“Mar de lama” – Eleições, imprensa, democracia e justiça

17 de outubro de 2014
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“Mar de lama”, o bordão repetido goebbelsianamente pela velha UDN para desestabilizar o governo democrático de Getúlio Vargas em 1954, foi depois utilizado duramente contra o governo de Juscelino Kubitschek, que resultou na vitória oposicionista de Janio Quadros nas eleições de 1960. O símbolo de sua candidatura, uma vassoura, garantia que iria “varrer a sujeira” do governo JK. Dentre os maiores aliados da campanha de Janio destacaram-se os meios de comunicação, que sempre associados ao grande capital e seus interesses, identificaram e apoiaram ostensivamente seu candidato. O resultado dessa história é notório: JK é hoje amplamente reconhecido como um dos grandes governantes brasileiros, já o Janio… Bem, seria necessário mais que vassoura para limpar a sujeira que ele impôs ao país, principalmente com sua renúncia, que veio a desembocar no Golpe Civil-militar de 1964. Sempre com apoio do empresariado da grande imprensa.

Esse “quarto poder”, muitas vezes imperial, com sua capacidade de mover/controlar amplos setores da sociedade para determinadas posições que lhe interessa – muitas vezes injusta e ilegítima, porque contrária aos verdadeiros interesses da população em geral –, é uma tipificação da chamada superestrutura, conforme teorizou o velho Marx. Uma ilustração perfeita desse poder perverso da imprensa é o caso triste e trágico – lamentavelmente famoso – da Escola Base, ocorrido São Paulo em 1994.

Nos últimos 12 anos, ininterrupta e crescentemente, os grandes meios de comunicação se esmeraram em produzir ilações maldosas, associações estapafúrdias, dados levianos contra o governo federal, conjugando-se com outras forças que compõem a superestrutura como religiões e juízes. Obviamente que todo governo deve ser alvo de avaliação crítica, permanentemente, em especial da imprensa – que é um valor e um distintivo da democracia –, mas o que ocorreu destacadamente foi um projeto midiático de criminalização governamental, especialmente de uma agenda social e estrutural cujo resultado para o desenvolvimento do país é reconhecido até por opositores. Porque produtor de justiça e criteriosamente fundamentado em dados científicos de pesquisa. Porém, propositadamente ignorado, negado ou rechaçado pelos interesses econômico-político-ideológicos da grande mídia, que cria uma cortina de fumaça em torno da realidade.

Um resultado explícito desse estratagema está agora nestas eleições: vários setores da população, de diferentes segmentos sociais e que foram alvos de políticas de cidadania há muito devidas pelo Estado, apoiam interesses de empresas de comunicação – talvez fosse melhor dizer de propaganda – que são efetivamente opostos àqueles que estas mesmas populações estão buscando melhor e desejando mais. No entanto, o poder dessa superestrutura consegue travestir seus objetivos como se fossem os interesses legítimos de trabalhadores, tanto de classes populares como de classes médias. Que assimilam esta ideologia como sendo verdade, sobretudo porque embalada por um invólucro moralista, que é, obviamente, falso, afinal, essa própria maneira de agir das empresas de comunicação, com ares de jornalismo sério e imparcial, especialmente na construção de seu candidato preferencial, revela ou escancara sua total imoralidade.

Exemplo paradigmático mais recente dessa ação partidária apaixonada da grande imprensa em favor de seu candidato e preconceituosamente contrária a outro – neste caso, à outra -, foram matérias de capa desta semana (15/10) das revistas Veja, Época e IstoÉ. Sem falar nas edições diárias dos jornais O Estado de S. Paulo, O Globo, os telejornais do sistema Globo e outros. Está claro que não é bem jornalismo que tais veículos fazem, mas, muitas vezes, deslavada campanha eleitoral. Um grotesco acinte à democracia e à cidadania dos brasileiros.

Para ficar numa ilustração comparativa com o país do Norte de nosso continente, jornais e revistas estadunidenses, que, como aqui, não são concessão pública, revelam seus candidatos em editoriais, entretanto, continuam fazendo cobertura mais equilibrada e menos parcial das eleições, inclusive no destaque aos diversos postulantes. Aqui entre nós, ao contrário, a assimetria é escorchante: Veja, Época, Estadão e O Globo, principalmente, parecem mais folhetins produzidos no comitê eleitoral do candidato Aécio do que algo que se possa chamar minimamente de jornalismo. No entanto seus leitores estão tão embotados que a maioria já não divisa realidade de invenção. “Eh, ôô, vida de gado, povo marcado”, povo (in)feliz!

No primeiro debate presidencial deste segundo turno das eleições, ocorrido na TV Bandeirantes, o candidato Aécio referiu-se ao governo Dilma com o mesmíssimo bordão da UDN: “mar de lama”. Assim o PSDB vai assumindo cada vez mais a carapuça da velha UDN e seu moralismo, que se sustenta em sofisma e empulhação. Também conspiração?!
Muita gente boa e séria, tanto simples como mais sofisticada, assimilou acriticamente – ou melhor, engoliu como numa educação bancária – essa cantilena da grande imprensa, tomando ilações como verdades indiscutíveis e absolutas. Gente que acredita religiosamente em tudo que a imprensa diz e escreve, sem qualquer problematização. Como se os meios de comunicação não fossem dominados por pessoas e grupos empresariais com seus interesses partidários, econômicos, políticos e ideológicos.

A gestão presidencial de Dilma, como de qualquer governo, deve ser alvo de vigilância e crítica firme, sempre. E também deve se autocriticar para buscar dar um salto maior de qualidade em todos os sentidos. Porém, com todos os problemas e virtudes – muitas virtudes em diversas áreas – as administrações Lula e Dilma foram, seguramente, as que mais enfrentaram a corrupção na estrutura do Estado e mesmo do governo. Porque vir à luz denúncias de corrupção e consequentemente apuração significa enfrentar esse mal tão comum em todos os níveis e áreas do Estado e da sociedade. Não aparecer e não se investigar ou mesmo fazer uma pantomima, como ocorria em governos passados, não significa não existir podridão, mas estar olimpicamente escondido, inclusive e, sobretudo, com aparato dos instrumentos que compõem a superestrutura. É notório o epíteto dado ao procurador-geral das gestões do PSDB: Engavetador-Geral da República, porque não investigava, antes arquivava denúncias contra o governo.

É importante que se reitere: Em gestões anteriores a corrupção era tratada com maior leniência, tanto pelos inquilinos do poder executivo, quanto por uma legislação mais frouxa e consequentemente de um judiciário mais “amigo do rei”. Por isso é imperioso continuar avançando nesta área da transparência e no controle da corrupção, com as devidas averiguações e punições. Identificando corruptos e corruptores, tanto nos governos como nas empresas privadas, bancos, hospitais, partidos, ONGs, autarquias, igrejas/religiões, enfim. Até para não ocorrer conforme o caso do chamado mensalão do PSDB, cujo processo – obra de prestidigitador – não avançou, caducando nas mãos do Judiciário. Ou sumindo dados de corrupção de sites públicos contra Aécio, como ocorreu nesta semana no TCE de Minas Gerais, após denúncias de Dilma.

Nos últimos 12 anos mais e melhores equipamentos institucionais foram legalmente estabelecidos e estão em pleno funcionamento para se ter mais lisura e punição de crimes de corrupção. A democracia segue seu curso, avançando sempre e mais, pelas provocações da sociedade e as ações do governo.

Certamente há ainda muitíssimo por fazer e melhorar em muitas áreas desse nosso imenso e complexo país, mas, usando uma imagem de JK, o Brasil avançou 100 anos em 12. Em especial na efetivação de direitos básicos de cidadania às camadas socialmente mais pobres. Isso é animador e me faz renovar, com crítica e esperança ética, meu voto em Dilma.

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes

Clemir Fernandes é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul, em Ciências Sociais (UFF), mestre em Sociologia (UERJ) e doutorando em Ciências Sociais (UERJ). É pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), integra o Grupo Gestor da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e é coordenador do núcleo do Rio de Janeiro da Fraternidade Teológica Latino Americana-Brasil. É editor-adjunto da revista Novos Diálogos.

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