Dona, por favor!

16 de fevereiro de 2014
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Ei, você. Você aí me olhando com essa cara de quem vai me pedir dinheiro, nem ouse chegar perto, que é fim do mês e eu não tenho o dinheiro que você quer. A vida não está fácil pra ninguém e eu trabalho duro, sabia? Trabalho duro e o transporte está caro. Comida, então, nem se fala! Você por um acaso sabe quanto está o prato no boteco da esquina onde meu salário consegue pagar o almoço? E agora, então, que o IPTU vai subir, não quero nem ver. Preciso juntar centavo por centavo. Preciso juntar todos os centavos que puder se eu quiser ter casa, comida e transporte público pra continuar trabalhando. Por isso, nem ouse atravessar a rua pra vir me pedir dinheiro, com esses seus olhos semigrudados de tão sujos e cabelos desgrenhados de quem acabou de acordar, de quem não sabe o que é trabalhar duro. Pedir dinheiro em pontos de ônibus não deve dar trabalho. Aposto que, por dia, você ganha mais que eu se fazendo de pobrezinha. E criança faz o quê com tanto dinheiro? Gasta tudo em cola de sapateiro. Pensa que eu não sei que é isso que vocês fazem? Pegam o dinheiro de gente trabalhadora, trabalhadora assim, como eu, e gastam com cola, crack. Eu vejo tudo na TV. Acha que eu não sei de onde vem tanta magreza em uma menina só? Mas como você é ousada, vai atravessar esta rua e me pedir dinheiro! Essas suas perninhas de saracura empoeiradas e arranhadas andam bastante rápido. Pezinhos imundos e calejados de esperteza. Aposto que já perambularam bastante por aí extorquindo dinheiro de gente honesta e trabalhadora e também correndo da polícia, que eu sei bem que nenhum de vocês aí, de rua, presta. Veja só: uma criança normal da sua idade estaria tremendo de frio com esses seus trapos, mas você não. Vem correndo, determinada, com os olhos fixos em mim. Pele grossa, queimada e ressecada, não tem frio que chegue perto. Eu, com minhas meias calças, devo estar com mais frio que você. Vai me dizer que o dinheiro é pra comer. Sempre dizem isso, que é pra comer.

— Dona, cê tem três e cinquenta?

Três e cinquenta?! Onde já se viu? Mas será que não existe nenhum velho Fagin pra ensinar a este protótipo de Oliver Twist feminino um pouco de astúcia? Se quer pedir esmola, tem que pedir direito, pedir qualquer coisa e não “três e cinquenta”. Tem que saber conquistar o público. Mostrar que aceita qualquer coisa. Como se tivesse o direito de me determinar quanto eu devo dar de esmola. Mas é muita petulância pra pouco corpo.

— Dona, dona. Me dá três e cinquenta, dona.

Não vou dar dinheiro porque não se deve dar esmolas, essa é a questão. Eu li numa propaganda da Assistência Social da Prefeitura. Se a Assistência Social que é a Assistência Social fala pra não dar, não sou eu que vou desobedecer. Essa menina foi muito mal acostumada, de certo. Deve ficar assim por aí, insistindo e insistindo, com essa cara de dó, e as pessoas acabam dando o dinheiro pra aliviar a consciência, vai que ela está mesmo precisando. É por isso que essa gente não sai dessa vida. Porque os outros incentivam e sustentam toda essa vagabundagem.

— Dona, por favor. Três e cinquenta.

Mas que diabos de três e cinquenta! Não vou dar três e cinquenta. Meu dinheiro vai acabar desse jeito. É fim de mês. Fim de mês. Se fosse logo dia primeiro, eu até pensava. Mas agora não dá. E esse ônibus que não chega!

— Dona?

Vou dar cinco centavos pra ela aprender que é assim. Que as pessoas já fazem um enorme favor dando qualquer coisa. Já aproveito e dou logo uma lição: a gente não tem tudo que quer na vida, na hora em que pede. Três e cinquenta! Era só o que me faltava. Coloco a mão no bolso buscando aquelas moedinhas chatas de cinco ou dez centavos que só servem mesmo pra atrapalhar a vida, caindo quando a gente vai pegar o celular. Mas as benditas não estão lá. Acabo tirando uma nota de cinco reais na procura, que trato de esconder rapidamente.

— Olha, me desculpa, menina, mas eu não tenho dinheiro.

— Mas, dona, é só três e cinquenta.

Você viu a nota de cinco, não foi? Tenho certeza que viu! Vocês são muito vivos. Mas esmola não se dá com notas, se dá com moedas. E moedas pequenas. As de vinte e cinco e cinquenta a gente usa pra comprar café com pão na chapa, pagar o ônibus quando se esquece do passe. As de cinco e dez são pra esmola. Aliás, devem servir só pra isso. Pra gente se desfazer de quem fica atrás da gente pedindo dinheiro na rua.

— Mas por que três e cinquenta, afinal?

— Pra comprar um salgado e um suco ali na padaria, ó.

Um salgado e um suco. Exigente, então.

— Escuta, eu sinto muito, mas estou sem moedas pra te ajudar.

— Mas você tem uma nota de cinco no bolso, que eu vi, dona.

— Mas esses cinco reais são tudo que eu tenho. Tudo! Não tenho mais nada. Não posso te dar. É fim de mês. Se eu te der, vou ficar sem nada.

É claro que eu ainda tenho mais alguns trocados na carteira – são poucos, é verdade – e tem também o passe do ônibus. Mas eu não vou jogar cinco reais, assim, fora. Não vou dar meu dinheiro pra quem não fez por merecer. Que vá pedir pra outro. Meus cinco reais não. É fim de mês e a Assistência Social não gosta.

— Mas, dona…

Pare de me olhar, pare de me olhar! É assim que você convence todos os outros? É assim que você tira da gente tudo que a gente tem no bolso? Fazendo essa cara e falando de comida? Já disse para não me olhar. E não olhe pra padaria também. Não olhe. Não pisque desse jeito nem morda os lábios assim, como se um salgado e um suco fossem tudo na vida. Não segure seus shorts deste jeito, na cintura, mostrando o quanto esses seus farrapos rasgados e com cheiro azedo são largos em você apesar de serem tão minúsculos que não dá nem pra gente chamar de roupa. Tá bom, tá bom, quer saber?

— Toma. Toma os cinco reais.

Sua cara insuportável de felicidade por meus cinco reais. Meu semblante de tristeza pelos meus cinco reais que agora são seus. A verdade é que não haverá de me fazer falta. Mas eram meus. E era muito dinheiro pra uma esmola só. Agora também já chega. Não dou dinheiro pra mais ninguém até o final do mês, nem pra Jesus Cristo se ele me aparecer aqui na frente agora em carne e osso, se não eu não dou conta. Se o transporte público fosse mais eficiente nesta cidade, eu não estaria aqui, parada, exposta a estas extorsões da mendicância, jogando fora minhas economias. Como se não bastasse o tanto de imposto que eu pago pro Governo, ainda sou obrigada a dar dinheiro pra esses ramelentozinhos insistentes da rua. Mas lá vem o ônibus! Antes tarde do que nunca. Seguro a bolsa bem forte, colada contra meu corpo, que é pra ninguém tentar me roubar (já basta terem me levado cinco reais!) enquanto enfrento o mundo de gente que tenta subir no coletivo. Sinto que me cutucam o braço e puxam a barra da minha camisa.

— Dona! Dona!

O quê, mas de novo ela? Já não me levou embora os cinco reais? O que ela pode estar pensando? Não nasci pra Madre Teresa, garota, solte minha camisa, vamos, solte.

— Moça. Aqui. Brigada. Um salgado e um suco. Três e cinquenta. Tá aqui seu troco, ó. Pra você não passar o fim de mês sem dinheiro.

Colocou em minhas mãos, que se abriram com pouca confiança, um real e cinquenta. Trocado em moedinhas de dez e cinco centavos. Virou as costas e sumiu com seu corpinho franzino no meio das pessoas que me empurravam pra subir no ônibus. Me pediu dinheiro e ainda esfregou na minha cara que quem precisava de esmola era eu.

Sara Tironi

Sara Tironi

Sara Tironi é mestra em Direito do Estado na Faculdade de Direito da USP. Cursou sua graduação em Direito na mesma Universidade, no campus de Ribeirão Preto, período em que participou da Aliança Bíblica Universitária do Brasil e iniciou seu envolvimento com a Rede FALE. Atualmente, pesquisa sobre políticas públicas e direitos da infância.
Sara Tironi