Marina Silva e o advento da nova política

30 de agosto de 2014
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No terceiro capítulo de Entre o passado e o futuro, a filósofa alemã Hannah Arendt trata de analisar, de maneira ousada, a força e a revolução causada pelo pensamento de três dos principais nomes da filosofia do século dezenove, Kierkegaard, Marx e Nietzsche. Arendt quer “diminuir”, talvez, a euforia de quem situava os três pensadores na transgressão da modernidade, numa ruptura traumática com a tradição. Embora ela reconheça que foram os primeiros a ousar pensar sem a orientação de nenhuma autoridade, de qualquer espécie que fosse, ela ainda os situa como sendo pensadores muito mais no fim de uma tradição do que fundadores de outra tradição.

Essa introdução serve para ilustrar a pequena reflexão aqui desenvolvida, sobre o advento Marina Silva, como promessa e, como ela mesma faz questão de repetir, como nova política, de onde se entende a intenção de rompimento com o que até agora temos tido. E é verdade que o programa de Marina surpreende, subvertendo inclusive a “análise” dos polarizadores, que só conseguem pensar entre categorias extremas de “progressismo/liberalismo x fundamentalismo/religiosidade”. Mas um programa de governo torna-se quase sempre coadjuvante daquilo que é o determinante para a sua implementação: o fazer da política. E neste sentido, há poucas evidências de que a nova política a que Marina se refere seja de fato uma ruptura com o que permanece sendo “tradição” no fazer da política no Brasil.

(A) Ao afirmar, por exemplo, que pretende governar com quem há de melhor nos partidos e seguimentos, Marina Silva expõe que sua nova política parece acreditar que os principais dilemas da sociedade brasileira tem menos que ver com a estrutura e mais com quem está alocado como protagonista nesta mesma estrutura (ou a superestrutura, na melhor definição marxista).

(B) Também deveria ser motivo de atenção, que as disputas eleitorais na política constituem um fortíssimo jogo de linguagem. Neste jogo, é totalmente estratégico construir um discurso de uma nova política, mesmo sabendo que aquilo que é novo, deveria ser menos assim apresentado por quem propõe e mais reconhecido por quem recebe. De maneira que o discurso de uma nova política serve muito mais para se distinguir das propostas do outro do que propriamente assumir um compromisso de ruptura com formas antigas do fazer da política ou de se administrar a estrutura.

Ainda apostando na linguagem como o campo de construção da realidade, vale ressaltar todo o destaque com que a ascensão de Marina Silva tem sido tratada. Parece pouco discutível que a mídia tenha “adotado” Marina, dentro do quadro eleitoral brasileiro. Já está evidente que (muito) dificilmente a candidatura de Aécio Neves terá fôlego para chegar ao segundo. Prudentes quanto a uma possível parcialidade sobre a candidatura de Marina Silva, a grande mídia brasileira encontrou no seu crescimento nas pesquisas o terreno mais seguro para despejar o seu apoio velado, enquanto tenta tratá-la publicamente com a mesma cobertura e confrontação que seus adversários (Dilma em especial).

É neste sentido que a ascensão de Marina se torna um constructo. Na mídia, a ascensão se torna meteórica, uma surpresa inimaginável, quase um milagre, que mexe com o imaginário coletivo de que uma mudança inesperada acontece. A pressa dos institutos de pesquisa, sob encomenda exatamente dos grandes grupos de comunicação, de colherem intenções de voto pós-morte de Eduardo Campos, chega a lembrar (guardadas as devidas proporções) as vésperas das eleições de 2006, quando as pesquisas pós-mensalão apontavam uma forte influência do escândalo sobre Lula, podendo trazer sua queda, uma perda de força que não seria recuperada nem mesmo com as políticas assistencialistas. No entanto, eis que as eleições surpreendem com o que André Singer chamou de deslocamento silencioso, isto é, os votos que estavam “invisíveis” aos analistas entre, não os de baixa renda, mas sim entre os de baixíssima renda.

Marina Silva, de fato, infla os pulmões políticos brasileiros de ar, um ar ainda fresco, e talvez precisássemos mesmo. Ela não pode ser comparada com nada absurdamente conservador, que poderia fazer naufragar de vez nossa esperança. Mas nada ainda efetivamente, em sua nova política, aponta para uma ruptura emancipatória de nosso velho fazer política. Nada que pareça subverter os nossos mesmos caminhos institucionais já viciados pela repetição, em uma democracia cada vez mais carente de se reinventar – onde até uma possível Reforma Política já parece fadada ao fracasso, caso venha acontecer. O fazer da política de Marina Silva pode, como Hannah Arendt identificou nos filósofos citados, encostar no limite, pode estar no fim de uma tradição cada vez mais insustentável na democracia brasileira, e que cada vez mais se deslegitima, ridiculariza a si mesma. Mas longe de “fundar” outra tradição, longe, me parece, de derrubar as várias faces da manutenção do poder de quem está apegado ao poder.

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco

Ronilso é de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Estuda Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio. É membro do Coletivo Nuvem Negra e congrega na Comunidade S8 Rio. Interlocutor social na ONG Viva Rio.
Ronilso Pacheco