Janaina Paschoal e o indisfarçável preconceito contra o pentecostalismo e as religiões de matriz africana

6 de abril de 2016
janaina paschoal

Nesses últimos dias circula na internet um vídeo onde a advogada Janaína Paschoal vocifera em favor do impeachment da presidenta Dilma, num ato no Largo São Francisco, em frente à Universidade de São Paulo(USP). Foi recorrente a comparação da fala da advogada com o pentecostalismo ou com as religiões de matriz afro. “Ela está com a pomba gira“, “Essa mulher está promovendo um exorcismo“, dentre inúmeras outras pilhérias, foram utilizadas com grande frequência.

Em primeiro lugar, minha opinião sobre o vídeo é de que não passa de “jus esperneandis”. Na prática jurídica o “jus esperneandis“ é frequentemente usado quando faltam argumentos sólidos e se parte para uma defesa “emocionada“ de seu ponto de vista. A advogada, deslumbrada com seus minutos de fama, precisa se agarrar a essa estratégia como mecanismo de manter-se em evidência no campo da disputa política. Pessoalmente, me preocupa mais o conteúdo da fala do que a forma. Se ela estivesse lendo Drummond, Patativa do Assaré ou Mano Brown aos berros seria capaz de chorar de alegria.

Um dado importante é que tanto o pentecostalismo quando as religiões de matriz africana tem sua raiz no solo de comunidades empobrecidas e negras. No fundo essas críticas, por vezes “inocentes“ ou inconscientes, traduzem que os jeitos, as cores e as formas como esses grupos são identificados têm um espaço delimitado. “Ah, mas esse jeito ‘pentecostal ou culto afro’ é inapropriado para se falar em público e não deve ser aceito”, questionam alguns críticos da advogada. Mas quem define o que é próprio ou impróprio? Quem ditou essas regras?

Bourdieu desenvolveu o conceito de capital cultural. Para ele o capital cultural promove o conhecimento e elementos ligados a uma cultura em particular. É aquela que é apreciada como a mais válida ou superior pela sociedade como um todo. Um dos atributos do grupo dominante é conseguir se legitimar e autenticar sua cultura como a mais perfeita, a que tem valor simbólico. Conforme Bourdieu, basicamente vai se “Fazendo hierarquias sociais… parecerem estar baseadas em hierarquia de “dons”, mérito ou habilidade … o sistema educacional preenche a função de legitimação … da ordem social.” (1977. p.496).

Daí a censura sobre o que se é apropriado ou não no espaço público seja vaticinada por quem tem força para chancelar o que se deve ou não ser aceitável. São aqueles que dizem qual é o “capital cultural“ que deve ser mantido como hegemônico ou adequado, como bem delineia Bourdieu. Esse poder está na mão de grupos abastados e que sempre tiveram desprezo por qualquer tipo de ethos identificado com os mais pobres e negros. Sabemos, obviamente, que ser negro e pobre no Brasil são sinônimos, e não são poucas as expressões culturais advindas desse extrato social que são desaprovadas. Esse preconceito é reproduzido inclusive não poucas vezes no mundo acadêmico, lugar de “excelência e espírito superior”.

Ao discordar do modo como a advogada se expressa, comparando-o com culto afro ou pentecostalismo, apenas se reforça que esses jeitos de ser têm um lugar circunscrito. Devem ficar enclausurados em seus territórios e comunidades, jamais no “solo sagrado“ de uma universidade como a USP. Pergunto-me se no fundo o que se quer calar não são apenas essas expressões de fé, mas qualquer traço de africanidade que ainda corre no sangue do povo. Historicamente, pretos e pobres não tiveram a chance de participar da construção do ethos do mundo acadêmico ou do campo jurídico. O que lhes sobrou foram os terreiros ou as periféricas igrejas pentecostais. Além dos presídios, é claro.

Terminamos essa breve reflexão com uma provocação de Cláudia Alcântara:

Precisamos, urgentemente, de uma leitura bíblica que desenvolva a cidadania para a cultura negra afrodescendente. Para isso devemos eliminar de uma vez por todas qualquer leitura que condene a população negra à escravidão e fazer uma leitura bíblica que afirme a igualdade de todas as raças e etnias, logo contra a escravidão de qualquer indivíduo ou grupo étnico (2008, pag. 75).

Silenciar qualquer expressão que dialoga com as culturas da negritude ou dos pobres, mesmo que seja de grupos religiosos que não professem nossas crenças, dogmas ou teologias, é talvez uma forma tácita, porém pérfida, de conformação com a lógica escravocrata e classista.

 Referências

BOURDIEU, Pierre. Reprodução cultural e reprodução social. A economia das trocas simbólicas, v. 2, p. 295-336, 1982.

DE ALCÂNTARA, Cláudia Sales. Reflexões sobre a construção de uma liturgia de valorização da cultura afrodescendente. http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/06/04culturaafro.pdf

Caio Marçal

Caio Marçal

Caio Marçal é cearense e membro da Igreja Batista da Redenção, em Belo Horizonte. É missionário na Ocupação Rosa Leão e membro da Coordenação Nacional da Rede FALE .
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