Carta a Robinson Cavalcanti

20 de outubro de 2014
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Caro mestre,

Ia escrever ‘saúde e paz’, mas lembrei que esta saudação já não faz sentido. Porque onde você está agora, a plenitude de vida é total e sem variação. Pelo menos é o que aprendemos aqui.

Bem, continuamos inconformados com a maneira desconcertante como você foi tirado de nós e de você mesmo, muito antes do razoavelmente natural. A vida segue e a gente vai fazendo o que pode, mas sua ausência – me permita dizer o óbvio redundante – faz muita falta. Imagino o quanto você teria para dizer e a qualidade da análise que poderia fazer sobre este período em que vivemos hoje em nosso país!

Desejo tratar nesta primeira missiva de um assunto caro para você, eu sei, mas sem querer jamais perturbá-lo em seu descanso celestial. Peço desculpas, desde já, por qualquer incômodo, mas sei que você vai entender, afinal, não tenho pessoa melhor para falar destas coisas. Diz respeito ao atual contexto brasileiro, especialmente à eleição presidencial.

Primeiro, que o pessoal aqui está bem nervoso, bastante dividido e, por conta disso, a razão tem sido um produto raro. Mentira, difamação e ilação, viraram coisas cotidianas ditas sem qualquer desfaçatez. Muitos de nosso chamado povo evangélico que se afirmam comprometidos com a verdade, tem revelado comportamentos chocantes como se fossem  filhos legítimos do pai da mentira. Muito estranho…

Outra coisa, diz respeito a nosso povo mais militante, historicamente comprometido com as causas justas do evangelho como a luta com os mais pobres, conforme você conhece bem. Não quero chatear você… Por favor, não se irrite, mas, sabe que tem gente da Aliança Bíblica Universitária apoiando e trabalhando pelo candidato da direita?!

Imagino o susto que você tomou, claro, mas no contexto da Aliança Evangélica não é diferente! Alguns irmãos agindo com muito ardor na mesma direção – sempre à direita! Porém, não são apenas segmentos da ABU e da ACEB que caíram neste engodo, mas até mesmo – pasme – da FTL!

Ok. Sei que agora foi um baque maior, mas dou um tempo para você se refazer e se acalmar. Desculpa, novamente, achei que nada mesmo pudesse alterar seu humor celestial…

Pois bem, se estes nossos irmãos votassem nulo, ainda vá lá, seria compreensível, mas se endireitarem – e sem constrangimento – pro lado do rapaz que é apoiado, com paixão, pelo grande empresariado, os maiores grupos de comunicação e o capital internacional, é mesmo assustador. Como se pode conceber uma coisa dessas?! Sei que você também está questionando, com razão.

E nosso compromisso histórico – especialmente a partir da militância destas entidades acima citadas – com a ética social dos profetas e, sobretudo, de Jesus de Nazaré, que sempre foi a nossa identidade?! Rasgamos isso?! Desculpa caro Robinson, este desabafo, embora saiba que você compartilha do mesmo, no entanto não pode mais atuar conosco aqui. Estimulando-nos, porém, como sempre fez, a perseverarmos lutando aqui.

Sim, alguns estão inquietos, desesperançados, outros não percebem bem a complexidade da disputa eleitoral, seus atores, o que está em jogo. Muitos ficaram reféns do massacre midiático que só fala de corrupção, acusando diuturnamente o governo. A moda agora, veja você, é ganhar prêmio por delação, mesmo sem prova. Um humorista disse até que se ganhar uma viagem para Paris pode construir qualquer delação… O ambiente está louco mesmo. Sem falar que, com todos os pecados do atual governo – que merece críticas, inclusive proféticas – é o que mais enfrentou e tem punido por meio das instituições do Estado de Direito, práticas contrárias à lisura republicana e democrática.

Quanto às ações deste governo produtoras de justiça – como elevado desenvolvimento social humano – próprias da ética social bíblica que é tão cara a você e a nós, são tantas e diversas, que nos motivam, com superlativo, a dar graças a Deus. Embora haja ainda muitos desafios por enfrentar, cremos que estamos na direção certa, que só pende, obviamente, para a esquerda. Mas muita gente não quer ver. Seria tão bom que você estivesse aqui… Sua capacidade de explicação e de elucidação é imbatível. Sem falar de sua sedução intelectual, política, ética, em suma, evangélica.

Bem, não querendo mais estragar seu repouso eterno, vou me despedindo. Aqui ficamos, resistindo com fé teimosa, amor inclusivo e esperança ética, lutando aquela luta de sempre a qual você tão ousadamente se dedicou: “Que a justiça divina corra como um ribeiro em nossa terra” (cf. Am 5.24). Mas, por favor, fique tranquilo, pois creio que a maioria dos irmãos das lutas evangélicas de sempre, inclusive dessas entidades às quais você dedicou parte de sua vida, continuamos afinados, inclusive eleitoralmente.

De minha parte, abraço fraterno e terno. E eterno, completaria você, certamente.

Até outro dia, e espero, com assuntos mais leves, como a vitória de um projeto de desenvolvimento nacional a partir da prioridade das camadas mais pobres, com justiça e paz, como foi sempre a luta evangélica de Jesus de Nazaré..

Com saudade,

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul, em Ciências Sociais (UFF), mestre em Sociologia (UERJ) e doutorando em Ciências Sociais (UERJ). É pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), integra o Grupo Gestor da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e é coordenador do núcleo do Rio de Janeiro da Fraternidade Teológica Latino Americana-Brasil. É editor-adjunto da revista Novos Diálogos.

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