Fetichismo do dinheiro e a Graça de Deus: a novidade de Alegria do Evangelho (Parte V)

27 de maio de 2014
Aprenda a atrair dinheiro

Neste quinto artigo da série sobre a novidade do documento Alegria do Evangelho, quero continuar a reflexão do artigo anterior sobre a tarefa das igrejas cristãs de anunciar o Deus revelado em Jesus, o Deus que estava na cruz com “o” justo — aquele que foi assassinado em nome de deus do Templo e do Império Romano.

Segundo o papa, a adoração do ídolo-dinheiro leva as pessoas e a sociedade a se tornarem indiferentes, insensíveis, em relação aos sofrimentos dos pobres e à grave desigualdade social (para se ter uma ideia da dimensão da desigualdade social no mundo: segundo o Fórum Econômico Mundial de Davos, 1% mais rico detém 46% da riqueza mundial, e 85 pessoas, a riqueza equivalente a metade da população mundial. Você não leu errado, 85 pessoas detém equivalente a quase a metade). É preciso entender que as pessoas não se tornaram insensíveis porque são más. Pelo contrário, podem ser pessoas de “bem”, cumpridoras das regras morais e religiosas. Essa insensibilidade social não nasce de algum desvio individual no campo da moral ou da religião, mas é fruto da cultura em que estão imersas essas pessoas.

E por que diante dessa situação, que faz conviver pessoas miseráveis ao lado de poucas ostentando carros de milhões de reais, domina indiferença social? É claro que se perguntados, todos vão dizer que são contra essa situação e em favor de mudanças. Mas, se perguntado se estão dispostos a reduzir o seu nível de ganho e consumo (por ex., com mais impostos para programas sociais), vão levantar várias “desculpas” (por ex., a culpa é da corrupção, mais imposto diminui o crescimento econômico…) para dificultar medidas que realmente possam modificar a situação. No fundo, há uma indiferença em relação a esse grave problema. Diante dessa situação, não bastam mais “pregações morais ou religiosas” criticando a desigualdade social (sobre a crise ambiental, nos próximos artigos). É preciso entender o porquê dessa insensibilidade. E o documento Alegria do Evangelho oferece uma pista.

Ele diz: “na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32. 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano.” (n.55). O papa faz um paralelo entre “o bezerro de ouro” e o fetichismo do dinheiro hoje. Nesse sentido, o tema do dinheiro/economia se tornou uma questão teológica central, assim como é a “luta” entre o Bezerro de Ouro – que foi chamado de Javé pelos seus adoradores – e o Deus-Javé.

E o que é o fetichismo? O conceito de “fetiche”, que Marx usa para analisar a mercadoria (O Capital, vol I, Livro I, cap. 1), designa a inversão da relação entre o sujeito e objeto. O ser humano é o sujeito do trabalho e o produto ou a mercadoria é o objeto resultado da ação do sujeito. Porém, no sistema de mercado capitalista ocorre uma inversão profunda: as pessoas não se relacionam porque são pessoas-sujeitos, mas sim porque são portadoras de mercadorias que podem ser trocadas por outras mercadorias. Por ex., se você não tem dinheiro (um tipo especial de mercadoria), não pode ir a Shopping fazer compras (isto é, fazer o seu dinheiro estabelecer relação de troca com outra mercadoria), nem “dar um rolé”. Como (quase) tudo é comprado e vendido no mercado, você só estabelece relações com outras pessoas na medida em que é portadora do dinheiro/mercadoria.

Na experiência do cotidiano isso é expresso com a ideia de que você vale o quanto tem. Se você não tem nada, é pobre, não vale nada e, portanto, não é “ninguém”. Nesse fetichismo do dinheiro, a fonte da dignidade humana está no dinheiro. Por isso as pessoas querem mais dinheiro do que precisam, desejam sem limite, porque querem “ser” mais através de “o” único caminho que conhecem: ter mais dinheiro.

Os problemas sociais dos pobres são problemas de pessoas que são “ninguém”, por isso não são importantes e a sociedade se torna indiferente a esses problemas. Só são tratados quando essa desigualdade cria problemas para as “pessoas de bem”, as que têm dinheiro.

Diante desse tipo de mundo, é preciso oferecer um caminho alternativo. “O Caminho” que Jesus propõe é o reconhecimento de que todos os seres humanos são dignos, não importando se é rico ou pobre, homem ou mulher, branco ou negro ou indígena, religioso ou não… Isso porque Deus a ama a todos gratuitamente e por causa dessa graça os problemas de pessoas consideradas “ninguém” são problemas importantes para Deus e para todos que descobriram a Verdade sobre a condição humana. Esse Caminho e essa Verdade nos levam à Vida.

A insensibilidade social frente aos problemas sociais precisar ser desmascarada e superada pela “teologia da graça”.

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung é Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993), com Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, com Nestor Míguez e Joerg Rieger, Para além do Espírito do Império: novas perspectivas em política e religião (Paulus, 2012).
Jung Mo Sung