“Hoje se cumpriu essa palavra”: Incidências políticas do Evangelho

3 de junho de 2016
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Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, E apregoar o ano aceitável do Senhor.

Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele.

Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir (Lc 4.17-21).

 

O texto de Isaías que serviu de inspiração a Jesus era conhecido naquele tempo. Era lido e comentado na sinagoga. Mas desta vez, causa impacto, mexe com as pessoas, provoca reação violenta. Por quê? Porque Jesus o liga à realidade de seu povo. Ele diz: Hoje se cumpriu! Desta forma Jesus atualizava a esperança do povo nas promessas de Deus, promessas minadas por uma vivência da fé alienante. Jesus presentifica a tradição do Jubileu tornando-a não somente uma informação sobre a religião, mas uma imposição sobre a experiência da fé no já da história.

A missão de Jesus, apresentada ali de forma programática, se define a partir da realidade do povo e da centralidade do Reino. A tradição jubilar como memória assumida por Jesus é identificada por Ele como programa de toda a sua práxis. Toda experiência vivida por Ele junto aos homens e mulheres, — experiência de partilha, de solidariedade, de compaixão, de gratuidade — é manifestação do Reino a partir da concretização dessa memória.

O novo que acontece na sinagoga de Nazaré é a ponte que atualiza e radicaliza a profecia de Isaías, a tradição jubilar e o sonho do judeu Jesus que atua no poder do Espírito Santo, se encarna na história de seu povo como aquela no qual se cumpra a Escritura. Não é o texto que Jesus lê, mas a releitura do mesmo que cria a situação de conflito (1).

Essa leitura da Escritura — disputada por Jesus e tornada um elemento implicador de todas as suas ações — a partir da realidade concreta de seu povo estabelece Jesus como o eixo de ligação entre a lei e os profetas de um lado, e o Reino de outro. E, fundamentalmente, essa ligação se dá no tempo histórico do hoje. Dessa forma a Escritura deixa de pertencer ao exclusivo domínio da doutrina e passa a abarcar as dinâmicas políticas. O hoje do “hoje se cumpriu” é a politização de categorias que até então estavam domesticadas numa dinâmica ritualística. Pobres, presos, cegos, oprimidos, endividados, enfim marginalizados são trazidos dos guetos sócio-religiosos para o centro da história, para um tempo específico que se chama hoje.

É o parto de novos sujeitos históricos acontecendo no meio da sinagoga de Nazaré. Daí a dramaticidade do relato lucano. Embora esse parto já houvesse sido prometido, ele povoava um imaginário messiânico abstrato. Porém, em Jesus ele se apresenta concreto e, como tal, desafia os corações e as estruturas à conversão.

Bem-aventurados vós… Ai de vós: a memória de Jesus como percurso do discipulado.

Então, olhando ele para seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.

Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos.

Bem-aventurado vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.

Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos expulsarem da sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do Homem.

Regozijai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu; pois dessa forma procederam seus pais com os profetas.

Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.

Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome.

Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar.

Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas (Lc 6.19-25).

 

Este solene anúncio de Jesus, que abre o grande discurso, fez eco à primeira proclamação programática, na sinagoga de Nazaré. Também aqui é dada a boa nova aos pobres: O Reino de Deus, isto é, a sua justiça e fidelidade, está do lado dos pobres. A este anúncio ou promessa salvífica para os pobres vai ser agora contraposta, como reverso da medalha, a proclamação da ruína dos ricos (2).

Na narrativa das bem-aventuranças Lucas transporta todos os “sujeitos históricos recém-nascidos” na sinagoga de Nazaré para um discurso “exposto detalhadamente, desta vez com uma base social estruturada e claramente à vista das multidões” (3). Os pobres, os que têm fome, os que choram, os odiados, estes são os destinatários do “ano da graça do Senhor”, os sujeitos da memória comunitária ativada por Jesus. Os ricos, os saciados, os risonhos, os bajuladores, a estes nos parece estar reservado “o dia da vingança do nosso Deus” (Is 61.2).

Jesus propõe um confronto de alternativas a partir de sua plataforma programática:

Ou com os “pobres” para o Reino de Deus, ou com os ricos na ilusão que leva à falência. Depois das bem-aventuranças, não há mais lugar para a neutralidade tranquila ou uma falsa consciência cristã em face dos ricos e dos pobres (4).

Isso é o que tenho chamado de disputa pela Escritura. Para Jesus não há espaço para neutralidade. Ele se posiciona e espera que seus discípulos e discípulas também o façam.

É isso que as Bem-aventuranças de Lucas operam no contexto da pregação de Jesus. Os Bem-aventurados e os Ais correspondem, nesse sentido, ao reforço ou condenação que Jesus faz da memória em que se insere e dos grupos que operam a tentativa de esquecimento, a aminésia, dos valores dessa mesma memória. Os Bem-aventurados são os sujeitos históricos da memória que Jesus faz sua na sinagoga de Nazaré.

Com isso Jesus torna padrão de juízo aquela síntese que havia feito em si mesmo. A memória que Ele assumira no “Hoje se cumpriu essa Palavra” agora é quem julga todas as coisas. Os pobres, os que têm fome, os que choram e os odiados são os sujeitos da memória que Jesus assumiu como sua. Já os ricos, os fartos, os risonhos e os bajuladores compõem as estruturas que buscam promover a amnésia dessas memórias.

A fé do povo ganha novos horizontes e sua realidade é qualificada a partir da assunção que Jesus faz da memória libertária que contempla sua condição oprimida. Porém não é só a realidade concreta que é qualificada por Jesus, nas Bem-aventuranças e nos Ais está atualizada uma esperança escatológica que mesmo já animando a vida abre ainda uma outra perspectiva existencial diante do Reino de Deus.

Notas

(1) REIMER, Haroldo. Reimer, Ivoni Richter. Tempos de Graça: O Jubileu e as tradições jubilares na Bíblia. São Leopoldo: Sinodal, 1999, p. 114.

(2) FABRIS, Rinaldo; MAGGION, Bruno. Os Evangelhos (II). Tradução e comentário. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2006, p. 74.

(3) YODER, John Howard. A política de Jesus. p.28.

(4) FABRIS, Rinaldo. MAGGION, Bruno. p. 76.

Alessandro Rodrigues Rocha

Alessandro Rodrigues Rocha

Alessandro Rodrigues Rocha é pastor batista, doutor em teologia sistemática pela PUC-Rio e escritor nas áreas de teologia e espiritualidade. É casado com Adriana e pai de Maria Eduarda.

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