Cego (mas não mudo) em Gaza

30 de novembro de 2014
Occupation_640

“Ativismo, bolsa de estudos, divulgação de informações, persuasão, protesto e solidariedade são as armas mais poderosas que possuem as pessoas impotentes. Vamos usá-las com sabedoria.”

Estas palavras — que fornecem a blogueiros um objetivo digno que não o mero narcisismo — saídas da pena de Ilan Pappé, um dos mais corajosos e controversos intelectuais ativistas de Israel (1). Pappé é parte de um grupo de historiadores revisionistas que, desde o lançamento de documentos governamentais britânicos e israelenses pertinentes no início dos anos 1980, tem re-escrito a história da criação de Israel em 1948 e enfrentado a narrativa dominante da sociedade israelense.

Segundo ele, Israel é a vítima inocente engajada em uma luta contínua pela sobrevivência contra forças irracionais sombrias lançadas contra ela por todos os lados. Este mito é engolido por atacado por muitos em Israel, bem como pelos que o apoiam no mundo todo. Pappé argumenta que para entender a situação atual dos palestinos devemos voltar a 1948, mesmo a 1882, não 1967. O Estado de Israel tem, desde o seu início, sido expansionista e colonialista. A expulsão dos palestinos de suas cidades e aldeias bem no início da criação de Israel constituiu a “limpeza étnica” da Palestina, em conformidade com o Plano Dalet, elaborado em 1947 pelos futuros líderes de Israel. Além disso, a ideologia sionista que produziu a limpeza étnica de 1948 é a que mantém os refugiados em seus acampamentos até hoje, discrimina os palestinos dentro de Israel, e oprime aqueles sob ocupação na Cisjordânia e aprisionamento na Faixa de Gaza.

Podemos questionar, como os estudiosos fazem regularmente, sobre as raízes históricas do conflito e se “limpeza étnica dos palestinos” é a descrição mais apropriada; mas o que não podemos fazer é negar que a realidade presente é inaceitável. O que vemos no “Grande Israel” é um Estado soberano governando diretamente seus próprios cidadãos e, ao mesmo tempo, governando indiretamente (através de seus procuradores) uma comunidade ocupada e presa em Gaza e na Cisjordânia. Este é o status quo que o governo de Israel quer manter. Cada ato de violência por parte do Hamas ou por palestinos não representativos (como no horrível ataque recente de dois homens armados de machados em uma sinagoga judaica) é explorado pela propaganda do governo para estereotipar e caricaturizar todos os palestinos, e para endurecer o estrangulamento de Gaza e Cisjordânia, esmagando as aspirações palestinas do fim da despossessão e conquista de 66 anos.

Os meios de comunicação ocidentais dominantes não são apenas altamente seletivos, mas inconstantes, quando se trata de relatar sobre o Oriente Médio. A guerra de 50 dias em Gaza neste verão foi rapidamente esquecida, uma guerra em que Israel matou 2.200 palestinos, incluindo mais de 500 crianças. Grupos de paz e de direitos humanos corajosos dentro de Israel (B’Tselem e Break the Silence) estão investigando independentemente o que aconteceu em Gaza, já que a investigação oficial do exército será um acobertamento dos fatos.

Enquanto o ataque à sinagoga judaica foi notícia de primeira página em muitos canais de TV e jornais ocidentais, a matança e mutilação rotineiras de civis palestinos pelas forças israelenses e por colonos é ignorada na cobertura dominante. Desde 2000, palestinos foram mortos cerca de 9 vezes mais que israelenses. Cerca de 20 vezes mais crianças palestinas foram mortas que as crianças israelenses, e cerca de 7 vezes mais palestinos foram feridos. Para conhecer esses fatos eu tenho de me embrenhar por sites de mídia independentes, como a Al-Jazeera, Counterpunch e Znet. Ou consultar os meus colegas na Palestina.

Um relatório do International Crisis Group, lançado em julho, defende que o governo da Autoridade Palestina-Hamas formado em abril 2014 seja reintegrado e ativamente apoiado pelo Ocidente, bem como pelos principais Estados árabes (2). Observe-se que em assinar este acordo na última primavera, o Hamas concordou explicitamente a renunciar à violência e aceitou implicitamente a estratégia de negociações de paz dos moderados. Netanyahu viu o acordo de unidade como uma ameaça e, portanto, lançou seu ataque total contra ativistas do Hamas na Cisjordânia, o que rapidamente levou à guerra.

Regimes despóticos e monoétnicos (3) em muitos países (como o meu) olham para o exemplo de Israel de como lidar com as suas próprias minorias étnicas e religiosas intransigentes. Confiscar terras, re-assentá-las com membros da comunidade majoritária, protegê-los por meio do envio de exército de ocupação, rotular todos os ataques contra os novos colonos como “terroristas” ou atos “extremistas” e usá-los para justificar novos atos de repressão.

As recentes decisões do governo sueco e do parlamento britânico de reconhecer um Estado palestino (a Assembleia Geral da ONU já reconheceu a Palestina) são em grande parte gestos simbólicos. Eles são bem-vindos como expressões de solidariedade com o sofrimento dos palestinos. Mas, na prática, valem pouco. Apesar de insistir que todo mundo reconhece o “direito à existência” de Israel, Israel nunca irá reconhecer o “direito de retorno” dos palestinos, e muito menos o seu direito de libertação e autodeterminação. Programas de desenvolvimento e assentamento de Israel nos territórios ocupados — todos ilegais, como Israel foi informado em 1967 por suas mais altas autoridades judiciais e declarado recentemente pela Corte Internacional — são projetados para sabotar a possibilidade de um Estado palestino viável.

Enquanto é protegido por seu rico e benevolente Tio Sam, Israel pode continuar a empinar seu nariz ao direito internacional e à comunidade internacional (4).

É por isso que, apesar do consenso internacional sobre uma “solução de dois Estados”, vários intelectuais e ativistas árabes e judeus têm defendido (ao longo de várias décadas) um caminho alternativo a seguir: ou seja, exercer pressão sobre Israel para se tornar uma democracia pluralista de pleno direito (ou binacional) — que respeita os direitos humanos e liberdades civis de todos os cidadãos e atores, e que permite o reconhecimento mútuo das identidades culturais e religiosas coletivas. Existem grupos da sociedade civil dentro de Israel, bem como ONGs que trabalham entre os palestinos, que continuam a promover esta visão. Eles precisam de nossas bênçãos e nossas orações.

Notas
(1) Acesse https://www.youtube.com/watch?v=4lsmFS75ed4 para uma entrevista de Ilan Pappe ao programa BBC HardTalk.
(2) Middle East Briefing no. 39, disponível em http://www.crisisgroup.org.
(3) Nota do Tradutor: O termo monoétnico refere-se a sociedades constituídas por um só grupo étnico.
(4) Ver de Noam Chomsky, Fateful Triangle: The United States, Israel, and the Palestinians.

Vinoth Ramachandra

Vinoth Ramachandra

Dr. Vinoth Ramachandra nasceu no Sri Lanka. É doutor em Engenharia Nuclear pela Universidade de Londres. Foi Secretário Regional da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE) para o Sul da Ásia. É atualmente Secretário para Diálogo e Engajamento Social da CIEE em nível global. Participa há muitos anos do Movimento de Direitos Humanos do Sri Lanka, da Rede Miquéias e d'A Rocha (organização internacional de conservação ambiental). É autor de vários livros e ensaios, entre os quais A Falência dos Deuses (ABU Editora). Os textos postados na revista podem ser encontrados na sua versão original em inglês no bloghttp://vinothramachandra.wordpress.com/.

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