Eu não sou Charlie Hebdo

18 de janeiro de 2015
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A mídia ocidental, que compreende a maior parte da mídia internacional, nos forneceu cobertura minuciosa dos eventos de Paris, enquanto convenientemente subnotificou outros ataques mortais contra civis. Incidentes violentos na Nigéria e no Iêmen na semana passada levaram a muito mais mortes de civis do que em Paris, e o arcebispo católico-romano da Nigéria lamentou que os países ocidentais estivessem simplesmente ignorando a ameaça representada pelo Boko Haram em seu país.

Quando centenas de estudantes foram sequestradas pelo Boko Haram mais de um ano atrás, Obama e Cameron superaram um ao outro em fazer promessas retumbantes de apoio à Nigéria. Mas muito pouco tem sido feito desde então (a título de ajuda técnica, financeira ou militar) para ajudar o governo e o exército nigeriano a libertar as estudantes e derrotar uma milícia tão cruel. Como tantas vezes no nosso passado recente, o terror tem que atacar o coração das cidades ocidentais antes do “lado escuro” da nossa interconectividade global despertar as pessoas de seu sono.

Mas o despertar pode levar a reações automáticas e de pânico, ao invés de um novo compromisso de entender as origens históricas de eventos globais ou as causas da radicalização islâmica na Europa. Isso é o que temos assistido nos setores mais populares da mídia ocidental na semana passada. Os assassinatos se espalharam na esteira da crescente propaganda histérica sobre a “islamização da Europa”, e demagogos de extrema-direita alegaram subitamente defender os “valores judaico-cristãos”!

Claro que um “valor judaico-cristão” central é a hospitalidade aos estrangeiros. Outro é a autocontenção no discurso e na ação quando se trata de comunidades particularmente vulneráveis experimentando alienação pelo grupo dominante. O terceiro é “tirar a trave do seu próprio olho antes de se tentar tirar o cisco do olho do outro”.

Todos estes valores foram descartados em grande parte (embora, não todos) da cobertura da mídia.

A manifestação de solidariedade em Paris teve a participação de vários líderes internacionais que são inimigos da liberdade de expressão e do jornalismo independente. Benjamin Netanyahu é o mais proeminente entre eles, ainda mais quando o Tribunal Penal Internacional lança uma investigação sobre o terror do Estado de Israel na Faixa de Gaza em setembro passado. O cartunista Bernard Holtrop, do Charlie Hebdo, não deixou escapar a oportunidade para ser irônico, e disse: “Vomitamos em todos aqueles que de repente estão dizendo que são nossos amigos … Eu só posso rir disso”.

Em ataques terroristas como este, o epíteto “muçulmano” é sempre aplicado aos autores, mas raramente às vítimas ou aos heróis. O policial assassinado Ahmed Merabet era muçulmano, e também Lassana Bathily, o imigrante malinês que salvou muitos clientes judeus no supermercado kosher que foi atacado. Respondendo a uma petição assinada por 300.000 parisienses, o presidente Hollande honrou-o publicamente com a cidadania francesa. As histórias desses muçulmanos precisam ser contadas de forma mais ampla na mídia americana e europeia.

Pode-se condenar a maldade do massacre Charlie Hebdo sem se sancionar cegamente os dois pesos duas medidas aplicadas quando se trata de “liberdade de expressão”. Todos os direitos civis são limitados por outros direitos e responsabilidades. A França tem leis duras, não só contra a difamação e a calúnia, mas também contra a negação do Holocausto (mas não de outros genocídios). Duvido que Charlie Hebdo ou o jornal dinamarquês Jyllands-Posten iria publicar caricaturas ofensivas a mulheres, homossexuais ou judeus.

O que acontece em outros países por causa da aplicação irresponsável da “liberdade de expressão” também precisa ser levado em consideração. Ataques violentos contra alvos “fáceis” – como os cristãos locais no Paquistão – acompanham regularmente o que cartunistas ocidentais podem considerar diversão inocente. Se eu sei que o meu exercício de “liberdade de expressão” vai resultar na morte de outros inocentes em outros lugares, e ainda se persiste no que se fala, não sou em parte responsável por suas mortes?

O ex-arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, apontou que aqueles que têm acesso sem problemas ao discurso dominante em uma sociedade como a França ou a Grã-Bretanha simplesmente assumem que a sua posição moral é natural. Não é. Ele sabiamente observa:

“Se eu posso dizer o que eu gosto, é porque eu tenho o poder e status para o fazer. Mas isso deveria impor o dever claro de considerar, quando me envolver em qualquer tipo de debate, a posição relativa do meu adversário ou alvo em termos de seu próprio acesso a esses meios dominantes e estilo de comunicação – o dever que os cristãos europeus negligenciaram ao longo dos séculos como a história do antissemitismo mostra tão claramente”.

E conclui: “O som de uma voz próspera e socialmente segura alegando liberdade ilimitada, tanto para definir como para condenar as crenças de uma minoria, irrita os ouvidos. Contexto é tudo.” [Faith in the public square, 2013].

O abuso da liberdade pode ser o caminho certo para matá-la.

Vinoth Ramachandra

Vinoth Ramachandra

Dr. Vinoth Ramachandra nasceu no Sri Lanka. É doutor em Engenharia Nuclear pela Universidade de Londres. Foi Secretário Regional da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE) para o Sul da Ásia. É atualmente Secretário para Diálogo e Engajamento Social da CIEE em nível global. Participa há muitos anos do Movimento de Direitos Humanos do Sri Lanka, da Rede Miquéias e d'A Rocha (organização internacional de conservação ambiental). É autor de vários livros e ensaios, entre os quais A Falência dos Deuses (ABU Editora). Os textos postados na revista podem ser encontrados na sua versão original em inglês no bloghttp://vinothramachandra.wordpress.com/.

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