Menino de rua

5 de abril de 2015
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Olhares perdidos nos reflexos fechados das janelas dos carros engarrafados no cruzamento da Faria Lima com a Juscelino Kubitschek. Pertencem a um menino, dois menino, três menino. Dez menino. Vinte ou cem, talvez mais, mas pouco importa. São iguais na miudez e magrelice e se vestem de asfalto dos pés encardidos e estorricados à cabeça empoeirada e piolhenta. Tez – ou seria casca? -, cabelo e frangalhos cor de piche. Negrinhos, mulatos, sararás, andinos, meninos, meninas – por nascimento ou opção. São todos cinza da cor da paisagem que se enxerga através dos insulfilmes dos vidros dos automóveis introvertidos. Plúmbeos, tal qual a turvação do céu paulistano. São fraternal e visceralmente iguais. Poderiam ser todos o mesmo menino. Menino de rua.

São vozes surdas, inócuas ao interlocutor enclausurado em seu veículo estático. A matiz vermelha que fecha o portão do tráfego dá o tom para o Deus nos acuda. O menino brota aos montes dos canteiros e das calçadas. Faz malabares sob o sinaleiro. Bolas de tênis sôfregas girando entre duas mãos lânguidas – mas ainda espertas – e o ar denso da capital às 18 horas. No momento certo, serão guardadas no bolso para que o menino de rua possa correr por cada janela cerrada, exigindo sua comissão por entreter voluntariamente o fastio do trânsito. Enquanto isso, um outro canta, aos gritos, bordões numéricos enigmáticos, na tentativa de vender qualquer coisa que tenha consigo naquele momento. Um é dois, três é cinco, dois é quatro e cinquenta – Senhor, tende piedade.

Talvez o Senhor tenha, mas o motorista não tem, nem escuta. O rádio, as buzinas, os helicópteros sobrevoando, os aviões de Congonhas, apagam todas as vozes confundíveis. Torce o condutor do automóvel para que lâmpada verde do sinaleiro acenda depressa, de maneira que o menino da rua fumê não venha bater na janela. Porque se bater, Deus o livre, quem sabe o que pode acontecer. O menino de rua – dizem por aí – é agressivo, pau-mandado de traficantes carniceiros. Esconde armas nas dobras da bermuda esgarçada. Se ele chegar perto da janela do carro, não há dúvidas de que será, na melhor das hipóteses, um assalto. Um assalto daqueles em que não se pode reagir. Daqueles em que é melhor já entregar logo de cara a bolsa, a carteira, o celular, o que ele pedir, do contrário, haverá morte na certa. O menino de rua é um homicida vingativo e inclemente, disseram as pessoas da televisão. Desses magrinhos e diminutos há que se ter medo. Muito medo. Cultivar o medo manterá seguros a todos nós, cidadãos de respeito, órfãos de um Estado que se nega a combater a criminalidade e que insiste em favorecer delinquentes.

Mas basta olhar mais detidamente para o menino de rua, assim seminu e com a barriga quase que encostada nas costas, para que o indubitável medo nutrido pelo motorista dê espaço para a mais espontânea hesitação. E se ele tiver fome, e se estiver com frio, e se o asfalto lhe tiver queimado os pés descalços, e se tiver vermes na barriga, e se o seu semblante apático e os olhos pálidos forem por causa da anemia, e se o seu corpo raquítico já tiver sido violado, e se suas mãos calejadas jamais tiverem tocado em um caderno ou livro escolar – ou, pior, em um brinquedo! – e se outros meninos e meninas ainda menores estiverem à espera da esmola que ele arrecadará ao longo do dia, e se o menino de rua for apenas… uma criança?

Céus, se o menino de rua for tão somente uma criança (e não um truculento assassino como atestaram os jornais), seriam tantas crianças famintas, desguarnecidas e desalentadas a correrem errantes pelas avenidas, suplicando uns tão miseráveis centavos… E, então, se for verdade que o menino de rua é apenas uma criança, que aterrador seria habitar espaços e trafegar por avenidas onde tantas crianças carregam sua subsistência na mais autêntica desgraça, sem que ninguém lhes demonstre qualquer misericórdia. E que mesquinha e covarde seria essa nossa existência confortável, que tem medo de crianças!

O titubear do motorista é inevitável, constrangedor e inoportuno. Mas às 18 horas da tarde, após um dia cheio de serviço, não se deve ter qualquer tipo de incômodo no trânsito de São Paulo que não seja o próprio trânsito. Com as mãos firmes no volante, fita o semáforo. Reza um pai nosso para que a luz verde lhe permita avançar mais uns poucos metros com o carro e, após, manda ao inferno todos os carros enfileirados em sua frente. Deseja que o menino de rua – a se aproximar tão ligeiro! – não existisse. Ou então que existisse em qualquer outro lugar distante de suas vistas, para que a paz de espírito do motorista não fosse tão violentamente roubada, cotidianamente. Esbraveja que a solução seria prender todos esses pequenos vagabundos e proscritos. São bandidos, serão bandidos, pouco importa se hoje ou amanhã. Que sejam presos. Que não seja preciso encarar essas crianças minguadas e enxergar nelas nosso mais genuíno fracasso enquanto sociedade, enquanto seres humanos, todos os dias. Todos os malditos dias nas ruas.

O sinaleiro troca a lâmpada rubra pela verde. Finalmente. O menino de rua foge para onde quer que não passe carro. Tantos quanto haviam brotado das calçadas, agora retornam a elas, esperando que o próximo sinal vermelho lhes permita continuar o expediente. Três deles se aglutinam sobre o gramado que fica em frente ao banco espanhol da esquina. Dois meninos e uma menina podem ser vistos pelo retrovisor do motorista que, por não precisar mais olhar-lhes nos olhos, permite-se contemplá-los pelo reflexo do espelho. Mostram entre si as ridicularias de trocadinhos que conseguiram, mas mal sabem somá-las. Apenas o dono da padaria saberá dizer se conseguirão dividir um salgado requentado ao findar da noite. Enquanto o trânsito não torna a fechar, fazem uma pausa para recreação.

A bola de tênis, outrora material de trabalho guardado no bolso, agora rola perto dos pés desgastados dos pequenos, transformada em bola de futebol. Correm com ela, pulam, sacodem-se, caem de propósito, deitam no gramado. Exauridos, mas incoerentemente alegres, riem alto uma risada casta. Uma risada que denuncia a verdade de forma definitiva a todos os motoristas e transeuntes que a possam ouvir: o menino de rua é de fato – e por direito – uma criança (e, assim sendo, o mundo que os enjeita é realmente aterrador, e nós, todos nós que temos pavor do menino de rua, somos mesmo, incontestavelmente, um bando de covardes).

Sara Tironi

Sara Tironi

Sara Tironi é mestra em Direito do Estado na Faculdade de Direito da USP. Cursou sua graduação em Direito na mesma Universidade, no campus de Ribeirão Preto, período em que participou da Aliança Bíblica Universitária do Brasil e iniciou seu envolvimento com a Rede FALE. Atualmente, pesquisa sobre políticas públicas e direitos da infância.
Sara Tironi