Democracia em perigo?

18 de novembro de 2014
Brazil_comunista

Não me esqueço do susto que levei ao entrar no escritório de um tradutor brasileiro-canadense em Montreal para fazer aquelas traduções juramentadas chatas para as necessidades cotidianas e burocráticas de estrangeiro. Uma bandeira da antiga URSS figurava em sua escrivaninha e sua pequena biblioteca estava cheia de livros antigos sobre o comunismo e de teóricos marxistas. O susto se deveu por encontrar alguém que nutria um tipo de saudosismo pela ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em pleno século 21. Tudo bem, ele tinha lá seus 60 anos e foi um comprometido militante comunista. Mas tenho que confessar meu estranhamento.

Estranhamento que continuou ao saber que ele dirigia uma espécie de organização chamada Reconstrução Comunista do Canadá, uma espécie de plataforma para recriar as bases de unidade partidária e organizativa entre os comunistas no país do hockey, e que cultivava uma versão ortodoxa do marxismo, com bases teóricas em Marx, Engels, Lênin e Stalin.

Esse estranhamento me ocorreu novamente nessas eleições presidenciais ao, no calor do debate do primeiro e segundo turnos, ouvir gente dizer que o comunismo rondava o Brasil, e que caso o Partido dos Trabalhadores continuasse no poder, já aparelhado pelas hostes vermelhas, se implantaria aceleradamente um tipo de república bolivariana (cunhou-se até o neologismo “venezuelização”) ou de ditadura cubana. Inconformados com a vitória da candidatura petista, certos setores da sociedade estrebucham neste pós-eleição pedindo socorro às forças armadas brasileiras (um novo golpe militar), impeachment ao Congresso Nacional e até algum tipo de intervenção estadunidense para deter a tal “expansão bolivariana comunista no Brasil promovida pelo governo de Dilma Rousseff” (1).

O mais estranho mesmo foi ver o retorno dessa retórica com sabor de guerra fria na boca e na pena de lideranças evangélicas.

Minha hipótese é de que essa retórica tenha escapado nas recentes eleições presidenciais e neste pós-eleição porque nunca se foram completamente do imaginário evangélico. Um indício desta permanência pode ser a quase ausência de reflexão por partes das igrejas evangélicas a respeito de um momento de grande importância para a história recente do país. É amplamente conhecido por relatos orais e pesquisas acadêmicas que as igrejas foram apoiadoras de primeira hora da ditadura civil militar no Brasil (2).

Neste 2014 rememorou-se os 50 anos do Golpe Civil-Militar no Brasil e não há registro, salvo raríssimas exceções, de uma verdadeira confissão e pedido de perdão à nação brasileira por parte das igrejas evangélicas que foram cúmplices ou omissas com aquele fatídico acontecimento. No Chile, por exemplo, muitas igrejas evangélicas já vieram à público refletir e confessar o apoio ao golpe de estado naquele país e à ditadura de Pinochet por 17 anos como um erro político, teológico e ideológico.

Acaba de ser celebrado os 25 anos da Queda do Muro de Berlim, fato acontecido em 09 de novembro de 1989, marcando o fim da Guerra Fria e a reunificação da Europa. Por ocasião da inauguração da Mostra de Filmes A VIRADA – 25 Anos da Queda do Muro de Berlim (3), do Instituto Goethe de Brasília, Sabine Plattner, organizadora da Mostra, para marcar a efeméride testemunhou emocionada:

“Como alguém que cresceu sem democracia, aprendi a dar valor especial a ela e julgo que é importante fazer o que for necessário para evitar qualquer tentativa de miná-la, seja na Alemanha, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo”.

Eu pensava com os meus botões: será que os evangélicos e suas lideranças perderão mais uma vez a oportunidade de compreender os rumos que o país está tomando e sucumbirão novamente às tendências reacionárias que os colocam como massa de manobra daqueles que preferem o autoritarismo e a violência aos direitos humanos, à democracia e o ao estado de direito? Será que a defesa de um modelo ditatorial revela e busca legitimação na maneira como muitas lideranças conduzem suas igrejas e denominações?

Notas
(1) Nem Obama, que está acostumado a ser chamado de comunista pelos ultraconservadores republicanos doTea Party, nem o Congresso Americano, cuja maioria é republicana, deram obviamente qualquer atenção, embora a mídia tupiniquim não tenha resistido.
(2) O Grupo de Trabalho Papel das Igrejas durante a Ditadura da Comissão Nacional da Verdade deverá trazer uma sistematização da participação institucional das igrejas e de lideranças e membros de igrejas evangélicas no Golpe Civil-Militar nas décadas de 1960 e 1970.
(3) Ver http://www.goethe.de/ins/br/brs/ver/pt13508410v.htm

Flávio Conrado

Flávio Conrado

Flávio Conrado é editor da Novos Diálogos. Tem formação em Antropologia, com pós-doutorado pela Universidade de Montreal (Canadá). Mora em Brasília.
Flávio Conrado