Evangélicos na política: desconstruindo mitos

1 de novembro de 2015
bancada_evangelica

Ao mesmo tempo em que a imprensa tem reconhecido a diversidade do universo evangélico brasileiro*, parece haver uma certa cortina de fumaça em relação à bancada evangélica e a sua real extensão e presença. Caso emblemático é o do deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e que teve o seu nome associado a recentes episódios de corrupção.

A história de Cunha é recheada de carros registrados em nome de “Jesus” e triangulações financeiras que incluem doações de um empresário para uma igreja evangélica. Essa vinculação de deputados evangélicos com situações pouco cristãs não é algo novo e remonta à denúncia de generosa concessão de emissoras de rádio na década de 1980 em troca de apoio ao mandato do então presidente José Sarney ou, mais recentemente, no “Escândalo dos Sanguessugas” de 2006, em que dezesseis, dos setenta deputados envolvidos, foram eleitos com o apoio de igrejas evangélicas. Em 2014, dois ex-deputados foram condenados, ambos ligados à Igreja Universal.

Qual é a extensão desse apoio evangélico? O que esses deputados representam efetivamente quando batem no peito e afirmam falar em nome de um contingente da população que, se confirmadas pesquisas de opinião recentes, já representa 28% da população e deve reunir cerca de 55 milhões de pessoas.

Nova Direita Cristã?

Uma primeira questão refere-se ao discurso e a adoção de posturas conservadoras em alguns temas. Neste tópico é importante sublinhar que esse tradicionalismo não é uma exclusividade evangélica e pesquisas têm encontrado poucas diferenças na opinião deste segmento em relação ao conjunto da população. Dependendo da forma como são feitas as perguntas em temas como aborto e homossexualidade as variações dos evangélicos em relação à população não são gritantes. O que alguns pesquisadores têm afirmado (Freston, 2006 e Bohn, 2004, p. ex.), é que esse tradicionalismo ligado à moral “não se traduz diretamente num conservadorismo político”, o que impede que os evangélicos brasileiros sejam associados mecanicamente a um dos polos esquerda-direita. A realidade brasileira é bem mais complexa e bastante diversa da Nova Direita Cristã nos Estados Unidos.

No Congresso Nacional essa proximidade parece ser mais visível, porém a dedicação de boa parte da bancada evangélica é muito mais ligada aos interesses dos setores empresariais que o apoiaram do que nas questões morais. Há um grupo, pequeno, de parlamentares que atua nessas frentes morais ativamente, mas a maior parte parece estar mais interessada em levar adiante a agenda dos segmentos e grupos econômicos que viabilizaram suas eleições.

Para o conjunto da bancada evangélica parece ser uma opção, talvez, estratégica, posicionar-se junto a um potencial nicho eleitoral, considerando a forte presença de concepções de direita na cultura, nos meios de comunicação e no mercado editorial. Ser de direita hoje parece vender mais e dar mais votos! Pessoas “saem do armário” ideológico e o candidato que associou seu nome ao seu cargo eclesiástico, Pastor Everaldo, entregou a confecção de seu plano de governo ao Instituto Liberal, presidido por Rodrigo Constantino, ex-colunista da Veja e autor de livros como “Privatize Já” e “Esquerda Caviar”.

Essa pauta “da direita” representa importantes bandeiras para os que compõem a Frente Parlamentar Evangélica, chegando a ocorrer entre estes parlamentares e diferentes movimentos e entidades um “ecumenismo” em torno de agendas conservadoras, unindo evangélicos, católicos e espíritas. Dinâmica que foi ruim tanto para a política como para as igrejas americanas e que teimam reproduzir por aqui com 30 anos de atraso.

O caso Pastor Everaldo

O interessante desta direção assumida pelo candidato pastor Everaldo, que tentou se apresentar como baluarte do liberalismo econômico, foi sua total incapacidade de convencer os eleitores. Uma dúvida é se ele próprio se convenceu, especialmente por conta de sua admiração no passado por Leonel Brizola e sua participação em campanhas do Partido dos Trabalhadores, do Partido Democrático Trabalhista e do Partido Socialista Brasileiro.

Essa distância entre as origens e vinculações de Everaldo e aquilo que apresentou na campanha, talvez inspirado na Nova Direita americana e em pesquisas sobre o contexto brasileiro, parece ter sido um erro de avaliação na montagem de sua estratégia eleitoral e isso pode explicar parte de seu baixo desempenho. O custo do voto na campanha de Everaldo foi um dos mais altos das eleições de 2014. Cada voto para ele representou o “investimento” de R$ 10 reais. Já nas eleições de 2002, cada voto de Garotinho custou R$ 0,22 reais. Ainda cabe salientar que as despesas declaradas da campanha de Everaldo foram o triplo das de Garotinho, se os reais gastos forem convertidos pelo valor do dólar de novembro de cada um dos anos. Everaldo teve apenas 780 mil votos (0,75%), enquanto Garotinho atingiu 15 milhões (18%). Cabe sublinhar que Everaldo desempenhou importante papel na estratégia e mobilização da campanha de Garotinho e a avaliação no início de sua campanha era de que ele teria potencial de chegar a 5% dos votos somente pelo apoio evangélico, podendo dobrar ou triplicar este percentual pela ênfase na família, pela posição liberal-conservadora e por meio da pregação do Estado Mínimo.

Da época é possível ler afirmações na imprensa de líderes evangélicos que se mostraram totalmente equivocadas, como a de um que afirmou: “Uma grande parte dos evangélicos vota apenas por conta da palavra ‘pastor’’’. As pesquisas indicavam cerca de 28% de eleitores evangélicos, mesmo se, o que é improvável, 100% dos votos do Pastor Everaldo vieram deste segmento, temos, pelo resultado, que irrisórios 2,4% dos evangélicos habilitados a votar, votaram em um pastor para presidente. Assim as eleições de 2014 demonstraram de forma inequívoca o fato de que o “povo evangélico” não é aquela massa ignara que alguns expoentes midiáticos e políticos evangélicos teimam em propagar. Uma candidatura sem conteúdo, sem base partidária, com baixo apoio midiático e com divergências entre sua história e a realidade objetiva resultou em um desempenho pífio, apesar do investimento não desprezível de cerca de três milhões de dólares na campanha.

Os anos de 2013 e 2014 viram uma intensa movimentação da bancada evangélica com a divulgação de vídeos pela Internet com milhões de visualizações e a promoção de eventos e pregações em cultos da mesma mensagem: somente a eleição de muitos deputados evangélicos salvaria o Brasil da perdição. Informações foram sistematicamente divulgadas, sendo afirmada a presença de vários projetos de lei que visavam “destruir” a família brasileira. Um ponto que foi esquecido nessa pregação era o estágio de tramitação dessas leis. A real e iminente possibilidade de serem aprovadas é uma incógnita e até o momento nenhuma delas surgiu no plenário. Além disso, estas afirmações parecem esquecer o fato de que na democracia uma casa de leis tem como objetivo discutir proposições. Ter propostas apresentadas sobre diferentes temas e a partir de diferentes prismas é desejável e faz parte do salutar e democrático debate que se espera que ocorra no poder legislativo.

Os esforços não foram poucos e foram intensificados no período eleitoral. Revistas apócrifas foram criadas, CDs e DVDs foram distribuídos, contendo informações totalmente descabidas e estapafúrdias. Isso tudo tinha como objetivo garantir a maior bancada evangélica da história brasileira. Os prognósticos propalados pela mídia falavam em um aumento de 30%, saindo dos 73 deputados de 2014 para a eleição de 95 parlamentares em 2015. O resultado? Fracasso. Tal estratégia não se confirmou e o número de eleitos diminuiu, tendo ainda um aumento daqueles parlamentares evangélicos que não se utilizam desses mecanismos e que não associam sua prática parlamentar às pautas da bancada evangélica. Para a legislatura de 2015-2018 os deputados evangélicos eleitos foram 71, sendo que 6 destes possuem suas bases em movimentos sociais, tendo sido eleitos pelo PT, PSOL, PTN e PPS.

O caso Cunha

Retornando à figura do deputado Eduardo Cunha, seu caso é singular e ilustrativo do quanto é bem mais restrita e complexa a realidade dessa bancada evangélica do que fazem crer as bravatas de alguns que se movimentam na arena social. O “teatro eleitoral”, como sinalizou Alba Zaluar no clássico “A máquina e a revolta”, é um importante componente da política e é do interesse de alguns fazer crer que é possível dominar milhões de votos que estariam sob a obediente batuta dos pastores.

Cunha iniciou sua carreira política como parte da equipe do finado tesoureiro de Collor, PC Farias. Teria se destacado na equipe ao ter identificado um caminho jurídico para pôr fim a campanha presidencial do apresentador Silvio Santos, que ameaçava a vitória de Collor. Foi presidente de várias empresas públicas, teve seu nome envolvido em vários processos e denúncias e encontrou um sócio, o deputado Francisco Silva, e algum destaque ao participar na programação de uma rádio evangélica, uma das maiores audiências no Rio de Janeiro.

À frente dessa rádio, Silva e Cunha também lideravam a igreja “Cristo em Casa”, misto de programa e de uma tentativa de criar uma igreja mesmo, que se caracterizava pela transmissão diária de cultos. O programa fez muito sucesso e Silva foi o deputado federal eleito com mais votos em 1998, sendo que nas mesmas eleições Cunha não logrou eleger-se deputado estadual, ficando como um dos primeiros suplentes. Nas eleições de 2002, após Silva sofrer um atentado e abandonar a política, Cunha assume o seu legado e é eleito com a metade dos votos obtidos por Silva nas eleições anteriores.

Nas eleições de 2014 Cunha se elegeu com um pouco mais de 200 mil votos, finalmente atingindo a cifra conseguida por Silva na última campanha que participou. Para tanto ele declarou arrecadar 6,4 milhões de reais, num custo de R$ 27,80 por voto. De todos os candidatos a deputados que concorreram no Brasil em 2014, o valor reunido por Cunha foi o quarto maior. Com este significativo volume de recursos investidos em sua campanha ele seria eleito se fosse católico ou ateu. No caso específico, sua filiação religiosa pouco teve importância.

Considerando que entre 1998 e 2014 houve um significativo aumento da população evangélica do Rio de Janeiro e que Cunha fez massiva campanha para este segmento, com muitos recursos, mesmo assim ele só conseguiu angariar pequena parcela desses votos e somente 16 anos após é que ele conseguiu se igualar à marca de seu antecessor. Se considerarmos que 100% dos seus 230 mil votos foram de evangélicos, o que certamente não ocorreu, temos que uns 2 milhões de evangélicos cariocas optaram por votar em outros candidatos, mesmo sabendo – graças a uma ampla campanha – da candidatura do “irmão Cunha” e de que o povo “merece respeito” (bordão que ele utiliza na rádio).

Uma coisa é se apresentar como “representante evangélico”, outra coisa é efetivamente sê-lo e isso não se dá de forma mecânica. Vários elementos estão conjugados neste processo de concordância com o “povo evangélico”, por um lado, e, por outro lado, não se pode esquecer do poder econômico e da execução da política como profissão nos momentos eleitorais. É feita pesada campanha destinada a um segmento, mas a questão central aqui é a capacidade e o alcance desta campanha que vem dos recursos financeiros disponíveis e da estrutura-estratégia montadas. Potencialmente um candidato evangélico pode fazer mais com menos dinheiro, considerando que seu público se encontra mais facilmente alcançável por se reunir regularmente. Esse seria o diferencial, menos custos e mais rapidez, fórmula que parece ter funcionado no caso do deputado pastor Marco Feliciano, parlamentar eleito em 2014 com o menor custo do voto (R$ 0,37), curiosamente seguido por seu antípoda, o deputado Jean Wyllys (R$ 0,47).

É preciso fazer política-partidária-eleitoral, montar estratégia, ter equipe e estrutura. Não basta se dizer “representante evangélico” para se eleger. As sucessivas derrotas do Missionário R. R. Soares, que tentou se eleger em duas ou três eleições são um exemplo e, provavelmente, um aviso de seus fiéis de que preferem vê-lo pregando e não como parlamentar. A identidade evangélica pode até facilitar o processo de campanha, mas não caminha de forma desassociada do poder da mídia, de associações – sejam religiosas, empresariais ou outras – envolvidas. Acreditar no discurso dos que querem vender um poder sobrenatural pode até acontecer entre acólitos, mas não cabe como parte de uma análise objetiva da realidade recente brasileira.

O voto evangélico

Pesquisas foram feitas no início da década de 1990 e identificaram uma maior fidelidade dos fiéis da Igreja Universal no sentido de votarem mais nos candidatos oficiais apoiados pela liderança da denominação. Lembro-me da reunião em que se discutiram estes dados no Instituto de Estudos da Religião, no Rio de Janeiro. Lembro do antropólogo Otávio Velho comentar que considerava aquele dado duplamente impressionante: 50% dos membros da Universal entrevistados num survey tinham votado em um candidato de sua igreja. Eram duas as surpresas: uma, a fidelidade, onde metade dos membros seguia a sugestão dada pelos líderes; porém também era impressionante, que mesmo com a pesada campanha e toda a “redoma de mídia” proporcionando pela Universal, mesmo assim, metade das pessoas que iam a seus cultos afirmaram não terem votado nos candidatos indicados pela liderança.

Nas outras igrejas evangélicas os percentuais de fidelização são bem mais baixos, especialmente considerando o diverso leque de motivações que movimenta o voto proporcional. Questões trabalhistas, familiares, regionais, afetivas etc. Os motivos para o voto já foram bem explorados pela antropologia política e é neste meio que o voto evangélico, como qualquer outro voto, está inserido e por mais que haja particularidades e elementos a considerar neste contingente, até o momento as pesquisas não parecem indicar grandes distinções em relação ao conjunto da população. De um modo geral o eleitor evangélico aparece como mais propenso a considerar a opinião, entre várias, do seu líder religioso. Isso pode estar relacionado ao alto grau de exposição à autoridade religiosa no segmento, graças a uma maior assiduidade dos fiéis a cultos e reuniões.

Foi de outro Velho – Gilberto, também antropólogo – que ouvi pela primeira vez a máxima de que as pessoas não são folhas de papel em branco que recebem quaisquer letras que alguém desejar escrever. As pessoas possuem opiniões e histórias próprias. Os evangélicos, como o resto da população, afirmaram que os debates na TV, a propaganda política e as conversas com amigos e familiares têm mais peso na decisão de seu voto, na pesquisa explorada por Bohn (2004). Uma pequena parcela inclui entre os elementos a considerar as informações oriundas de sua Igreja – isso foi fato para 11,6% dos entrevistados evangélicos, enquanto apenas 2,4% dos católicos. Repetindo as palavras de Otávio Velho isso é duplamente surpreendente. Primeiro, porque um pouco mais de 10% dos evangélicos consideram sua fé ao definir o seu voto, mas, ao mesmo tempo, cerca de 90% segue os elementos e as lógicas presentes e adotadas pelo conjunto da sociedade.

O peso explicativo da religião e seus milagres

Estudo a relação entre evangélicos e política desde o início dos anos 1990 e algo que tenho percebido é que as reflexões do velho Marx parecem ajudar a entender boa parte dos fatos relacionados a esta temática, no sentido da centralidade dos aspectos econômicos e da importância do conceito de classe social como ferramenta explicativa para entender o desempenho e o voto da população, junto a outros elementos que contribuem. É importante frisar a importância da raça, do gênero, além de reconhecer que a religião tem um peso, mais ainda entre os evangélicos, e que são úteis na compreensão e prognóstico dos diferentes fatores relacionados à política partidária e eleitoral no Brasil contemporâneo.

Outro elemento a ser considerado é a organização da política eleitoral brasileira, os movimentos e regramentos relacionados às eleições proporcionais e majoritárias e como candidatos e eleitores se movimentam neste baile. Em eleições majoritárias é possível identificar lideranças como Marina Silva e Anthony Garotinho conseguindo alcançar o coração dos evangélicos, desequilibrando significativamente entre estes o percentual de seus votos. Isso aconteceu por motivos muito maiores do que simplesmente serem evangélicos. No caso de Everaldo nem mesmo a inclusão do título “pastor” conseguiu garantir esse voto. O seu insucesso aconteceu não por falta de recursos financeiros ou estratégia, mas sim em decorrência de uma montagem equivocada e inverossímil para a campanha. Não faltaram viagens, apoio de lideranças ou mesmo os berros e as preces de seus pares que ocuparam palanques e a mídia defendendo que um milagre levaria à sua vitória. Outro “milagre” que também não aconteceu foi o da prometida multiplicação da bancada evangélica.

Que outros milagres podemos esperar? Particularmente espero ver nas próximas eleições o poder econômico e o financiamento privado de campanha de fora, não sendo mais uma realidade e que aos poucos o Brasil consiga estabelecer processos eleitorais melhores e mais sofisticados para o aprofundamento e a consolidação da democracia

Outro milagre passa por um Congresso Nacional que aposente definitivamente manobras regimentais e que aprove leis e promova debates e discussões que contribuam para mais justiça, para a continuidade da diminuição das desigualdades sociais e para a ampliação de ações de promoção e defesa dos direitos humanos; enterrando definitivamente coisas como a redução da maioridade penal, o financiamento privado de campanhas, a PEC 215, a legislação dos transgênicos, o código da mineração, a reformulação do Estatuto do Desarmamento e outras iniciativas similares que são, de fato, o que realmente ameaça a família brasileira. Em determinados milagres eu acredito.

(*) Ver, entre outros:

Alexandre Brasil Fonseca

Alexandre Brasil Fonseca

Alexandre Brasil Fonseca é sociólogo, doutor em Sociologia pela USP e professor do Laboratório de Estudos da Ciência do NUTES na UFRJ. É Coordenador-Geral de Segurança, Cidadania e Direitos Humanos no Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos da Presidência da República. É casado com Daniela e pai de Daniel.

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