Como evangelização e ação social se separaram

11 de maio de 2016
evangelizacao e acao social

Jesus veio e transformou as pessoas em seus corações e em suas ações — sua evangelização e ação social estavam inter-relacionadas e eram inseparáveis. Mas por que vemos tão frequentemente uma ruptura entre teologia e prática, entre o sagrado e o secular, entre a piedade pessoal e a justiça sócio-ecológica na vida e ensino da Igreja hoje? Por que estas questões inseparáveis foram apartadas?

Há muito mais aspectos envolvidos do que podemos talvez considerar detalhadamente aqui, mas vou identificar os três principais aspectos que acredito dividiram o que nunca deveria ter sido separado.

1. Racionalismo iluminista

Embora tanto o pensamento judaico quanto o início do cristianismo na Palestina foram forjados em uma estrutura conceitual holística, oriental, a Igreja primitiva no Império Romano muito cedo teve de buscar seu jeito de ser dentro da matriz da filosofia grega. O dualismo platônico afirmava a superioridade da mente sobre a matéria, o que foi compreendido como meramente uma sombra de ideias puras. Séculos depois, o Iluminismo seguiu o exemplo, colocando valor exacerbado na razão e em suas capacidades abstratas. A “modernidade” santificou o conhecimento como o coração da existência e proclamou cientistas iluminados como os sacerdotes que guiariam a sociedade às melhores formas de vida. A religião ocidental dominante perdeu muitas vezes sua vocação na medida em que se sentiu refém desta ideologia secularizante e humanamente limitada.

No Ocidente, a teologia tornou-se não poucas vezes fossilizada em um conjunto de construtos filosóficos, doutrinas estéreis e verdades proposicionais mantidas por pessoas eruditas e servidas em uma forma pré-embalada para o resto das pessoas. Teólogos ocidentais construíram frequentemente formulações sistemáticas que tinham pouca relevância para o dia a dia da vida da igreja e do mundo.

2. A aliança do cristianismo com o poder

O cristianismo esteve muitas vezes casado com o poder de plantão, seja o “Sacro” Império Romano, o governo da realeza católica na Espanha, o Império Britânico “civilizado”, a expansão americana “democratizante”, ou governos “cristãos” no Terceiro Mundo. Estas lealdades acríticas silenciaram a capacidade profética da Igreja e levaram à privatização da fé. Restringiram-a a questões intraeclesiásticas e “religiosas”, a ritos, deixando o restante da vida, as esferas do público, do social, do político e do econômico intocadas pelos valores éticos cristãos.

3. A Grande Reversão

Este é um fenômeno que vou explicar considerando seu impacto na América Latina. No século dezenove, os precursores da atual presença protestante/evangélica na América Latina, muitos deles na verdade escoceses e ingleses, exemplificaram uma missiologia integrada que trazia no mesmo pacote a promoção da Bíblia, a tradução da Bíblia e o ensino da Bíblia com a educação pública e o envolvimento na esfera pública.

Entretanto, no início do século vinte, precisamente no momento da maior expansão missionária do Ocidente para o resto do mundo, os evangélicos americanos “tiraram férias da história”, de acordo com Bryant Myers. Embora durante os séculos anteriores os cristãos tivessem liderado movimentos sociais em favor dos pobres e contra os abusos do poder, tais como a instituição da escravidão, este século viu o que Moberg chama de “A grande reversão”. Em reação ao que eles consideraram como traição da fé ao pensamento moderno e uma redução do evangelho a questões sociais, os evangélicos no Norte buscaram refúgio nos “fundamentos” da fé e adotaram uma posição reacionária.

Para muitos, o foco se tornou salvar almas de uma sociedade depravada e sem Deus, e esperar a vinda escatológica. Foi precisamente este tipo de dualismo ocidental, socialmente desengajado e um cristianismo que olha apenas para o outro mundo que se espalhou com força ao redor do mundo, e especialmente na América Latina, o “quintal” do poderoso Estados Unidos.

Felizmente as coisas não terminaram aí, e houve seguidores de Jesus na América Latina e em outras partes que estavam buscando viver uma “missão integral”, e nutrir uma fé que influencia a totalidade da vida.
Jesus disse aos seus seguidores que ele tinha vindo para levá-los plenitude de vida: “eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (Jo 10.10). Eu e você somos chamados a compartilhar a mensagem de Cristo com outros em palavra e obras, oferecendo-lhes plenitude de vida aqui na terra e no porvir.

Publicado originalmente em http://www.premierchristianity.com/Blog/How-evangelism-and-social-action-got-separated, acessado em 09/05/2016.
[Tradução: Flávio Conrado]

Ruth Padilla Deborst

Ruth Padilla Deborst

Ruth Padilla estudou Educação na Argentina e mestrado em Estudos Interdisciplinares no Wheaton College. Trabalhou com a Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos no Equador, com Semillas de Nueva Creación, organização que promove e capacita em Missão Integral, em El Salvador, e com a Missão da Igreja Cristã Reformada na formação teológica para a missão integral em vários países latino-americanos. Foi Secretária Geral da Fraternidade Teológica Latino-Americana e Diretora de Formação Cristã e Desenvolvimento de Liderança na Visão Mundial Internaciona. Atualmente serve como coordenadora da equipe de gestão de INFEMIT e como diretora do Centro de Estudos Teológicos Interdisciplinares. Vive na Costa Rica com seu esposo, James Padilla DeBorst, quatro filhas e dois filhos numa família multicultural.

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