E criminalizaram o “rolezinho”…

19 de janeiro de 2014
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Não toleram as “patricinhas” e os “mauricinhos”, a riqueza alheia, a civilização mais educada. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização. (Rodrigo Constantino, em artigo na Veja online, em14/01/2014)

Não há como não escrever sobre isso, é verdade. Aqui registra-se que a única característica que pode realmente dar algo de original a este texto é ele ser publicado num espaço eletrônico evangélico. De resto, ele é mais uma reflexão, entre já tantas, que se debruçam sobre a polêmica do “rolezinho”. Chamo atenção para o fato de que, cada vez mais, a cada texto, reportagem ou análise jornalística que surge sobre isso, evidencia-se o aparentemente óbvio. Toda essa discussão diz muito menos sobre o “rolezinho” em si e muito mais sobre a sociedade que temos e mantemos.

Primeiro é a disputa da definição. Como nos ensina Lévinas, a tematização é a supressão ou posse do Outro. Então, a primeira exposição desta discussão gira em torno de quem tem o poder de decidir o que o “rolezinho” é e o que ele representa. Como a segunda Epístola de Pedro nos lembra, “porque de quem alguém é vencido, do tal também se faz servo”. Pois nesta primeira disputa, quem tiver a o poder de dominar o discurso público e a construção do imaginário coletivo sobre o “rolezinho”, será, de certa forma (ao menos para pautar e dar a direção das discussões), seu dono.

Segundo é que o “rolezinho” junta-se a alguns outros fenômenos sociais que, ao exporem as contradições e nível de tensão interna da sociedade brasileira, causa algo semelhante ao que Anthony Giddens trata como “desencaixe” (nas palavras de Giddens: o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço). Digo semelhante até pela insegurança de dizer que pode ser exatamente, mas parece claro que uma relação social sai de um contexto local específico (o shopping e o conflito que se estabelece lá), e se reestrutura na sociedade com extensões indefinidas (porque torna-se transversal na nossa desigualdade, nossos demônios internos de preconceito, medo, insegurança, normalidade e normatividade).

Sigo o rastro de Bauman: “o Estado moderno teve de enfrentar a tarefa desencorajadora de administrar o medo”. Mas acrescento que não é o medo de qualquer um ou de qualquer grupo social, é administrar o medo de uma parcela específica da sociedade, que, por sua vez, teme outra parcela específica da sociedade. Tradicionalmente, o Brasil é um país que se caracteriza pela negação dos seus dilemas, talvez esperando de alguma forma que os mesmos dilemas possam ir se diluindo, dispersando como a fumaça de um cogumelo de bomba atômica, que tem aquela aparência densa e assustadora, mas que gradativamente se desfaz. A sociedade brasileira insiste em negar a desigualdade, folclorizando a dimensão do nosso apartheid social; insiste em negar a total desumanidade do nosso sistema prisional, tratando como exagero de ativistas dos direitos humanos todas as denúncias de maus tratos, humilhações, violência, tortura e “preferência” por uma cor de pele específica como sendo uma “romantização do banditismo”; insiste em negar o racismo evidente no seu cotidiano e a necessidade de uma reparação histórica com um grupo tolhido de toda contemplação dos direitos sociais ao longo da nossa trajetória imperial-republicana; insiste em negar e invisibilizar seus pobres e miseráveis, seus moradores de rua, prostitutas e travestis, sustentando que todos poderiam trabalhar e dispensarem qualquer ajuda do governo, se realmente quisessem; insiste em negar a homofobia, sob a pecha de ser mania de perseguição e vitimização de gays e seus ativistas, que querem controlar a esfera pública. A sociedade brasileira nega suas violentas contradições, buscando afirmar o que quer acreditar que é.

Administrar o medo de uma classe sobre a outra, Bauman tem razão, é uma tarefa desencorajadora, mas não difícil. Como nos ensina Hannah Arendt, os homens não nascem, nem são criados, iguais. É a polis, diz Arendt, por meio do nomos (a norma, opinião, maneira de pensar), que faz surgir a ordem igualitária. Ou seja, a igualdade não é um dado, é uma construção. Se os desiguais causam medo, o medo deve legitimar a repressão, portanto a repressão é a metodologia para os desiguais.

Nessa discussão, o imaginário coletivo, sequestrado pelo reacionarismo, vai fundamentando sua afirmação conservadora substituindo a reflexão pela proximidade, ou seja, se estou com meu filho no shopping numa tarde de domingo e vejo o desespero dele com toda a confusão causada pela entrada de jovens “arruaceiros”, eu dispenso qualquer contextualização que envolva o outro na “genealogia da confusão”, pois se estava num lugar onde eu e meu filho deveríamos estar em paz e fui privado disso, a polícia, o sistema, o estado deve intervir a meu favor. A força da repressão (com a escolha baseada em cor, classe social, vestimenta, território, etc.), é um detalhe.

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco

Ronilso é de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Estuda Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio. É membro do Coletivo Nuvem Negra e congrega na Comunidade S8 Rio. Interlocutor social na ONG Viva Rio.
Ronilso Pacheco