Carta a Martin Luther King Jr.

20 de novembro de 2014
MLK-640

Caro pastor e mestre,

Embora passados 46 anos ainda lamentamos muito sua partida tão precoce, vítima exatamente daquilo que se tornou uma das maiores legendas de sua vida: a não-violência. E motivado por intolerância e ódio que eram as antíteses justapostas de sua vida e missão.

Bem que você poderia estar aqui desfrutando de seus 85 anos de vida, caminhando conosco em muitos outros enfrentamentos pacíficos por direitos sociais, culturais, difusos, enfim, por mais justiça para todos.

Aqueles que atentaram contra sua vida acharam que lhe matando, aniquilariam as lutas por direitos civis, justiça e paz. Ledo engano! Sua morte, que lamentamos sempre, levou a muitas conquistas e a outras plausíveis bandeiras também. Ainda assim, é verdade que muita gente lhe prefere a ativo em tantas militâncias por justiça, dignidade humana e pacifismo.

Seus sonhos por equidade, como ditos no grande discurso do Memorial Lincoln na Marcha de Washington em 1963 despertou consciências e levou a mobilizações por justiça em todo mundo, tanto de negros quanto de brancos, inclusive no Brasil.

Passado mais de um século da abolição jurídica da escravatura aqui no contexto brasileiro, existe ainda muita intolerância, discriminação, preconceito e mesmo escravidão, tanto econômica, religiosa, geográfica, educacional, profissional, salarial. E não só contra negros como também contra índios, bolivianos e outros pobres latino-americanos, contra chineses e outros asiáticos e também africanos. Sem falar na violência letal que dizima preferencialmente negros no Brasil – cerca de 70% do total – como apontaram, mais uma vez, dados recentemente divulgados. O que a polícia matou aqui só em 2013 equivale à mesma quantidade de mortos praticados pela polícia de seu país, só que num período de 30 anos. Um genocídio silencioso e continuado. Planejado?

O sistema de cotas criado em seu país e que deu certo foi muito tardiamente aplicado aqui, mas já mostra bons resultados, embora haja muita oposição e crítica feroz, muitas delas com discursos sofistas que dissimulam preconceito perverso. Certamente não é o melhor sistema, mas é o que é possível, e tem produzido resultados no diapasão da justiça. Esta é uma questão de direito, não de bondade, obviamente!

Permita-me alongar só um pouco mais esta missiva. Passados anos e décadas destas lutas e discussões étnicas por justiça e reconciliação existem ainda muitas denominações religiosas no Brasil, como ilustram bem grupos batistas, que somente mantém parcerias e, por isso mesmo, recebem aqui apenas pastores e missionários brancos, geralmente estadunidenses. Como se não houvesse tantos evangélicos negros nos Estados Unidos!

Em seu país as coisas também não andam muito bem. Seu sonho de que brancos e negros pudessem viver efetivamente juntos ocorreu em grande parte, sobretudo por conta da legislação que acabou com a segregação em escolas, bebedouros, banheiros, restaurantes etc. Porém, no ambiente particular das igrejas, onde o Estado não pode legislar, a separação se manteve e prevalece em grande parte. O que você disse há mais de 50 anos de que o dia e a hora mais segregados dos Estados Unidos é o domingo às 9 horas da manhã, quando as igrejas se reúnem para seus cultos, permanece – escandalosamente – até hoje. E tem recrudescido muitos problemas de violência contra negros, sobretudo em sua região, no Sul do país.

Aqui entre nós há alguns movimentos de luta e resistência, inclusive no contexto das igrejas, mas há ainda uma longa caminhada a ser percorrida para efetivação da justiça. Não quero mesmo incomodar seu sossego eterno, mas sabe que as cúpulas denominacionais aqui são majoritariamente brancas? Atualmente os presidentes dos batistas, dos metodistas, dos presbiterianos, dos congregacionais, dos luteranos, dos assembleianos, enfim, são todos da mesma pigmentação da pele dos antigos senhores da Casa-grande. E olha que temos uma igreja bastante negra e mestiça no Brasil. O nosso pentecostalismo, sobretudo, é grandemente negro e pardo, como dizemos aqui, mas nem entre estas cúpulas os negros têm muita chance. É verdade – justiça seja feita – que tem muitos brancos de consciência e alma negras, graças a Deus, que militam por justiça nestas questões. Como têm, também, infelizmente, negros de consciência e alma brancos, reféns da mentalidade colonial que assimilaram do senhorio desumanizador da escravidão. Estes últimos não se dão conta de que o preconceito e discriminação que sofreram e sofrem ainda eles reproduzem contra seus irmãos. São vítimas de um sistema iníquo que deformou suas consciências contra eles próprios.

Faço aqui estes deslocamentos entre “dominado” e “dominador” a partir destas questões de cor e consciência, numa perspectiva metodológica visando a conversão de todos ao caminho da reconciliação pelo viés da justiça e da paz, não para discriminar um grupo em detrimento de outro. Como bem disse D. Hélder Câmara no texto da Missa dos Quilombos “não queremos que escravos de hoje se tornem senhores de escravos amanhã”. Basta de divisão!

Caro Luther King, sua luta e de muitos de sua geração continua hoje como batalha pacífica nossa, alargada por outros desafios que temos atualmente. Como você, sonhamos e também lutamos, inspirados e motivados por Jesus e sua missão, na busca e construção de um mundo sem discriminação, sem segregação, sem injustiça, mas de equidade. Onde não haja qualquer tipo de classificação hierárquica, mas convivência fraterna e celebração da beleza e riqueza da diversidade. A fim de que não haja mais discriminação de judeu, grego ou palestino, de homem, mulher ou outro gênero, de homossexual, transexual ou hetero, de negro, amarelo ou branco, de senhor, servo ou semiescravo, mas que todos e todas sejam respeitados e tenham acesso aos mesmos direitos, sobretudo de plena humanidade, como fez Jesus. Afinal, é este o padrão exemplar do Reino, cujo Deus não faz acepção de pessoas, antes ama a justiça e executa o direito (cf. Dt 10.17; Sl 99.4).

Abraço fraterno,

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul, em Ciências Sociais (UFF), mestre em Sociologia (UERJ) e doutorando em Ciências Sociais (UERJ). É pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), integra o Grupo Gestor da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e é coordenador do núcleo do Rio de Janeiro da Fraternidade Teológica Latino Americana-Brasil. É editor-adjunto da revista Novos Diálogos.

Artigos de Clemir Fernandes (ver todos)

Clemir Fernandes

Artigos de Clemir Fernandes (ver todos)