Contra o fundamentalismo político evangélico

16 de dezembro de 2015
bancada-evangélica

Pessoalmente busco evitar qualquer tipo de categorização arbitrária, ainda mais em questões políticas. Prefiro apelar ao diálogo permanente, sem juízos a priori, partindo do fato de que toda expressão é sempre subjetiva e contingente, especialmente em um contexto democrático que se estabelece na busca de consensos transitórios a partir de uma disputa saudável entre as partes em jogo.

Mas há momentos que se torna inevitável afirmar frontalmente certas opiniões que possam soar definitivas e até pedantes — com todo o risco de parecer querer absolutizar um viés —, onde a pressão de certas circunstâncias torna ineludível expressar posições alternativas diante de propostas que se apresentam como insuperáveis.

Qual é o critério ético para esta determinação? Não o fato de crer que uma posição ou opinião particular seja a verdade universal a ser cumprida. Ao contrário, parte da necessidade imperante de denunciar vozes, posicionamentos sociopolíticos e critérios morais particulares que se mostram fechados e absolutos quando não o são, e que em tal exercício interrompem um desenvolvimento democrático saudável, que priorize a diversidade e a pluralidade inerentes a nossas sociedades, e a necessidade de construir espaços de participação, articulação e inclusão, onde todas as partes sejam reconhecidas e façam parte de um espaço de diálogo.

Neste caso, quero me referir a diversas expressões “evangélicas” — ou seja, que se apresentam como tais ainda que não representem o espectro evangélico em sua totalidade — que há algum tempo adquirem um crescente protagonismo em espaços de deliberação política institucional. Brasil, Uruguai, Chile, Peru, Colômbia, Guatemala, Argentina, são alguns dos tantos casos que encontramos na América Latina —, com todas as variantes em cada caso — onde grupos de agentes públicos se declaram pública e abertamente evangélicos, vinculando sua opção religiosa com certas agendas políticas e ideológicas.

I

Evangélicos e conservadorismo

A maioria destes grupos priorizam certos temas em sua agenda política, localizando um conceito de família nuclear como fundamento, a partir de onde se propõe projetos de regulação do corpo e da sexualidade, em temas como gênero, aborto, homossexualidade, entre outros. Não é casualidade que a totalidade destes setores provenha de partidos de centro-direita, com articulações entre os setores sociais e políticos mais conservadores da sociedade.

Suas propostas se baseiam num olhar conservador, moralista e essencialista do núcleo familiar, partindo de uma concepção reducionista e patriarcal do relacional, do corporal e do sexual. Tudo o mais se encontra ao redor destes pilares, evitando assim enfrentar problemáticas centrais em nossos contextos, tais como a pobreza, a injustiça, a desigualdade, a pouca intervenção do Estado, o aumento das estruturas repressivas, entre outros. Isto, obviamente, se deve ao relacionamento de tais grupos com setores empresariais, militares e policiais, e que criam precisamente estas circunstâncias, e para quem são funcionais.

II

Tergiversação bíblica e legitimação política

Para estes grupos, a participação política institucional parece ser apenas algo instrumental ou um “meio” que aponta para um “bem maior”. Em outras palavras, a origem de suas agendas é apresentada a partir de uma fonte superior a qualquer tipo de deliberação política, ou seja, a Bíblia; ou pior ainda, a partir do próprio Deus. Tal gesto absolutiza todo posicionamento particular e obstrui qualquer possibilidade de diálogo, ao excluir — a partir de uma postura metafísica — qualquer outro posicionamento, inclusive um espaço de encontro.

Toda perspectiva política pode ser inspirada em um marco de crença particular, seja um texto sagrado, o Manifesto Comunista, o Consenso de Washington ou a Doutrina Peronista. Mas no caso particular do uso do texto bíblico, o problema reside na metafísica hermenêutica que se utiliza ao abordá-lo por parte destes grupos, onde a sacralidade do texto — coisa além do mais que não existe e que é alheia a sua própria composição — é pensada como um manto de legitimação que o coloca por cima de qualquer outro tipo de mediação.

Pior ainda — a partir de um olhar mais interno —, tais discursos se distanciam da sinceridade e humildade necessárias para reconhecer que existem, além disso, diversas interpretações do texto bíblico. Neste sentido estes grupos não apenas põem a Bíblia como um marco de sentido fechado e excludente, mas considera um conjunto de interpretações determinadas como as únicas possíveis.

III

Uma crítica “moderada”

Também temos visto nestes dias vozes dentro do próprio espectro evangélico que se levantam com um posicionamento alternativo, a partir de uma interpretação um pouco mais dinâmica do texto bíblico e com certa sensibilidade social. Além disso, pode-se perguntar onde estão estas vozes na hora de questionar as agendas públicas dos grupos que tendem a homogeneizar a cosmovisão política evangélica a partir dos espaços de poder.

O problema que muitos de nós encontramos é que, apesar de certas diferenças cosméticas, a base que une estes grupos é a mesma. As hermenêuticas continuam sendo igualmente fechadas e a cosmovisão social se centra em temas econômicos que ignoram a dimensão sexual, corporal e afetiva dos contextos sociais, aspecto que evidencia uma perspectiva conservadora compartilhada.

Em outras palavras, o suposto progressismo termina sendo funcional aos ideários mais conservadores — ainda que retoricamente resistissem a ser a eles relacionados —, já que compartilham das mesmas questões de fundo. Todos somos contraditórios. Mas aqui a fraqueza não passa pelos desencontros com nós mesmos mas pela hipocrisia de esgrimir um posicionamento sensível e aberto às problemáticas da sociedade como uma camuflagem para ocultar o mesmo fundamentalismo que questionam.

IV

Por uma democracia radical a partir de uma visão evangélica

As chamadas “bancadas evangélicas” são espaços que de “evangélico” têm apenas um mote institucional com claras intenções eleitorais, com o objetivo de alcançar plataformas de poder dentro da burocracia política. Usam esse espaço não para se situarem como uma voz particular dentro do espectro político — para o qual tem todo o direito — mas seu discurso e prática se apresentam como absolutas, com ares de superioridade (recebidas do “alto”) diante de outras vozes (salvo se comungam com suas perspectivas políticas, o que dá a estas vozes partidárias e outros setores sociais, tais como militares, conservadores, fundamentalistas etc., um manto de sacralidade).

Resumindo, estes grupos não contribuem com uma prática democrática saudável. Ter uma crença e uma voz particular que dialogue com as demais é totalmente aceitável. Mas legitimar tal posicionamento a partir de um lugar de sacralidade, terceirizando toda subjetividade ao próprio Deus, é um tipo de totalitarismo oculto. Significa usar a fé, a igreja, a Bíblia e o divino como plataformas de poder.

Democracia significa abrir um espaço de diálogo onde todas as partes se mostram falíveis diante das demais. Sem esse posicionamento não existe possibilidade de intercâmbio para construir um espaço público onde se debata em torno das demandas do povo. Como acontece em qualquer família, há coisas que nem todos os membros vão gostar na hora de chegar a certos acordos. Mas isso significa conviver: aceitar as diferenças. Isso é ser humano com direito à palavra e à ação. Estes valores democráticos estão bem longe da agenda de muitos setores evangélicos posicionados no poder, cujas práticas e discursos anulam todo tipo de pluralidade.

O Evangelho não vem anexo a uma lista de prerrogativas morais. Se as tem, tenhamos humildade de reconhecer que fomos nós quem as escrevemos, a partir de nossa interpretação particular. Sim, encontramos uma espécie de ética que o próprio Jesus Cristo refletiu: o amor ao próximo como ponto de partida de qualquer prática social, cultural, econômica, política e religiosa. Jesus resistiu a toda absolutização moral e dogmática por parte do Império Romano e da liderança religiosa que tentasse colocar uma máscara sobre a vida e o sofrimento do outro.

Como evangélicos, devemos denunciar estes projetos políticos que tentam impor agendas morais, querendo administrar a vida privada. Denunciar que o que estes grupos desejam impor não são nada menos que projetos particulares, de partidos específicos (com perspectivas ideológicas específicas), e que não representam todo o espectro evangélico. Devemos denunciar que a fé vai por outros caminhos (e que são muitos!) e que a igreja não deve ser utilizada como plataforma de interesses políticos particulares.

Nicolás Panotto

Nicolás Panotto

Licenciado en Teologia pelo Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos - ISEDET (Argentina). Mestrando em Antropologia Social e doutorando em Ciências Sociais pela FLACSO Argentina. Diretor geral do Grupo de Estudos Multidisciplinares sobre Religião e Incidência Pública (GEMRIP - www.gemrip.com.ar)

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