Elas ressuscitarão!

5 de abril de 2015
a crianca crucificada_640

“Para guiar nossos passos no caminho da paz” (Lc 1.79)

A violência é o nosso pão de cada dia. Vivemos numa sociedade desigual que institucionalizou a violência sob a forma de tortura, homicídios, abuso sexual e psicológico, maus-tratos, discriminação e exclusão social que vitimizam milhões de crianças, adolescentes e jovens, os segmentos mais vulneráveis nessa luta pela sobrevivência. As estatísticas são chocantes (1). Mais chocantes ainda as dores de cada família e comunidade que testemunha essa violência.

Essa realidade violenta e letal, que nos ameaça e paralisa, requer reflexão profunda sobre a razão de a vida ter tão pouco valor entre nós. É comum recorrermos a soluções fáceis e de teor vingativo que não lida com as questões mais profundas de nossa psique social.

Foi por isso que durante o período da Quaresma (18 de fevereiro a 29 de março) a Visão Mundial promoveu o Jejum Solidário, anunciado como um convite à reflexão, conversão e mobilização em torno da superação da violência que assola nosso país, vitimizando crianças, adolescentes e jovens.

Porque necessitamos denunciar essa realidade e queremos que todas as pessoas, em especial nossas juventudes e as igrejas sejam agentes de mudança frente esta realidade; e porque o próprio Jesus nos ensinou que as crianças são centrais no seu Reino e necessitam ser protegidas é que convidamos quem nos acompanham nesta tarefa a que tivessem o texto do profeta Isaías (2) em mente e se atrevessem a converter:

– O individualismo em solidariedade
– A indiferença em compaixão
– O medo em esperança
– A passividade em ação

Mas já no final da Quaresma fomos surpreendidos por mais uma tentativa de se “assaltar” direitos e garantias fundamentais da infância e adolescência. Aparentemente entramos na Semana Santa com a expectativa de que a morte terá a última palavra.

É Magali Cunha, jornalista e pesquisadora metodista, quem nos ajuda a aprofundar essa questão. Diz ela:

“NÃO É MERA COINCIDÊNCIA QUE O SINAL VERDE PARA a votação da PEC da redução da maioridade penal tenha sido dado na Semana Santa e com o apoio de muitos religiosos… Jesus de Nazaré foi preso, torturado e recebeu a pena de morte com o apoio dos religiosos de sua época e silêncio dos amigos: um bode expiatório para acalmar o poder e as multidões ensandecidas por sangue. Hoje isto de alguma forma se repete no Brasil, em que políticos e as mídias precisam acalmar as multidões ensandecidas por sangue e por vingança, e elegem um bode expiatório: adolescentes envolvidos com o crime. Ao individualizar a mensagem da cruz, cristãos e cristãs suavizam a violência contida nela e o papel que foi dado a Jesus de Nazaré naquele processo e tornam-se cúmplices da violência nos nossos tempos” (3).

A maioria da população está cansada da sensação de insegurança e impunidade, obviamente respaldada em parte pela realidade, mas também agravada pelas seletivas e passionais informações advindas da maioria da mídia — sobretudo televisiva — e por interesses mesquinhos de certos deputados inescrupulosos, apostam suas “fichas” numa solução “deus ex machina“, como se o encarceramento nos livrasse dos fantasmas que nos assombram o cotidiano. Este é o amplo consenso do senso comum no Brasil contemporâneo. Outro, no entanto, é o consenso das pesquisas acadêmicas, estatísticas de criminalidade, do movimento da infância e adolescência no Brasil e no mundo inteiro, e das lideranças morais mais reconhecidas do nosso planeta: a saída não é colocar um adolescente numa prisão fétida, abarrotada de gente, aniquiladora da alma e da humanidade que ainda lhe resta (porque desfigurada por diferentes processos de desumanização).

O que deve estar no topo da nossa agenda ao tratarmos de criminalidade violenta e adolescência é onde estamos errando como sociedade para que uma parcela de rapazes e moças na adolescência abandonem a escola e perspectivas de futuro e trilhem caminhos tortuosos se dedicando à transgressão da lei.

O Brasil precisa de soluções reais e radicais (que vão à raiz dos problemas) para tratar o tema da violência e criminalidade, mas não acreditemos (especialmente quem segue a Jesus de Nazaré) que desistir de nossas juventudes será essa solução real e radical. Não será.

A crucificação de adolescentes no altar da sensação de segurança e da pretensa paz social não carrega a promessa de nos garantir mais justiça. Apenas o contínuo aprofundamento de políticas públicas que garantam o bem-estar de todas as crianças e adolescentes e do correto funcionamento do sistema socioeducativo nos assegurará a liberdade, que desata as amarras da injustiça e do jugo, e o amor restaurativo, que vence o desejo de vingança e o ódio. As crianças e adolescentes ressuscitarão na luta dos que acreditam que é nosso dever e responsabilidade não desistir da juventude brasileira!

Publicado originalmente em http://www.visaomundial.org.br/elas-ressucitarao

Notas
(1) Ver http://promenino.org.br/noticias/reportagens/pouco-denunciada-violencia-contra-criancas-e-adolescentes-e-enraizada-na-sociedade-brasileira
(2) “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? (Isaías 58:6-7)
(3) Ver https://www.facebook.com/magali.ncunha/posts/875510982507899:0

Flávio Conrado

Flávio Conrado

Flávio Conrado é editor da Novos Diálogos. Tem formação em Antropologia, com pós-doutorado pela Universidade de Montreal (Canadá). Mora em Brasília.
Flávio Conrado