Entrevista com um zumbi evangélico

6 de junho de 2016
Fabio-Zumbi-Evangelico

Às vezes me surpreendo com as mensagens que recebo na Internet. Não as de ódio, polarização, descontrole. Essas, com o passar dos anos, tornaram-se “normais”. Banalizaram-se. Por elas, parece que a Internet atrai tanto ódio que deve ser usada a conta-gotas, ou apenas, seletivamente. Porque absolutamente o ódio sobe à cabeça. Refiro-me à surpresa de um amigo, que foi aluno e que hoje é pastor de uma grande agremiação religiosa neopentecostal, me escrever pedindo um encontro “para falarmos de religião”. Celebrei o convite.

Afinal, como se sabe, amigos são amigos e negócios à parte. No encontro, amigos e famílias em comum dão o tom do início da conversa. Somos próximos, nos conhecemos desde a adolescência. Lembramos das famílias, nossos pais, mães, primos, primas e amigos em geral. Queria saber da igreja, questões e problemas. Ele, preocupado com minha pertença mais fluida no seguimento — o que me mantém vivo diante de tantos engodos. Está há quase uma década a frente de uma igreja neopentecostal que atende a alta classe média de Niterói e no Brasil.

Desde os apertos de mão, logo percebi algumas diferenças no seu rosto, no cabelo. Sim, porque me lembro de que entre o rosto e o pescoço tinha uma cicatriz de adolescência e o cabelo já estava desfalcado metade da testa. Já estava nos quarenta e muitos anos — vindo a sofrer o efeito dos hormônios. Tenho liberdade, pergunto pelos “truques”. Sem pestanejar diz que fez um procedimento, utilizando uma espécie de um tecido sintético para preencher na parte da cicatriz. Nos Estados Unidos fez outro procedimento de retirada de parte do tecido capilar, colocando-o na parte da frente, onde estava caindo. Falou também de algumas aplicações de botox que faz no rosto esporadicamente. Já tinha percebido um rosto um tanto andrógeno.

Repetiu: fez isso porque que seu público “pedia”. Logo, entramos no assunto dos filhos: ele tem duas lindas crianças e sabe que não sou agraciado. Falou algo que me chamou atenção. Algumas lideranças evangélicas do Sul dos Estados Unidos apoiavam uma espécie de manipulação genética. Para ele, esse era o futuro. Pois poderiam “produzir humanos melhores/mais aptos”. Escolhendo melhores genes, ou até, de acordo com a vontade dos pais a cor dos olhos, o cabelo e a possibilidade do comportamento dos filhos. Filhos efetivamente “escolhidos”/“eleitos” pelos pais. Diante das falas empolgadas, não me contive. Perguntei pelo sexo, porque estávamos falando de manipulação genética. Com empolgação o pastor me disse que as pessoas nem precisariam se preocupar com isso. A ideia é que os laboratórios fariam todos os procedimentos genéticos para reprodução. Explicou que assim seria extirpado o grande “pecado” da humanidade. Segundo, sexo/prazer só trazia problemas para o homem/mulher. Eu incomodado, principalmente pelo risco à sexualidade, manipulação genética e o conjunto das plásticas que fez, perguntei se tem mais pessoas partilhando desse conjunto de ações/processos. Disse que de seis em seis meses, ele e a liderança da igreja iam ao cinturão conservador no Sul dos Estados Unidos com “fome” de conhecimento de um líder-pensador.

Seguiam as indicações dadas nos encontros, traduzindo para o Brasil o que era indicado. Estava estarrecido com a conversa. Deixei seguir até o fim com as despedidas. Quando foi embora percebi que estava andando torto, capenga. Responde-me em alto som que retirou uma costela recentemente para ajudar no esporte e diminuir a barriga. Estou boquiaberto até hoje. Pensei mesmo que fosse brincadeira a conversa. Uma pegadinha.

Mesmo não sendo adepto das séries da TV americana de cenários apocalípticos de zumbis e vampiros, tornou-se impossível não se lembrar das recentes intervenções de Slavoj Žižek (2014) sobre o tema do cenário de aprofundamento do capitalismo. Lembrei-me dos zumbis quando o vi saindo manco e do rosto modificado, levando-me a questionar: esse sujeito não seria uma espécie de zumbi moderno? Um homem-zumbi-sintético? Ora, possui aparência artificial, cheio de cortes (milimetricamente disfarçados), intervenções, retocado com carnes em diferentes locais, todo remendado na busca da perfeição estética e, por isso, fez-se estranho. Zumbi evangélico alimentado prioritariamente como os primeiros zumbis televisionados, de cérebros, por isso, visita regularmente os Estados Unidos para receber ordens. Para dar sentido à existência. Enquanto isso mantém uma dieta provisória dos corpos e cérebros dos fieis, fartando-se semanalmente de suas necessidades.

Seu andar torto é fruto do processo de transformação que passa. Suas ideias seguem a lógica da liderança. Forma uma massa morta/viva, com pedaços humanos e outras sintéticas. Dizem nada com nada: repetindo ordens, ideias que lhes impõe. Balbuciam palavras, sigmas de ordens na busca de mais e mais pessoas/carnes para alimentar/contaminar seu estado. Mais parecem super-zumbis modernos, maquiados. Todo enfeitado sem nada por dentro. Enquanto o ouvia ia negando tudo o que dizia numa reza interna. Não gostaria que tamanha doença contaminasse pessoas. Até porque, diante dessa vida tétrica, medíocre, sexo é oásis. O gozo, o prazer é o que nos resta diante mesmo de tamanha superficialidade religiosa maquiada.

As falas do pastor-zumbi inspirado no cordão conservador americano têm a razão da lógica castradora de corpos de seu reformador preferido, João Calvino. Ele que quando no governo em Genebra legislou para os moradores não terem cortinas a fim de que soubessem o que se fazia nas casas. Por fim, não acho que tive um encontro com o zumbi-evangélico. Não mesmo. Pareceu mais uma entrevista com perguntas e respostas. Meu trabalho foi decodificar a truculência de zumbido gospel. Eles seriam o futuro? Dizem que sim — espero que não. Na verdade, eles são parte do hoje. Participam e se alimentam de um público gospel de pretensa liberdade, mas assumem a mesma castração do passado. Maquiam, disfarçam, mas seguem a linha do que já tinha sido sinalizado na década de 1970 por Rubem Alves — o protestantismo está implicado com a repressão. Melhor, a repressão alimenta os signos protestantes, mesmo hoje, num tom de cult evangelical. Não se enganem. Todos são consumidores no deserto do hell. O hell brasileiro vem se formando aos poucos com golpes evangélicos e bancadas conservadoras selecionadas com os políticos mais corruptos brasileiros — nata da nata da zumbilândia evangélica.

Referências
ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Edições Loyola, 1977.
Žižek, Slavoj. Problema no paraíso. Do fim da história ao fim do capitalismo. São Paulo: Zahar, 2014.

Fabio Py

Fabio Py

Fábio Py é historiador e teólogo, doutor em Teologia pela PUC-Rio e mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Niteroiense, professor na Universidade Cândido Mendes e articulista sobre fé e política no Portal da Revista Caros Amigos. É autor de Crítica à baixa ecologia (CEBI/Fonte Editorial, 2015).
Fabio Py