acumulada nas últimas décadas e voltar à tentação cristã do antropocentrismo, que para alguns é a causa original da crise ecológica?

Por detrás dessa discussão está, de novo, a pergunta de como compreendemos a modernidade, em especial a modernidade capitalista. Na discussão sobre a crise social, não há muita discordância sobre o papel do capitalismo neoliberal; assim como na discussão ecológica, sobre o papel da voracidade destrutiva do capitalismo na sua ânsia de acumular cada vez mais. Então a pergunta: É capitalismo um sistema antropocêntrico?

Se estudarmos a histórica do mundo moderno, a partir das grandes “descobertas” do século XVI e o surgimento do capitalismo, não há como negar que esse sistema sacrificou centenas de milhões de pessoas – especialmente na América, África e Ásia, mas também na Europa onde padeceram milhões de camponeses/as e operários/as explorados/as e condenados/as à fome. Esses sacrifícios, mortes, foram realizados para atingir qual objetivo?

Tudo para saciar a fome da acumulação de mais capital! Capital que devora seres humanos para “autocrescer”. Os economistas capitalistas dizem que o capital cresce por valor e mérito próprio. Foi para desmascarar essa ideologia que Marx aprofundou a teoria do valor-trabalho e elaborou o seu conceito de “mais-valia” para mostrar que o capital não cresce por si, mas por extração da mais-valia. Ele chega a usar a imagem de Moloc (deus-ídolo criticado na Bíblia por exigir sacrifícios de vidas humanas, sangue) para falar do capital.

Capitalismo é capitalismo porque é centrado no Capital. Isto é, é “capitalcêntrico” e não antropocêntrico. Por outro lado, a filosofia moderna apresentou o pensamento do mundo moderno capitalista como antropocêntrico. É por aceitar a versão dos pensadores modernos que muitos dizem que a modernidade é antropocêntrica e que, para superar a civilização capitalista, devemos negar o antropocentrismo e assumir “cosmocentrismo”, ecocentrismo ou algo assim.

Essa é uma discussão longa, mas penso que o modo concreto como o capitalismo funciona é capitalcêntrico, mas no seu discurso filosófico e ideologia se apresenta como antropocêntrica. Só que o ser humano desse antropocentrismo é um ser “abstrato”, sem corpo e suas necessidades, nem relações sociais e nem é parte da natureza. O capitalismo devora seres humanos concretos, corporais, e se justifica com uma consciência de antropocentrismo abstrato e transcendental. Em outras palavras, mata seres humanos em nome do ser humano (abstrato e servidor do Capital). Assim como as religiões antigas justificavam as opressões sobre corpos concretos nesta vida em nome da salvação do ser humano abstrato, alma, na eternidade.

Para superar o capitalismo atual, que sacrifica vidas humanas em nome das leis do mercado sacralizado, é preciso lutar contra os “gêmeos” capitalcentrismo e antropocentrismo abstrato e afirmar a primazia do ser humano concreto – com seu corpo e relações sociais no meio ambiente – frente ao ídolo. (a continuar)

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung é Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993), com Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, com Nestor Míguez e Joerg Rieger, Para além do Espírito do Império: novas perspectivas em política e religião (Paulus, 2012).
Jung Mo Sung