Estudando os super-ricos

15 de junho de 2014
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O monumental trabalho do economista francês Thomas Piketty, O Capital no Século XXI (Editora Íntrinseca, 2014, 768pp.) vem sendo amplamente aclamado como um clássico, ao lado de obras como O Capital, de Karl Marx, e Teoria Geral de Keynes. Paul Krugman resume a tese de Piketty da seguinte maneira: “A grande ideia de O Capital no Século XXI não é apenas que nós voltamos aos níveis de desigualdade de renda do século XIX [nos EUA], mas que também estamos numa trilha de volta ao “capitalismo patrimonial”, no qual os altos comandos da economia são controlados não por indivíduos talentosos, mas por dinastias familiares” (1).

Em certo sentido isto é completamente novo. De fato, é o que alguns de nós, humildes amadores, temos falado há alguns anos – que a desigualdade social é cumulativa e “hereditária”, que os mais altos rendimentos não são conquistados, mas “fixos”, que a democracia está sendo sequestrada pelos ricos e super-ricos (os famosos que compõem o “1%” contra o qual protestavam os que se manifestavam no Occupy Wall Street), etc. O que Piketty apresenta de novo em seu argumento é a sofisticada análise estatística, e seus dados colhidos a partir de técnicas de economistas. Se o trabalho de Piketty levará a mudanças maiores na negligência quanto à distribuição em favor do “crescimento” ou não, isso ainda não pode ser dito.

A desigualdade mata. Adam Smith afirmou que a habilidade de aparecer em público sem ter vergonha requer mais recursos em uma sociedade rica do que em uma pobre: em um determinado momento, ele diz que um homem precisa de uma camisa de linho para estar vestido de forma respeitável. A ideia de um padrão de pobreza que não está relacionado com a renda dos outros é falsa. Ao se tornar relativamente pior, ele pode realmente fazer uma pessoa completamente pior, em termos de oportunidades e posição social.

Duas das mais desiguais sociedades do mundo são a China e o Brasil. No último mês eu tive o privilégio de passar quase três semanas no Brasil. Os brasileiros são receptivos, calorosos, e amigáveis de maneira geral, mas os contrastes em termos de riqueza são avassaladores. Boa parte dessa realidade tem relação com o período colonial, com a anexação de grandes porções de terra e a chegada de muitos europeus que se estabeleceram e dominaram por quase quatro séculos. Mas não foi só isso. Políticas governamentais também contribuem para esta desigualdade.

O investimento em educação primária e secundária é relativamente pequeno. As elites pressionam para que os investimentos sejam feitos nas universidades, ao invés de nas escolas. Existem excelentes universidades públicas, para as quais o ingresso é gratuito ao estudante. Mas os concursos são tão competitivos que apenas os estudantes ricos das melhores escolas – que apresentam vantagens por sua posição social – conseguem passar. Isso torna o acesso do pobre e da classe média baixa à universidade pública algo extremamente difícil. Estes últimos são os clientes favoritos das instituições privadas de ensino superior. O nível de instrução destas instituições privadas, às quais a maior parte dos estudantes universitários hoje pertence, é geralmente fraco.

A mídia no Brasil é, teoricamente, “livre”, mas na prática as maiores empresas do setor pertencem a grupos que mantêm o status quo. Logo, apenas um lado das notícias vai para a TV. Ficou sob a responsabilidade da nova mídia social revelar as discrepâncias entre as versões oficiais dos eventos e a realidade. Nesta nação obcecada pelo futebol, por exemplo, há grande oposição ao fato de o país ser sede da Copa do Mundo. O governo investiu mais de 15 bilhões de reais dos cofres públicos na construção de estádios e hotéis. Na educação e na saúde os investimentos são pífios. Na tentativa de impedir as manifestações nas ruas, o governo está considerando a possibilidade de resgatar leis antiterroristas do período da ditadura militar. Se estes protestos levarem 5.000 ou 10.000 pessoas às ruas, então será bastante difícil para a polícia lidar com as manifestações.

Disseram-me que é proibida a ingestão de bebidas alcoólicas nos estádios no Brasil. Mas que durante a Copa do Mundo eles abririam uma exceção, já que a Budweiser é uma das principais patrocinadoras do evento.

Esses grandes eventos esportivos internacionais têm mais a ver com a propaganda de um país e com a corrupção de corporações e elites políticas do que com o esporte em si.

Os 100 homens mais ricos da China têm, juntos, riqueza estimada em mais de 300 bilhões de dólares, enquanto mais de 3 milhões de chineses que vivem no interior do país ganham menos de dois dólares por dia. Em janeiro de 2014, Xu Zhiyong, um pesquisador e conhecido ativista dos direitos humanos, foi sentenciado a quatro anos de prisão simplesmente por convocar oficiais chineses a declarar seus bens. É o mesmo governo chinês que é cortejado por multinacionais ocidentais, e ao qual David Cameron ofereceu, em novembro do ano passado, “diálogo de respeito” e emissão de vistos de longo prazo às elites de negócio do país.

Uma matéria que durou dois anos para ser escrita pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, sigla em inglês) revelou que mais de uma dezena de membros dos principais políticos e líderes militares da China utilizavam paraísos fiscais nas Ilhas Virgens Britânicas. Os documentos também mostravam que a principal função dos principais bancos ocidentais e empresas de contabilidade, incluindo PricewaterhouseCoopers, Credit Suisse e UBS, nos paraísos fiscais, era de agir como mediadores no estabelecimento daquelas empresas. Um valor estimado entre 1 e 4 trilhões de dólares em ativos não identificados saíram da China desde 2000, segundo estudos.

O governo chinês esmagou os movimentos populares que buscavam obter mais transparência e fiscalização na renda das elites do país. Sites de notícias internacionais, que revelaram detalhes das empresas dos familiares dos políticos nos paraísos fiscais, foram bloqueados, e os provedores de internet foram obrigados a revelar quaisquer usuários que estivessem publicando notícias com assuntos relacionados àquele.

A relação entre Piketty e Xu Zhiyong ainda não foi, ao que me parece, percebida pela mídia ocidental. Um é visto como um supereconomista, e o outro é completamente ignorado.

* Tradução de Daniel Guanaes

Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2014/05/25/studying-the-super-rich/

Nota

(1) Ver http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/thomas-piketty-new-gilded-age/

Vinoth Ramachandra

Vinoth Ramachandra

Dr. Vinoth Ramachandra nasceu no Sri Lanka. É doutor em Engenharia Nuclear pela Universidade de Londres. Foi Secretário Regional da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE) para o Sul da Ásia. É atualmente Secretário para Diálogo e Engajamento Social da CIEE em nível global. Participa há muitos anos do Movimento de Direitos Humanos do Sri Lanka, da Rede Miquéias e d'A Rocha (organização internacional de conservação ambiental). É autor de vários livros e ensaios, entre os quais A Falência dos Deuses (ABU Editora). Os textos postados na revista podem ser encontrados na sua versão original em inglês no bloghttp://vinothramachandra.wordpress.com/.

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