Michael Ende e A história sem fim: a cura para o niilismo e a salvação do Reino da Imperatriz Criança

10 de julho de 2014
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Pode-se entrar no salão literário por praticamente qualquer porta, seja a porta da prisão, a porta do manicômio ou a porta do bordel. Há apenas uma porta pela qual não se pode entrar nele, a porta do quarto das crianças. Os críticos jamais o perdoarão por isso. (…) Eu fico perguntando a mim mesmo o que significa este desprezo peculiar com qualquer coisa relacionada à infância. (tradução livre).
— Michael Ende, 1985 (1).

“É aquele filme do cachorro voador? Ah. Lembro de ter assistido quando era criança.” É o desprezo peculiar que meus amigos costumam me dirigir quando eu tento falar de existencialismo, filosofia política ou sociologia utilizando para tanto o livro A história sem fim escrito por Michael Ende em 1979 (2) (livro que na década de 1980 transformou-se no filme homônimo, dirigido por Wolfgang Petersen, quase sempre lembrado como o “filme do cachorro voador” — muito embora Fuchur seja um dragão da sorte).

Publicado no contexto da Guerra Fria, seu autor — que havia crescido na Alemanha em um ambiente artístico, e vivenciado os terrores do nazismo na infância, quando a obra de seu pai Edgar Ende, pintor, foi declarada “degenerada” e banida pelo regime Nazista — sempre manteve silêncio sobre o real significado de sua obra. Uma boa interpretação seria uma interpretação correta, de acordo com Ende, independente de ter espelhado ou não suas próprias intenções (3). É assim, com a anuência do autor, que resolvi arriscar minhas próprias interpretações sobre o livro.

Bastian Baltasar Bux, com seus dez ou onze anos, é o protagonista que logo no início da narrativa furta de um Alfarrobista um livro chamado “A história sem fim” (e aqui começa o brilhante trabalho de Ende com uma metalinguagem infinita). Pensando ter-se tornado um ladrão, o garoto esconde-se no sótão de sua escola e é ali, entre os entulhos de seu assustador prédio escolar, que o pequeno — e com ele todos nós —, solenemente, inicia a leitura da história interminável.

O livro nos apresenta o Reino de Fantasia, povoado por uma vastidão de seres de diversas naturezas, no qual a Imperatriz Criança existe soberana como centro de toda a vida de Fantasia. Ela nunca governara o Reino, empregara a força ou fizera uso de seu poder, não ordenava nada e não julgava a ninguém, não atacava nem era atacada. Para ela todos eram iguais e tinham o mesmo valor. Todas as criaturas só existiam porque a Imperatriz Criança existia, e sua morte seria o fim incomensurável do reino de Fantasia.

Uma fatalidade, contudo, acometia o Reino: a Imperatriz Criança estava doente e Fantasia estava sendo consumida pelo Nada. “A princípio, o que sumia era muito pequeno, uma coisa de nada, do tamanho de um ovo de galinha. Mas esses lugares foram aumentando. (…) Algumas pessoas atiravam-se de propósito lá para dentro, ao verem que o nada se aproximava demais. É que o nada exerce uma atração irresistível, tanto mais forte quanto maior é o lugar.” (4).

A partir desta apresentação, a primeira parte da história se desenrola na grande busca por salvar Fantasia, empreendida por Atreiú, um pequeno caçador do Mar das Ervas escolhido pela própria Imperatriz Criança para encontrar a sua cura. Todas as aventuras vividas por Atreiú, contudo, nada mais eram do que uma forma para trazer Bastian, que até aquele momento vivia ansiosamente cada página do livro, para dentro de Fantasia. Apenas o pequeno leitor poderia salvar a Imperatriz Criança e seu Reino. Explicaram ao caçador do Mar das Ervas que embora ele apenas conhecesse Fantasia, havia também outros mundos, como o dos filhos do homem. Se quisesse entrar neste mundo, bastava que Atreiú se atirasse ao Nada. Este caminho, no entanto, era sem retorno. Quando as criaturas fantásticas entravam no Nada, o Nada se apoderava delas. No mundo dos homens, tornavam-se Mentiras: uma doença contagiosa que cegava os homens, tornando-os incapazes de separar a aparência da realidade.

Por esta razão os homens temiam Fantasia e tudo o que dela provinha, sem saber, entretanto, que ao aniquilar este Reino, aumentariam a quantidade de Mentiras em seu próprio mundo. A única salvação para Fantasia, assim, deveria vir do mundo dos filhos do homem. Para tanto, era preciso apenas que estes visitassem o Reino das criaturas fantásticas e que passassem a conhecê-las em vez de ignorá-las e temê-las. Desta forma, descobririam maravilhas e segredos em coisas que antes eram monotonia em seu cotidiano. Salvariam, assim, não somente Fantasia, mas também seu próprio mundo. A entrada de Bastian no Reino de Fantasia por meio da leitura da grande busca de Atreiú, por sua vez, é o convite de Ende para que nós mesmos voltemos ao Reino da Imperatriz Criança (onde suspeito que todos nós existíamos soberanos antes de nos dissuadirem da existência de Fantasia). É o apelo para que nós o resgatemos, pois somente isto trará a cura para nosso próprio mundo.

O que Ende propõe, no fundo, é a inversão de tudo aquilo que construímos socialmente ao longo de séculos: o único remédio para curar nossa sociedade adultocêntrica conduzida pelas mentiras que contamos a nós mesmos e aos outros é o retorno ao ponto de vista infantil. Se passarmos a considerá-lo e valorizá-lo séria e socialmente, nosso mundo deixará de ser cinzento, indiferente e niilista.

O próprio conceito de “infância” que conhecemos hoje, contudo, foi construído a partir de sucessivas exclusões da criança e da sua visão holística. Separamos o mundo das crianças do nosso mundo, delimitamos e especificamos suas áreas de atividade, criamos um espaço social para elas condicionado e controlado por adultos de forma direta (sobretudo no espaço familiar) ou institucional (como no caso da escola) (5). Sendo pequena, fraca, pobre, dependente e sem ter direito a voto, a criança não passa de um cidadão em potencial (apesar de nossos estatutos progressistas que insistem que nossas crianças são também cidadãs). Ela não conhece a ordem nem o trabalho sistemático. Ela precisa ser reprimida, instruída, guiada, corrigida, governada o tempo todo. Seus problemas, suas tristezas não são sérios nem respeitáveis, suas lágrimas nos comovem até certo ponto, mas se demoram muito a cessar se tornam irritantes. Interessamo-nos mais em lhe perguntar o que ela quer ser quando crescer do que em respeitar o que elas são agora. Ficamos cansados com a sua vida agitada e barulhenta, com suas curiosidades e perplexidade diante de suas descobertas — as quais para nós já não passam de obviedades monótonas (6).

Para Ende, contudo, é justamente no retorno a este encantamento infantil que se encontra nossa salvação: “Tudo deve ter o mesmo valor para você, o bem e o mal, o belo e o feio, a loucura e a sabedoria, tal como tudo tem o mesmo valor para a imperatriz Criança.” (7). Sua compreensão é semelhante à de Janusz Korczak (8) que, ao escrever sobre “O Direito da Criança ao Respeito”, já em 1929, considerou: “O clarividente espírito democrático da criança não conhece hierarquias: ela sofre por igual diante do suor derramado pelo operário, da fome de um companheiro, da miséria de um cavalo de carga, do suplício de uma galinha degolada.”

No entanto, em vez de pensarmos seriamente em operarmos este retorno ao ponto de vista da criança, direcionamos a ela duas outras atitudes diversas, o paternalismo — misturando sentimentalismo com uma noção equivocada de superioridade de nossas capacidades em relação às dela — e a marginalização, conduzindo-a à invisibilidade. Uma vez invisível, deixamos de considerar que a infância também é uma categoria social que deve ser levada em conta na formulação de políticas públicas. Não à toa, as crianças constituem o grupo geracional mais afetado pela pobreza e pelas desigualdades sociais (9). Por deixarmos de ver o mundo com as categorias infantis, também a nossa Imperatriz Criança está doente.

Do mesmo modo como a existência e a saúde de Fantasia estavam intimamente ligados à existência e à saúde do mundo dos filhos do homem, marginalizar o mundo infantil, diminui-lo, desacreditá-lo e deixar que ele seja consumido pelo Nada é nocivo tanto para a própria criança quanto para nós mesmos. Se, contudo, visitarmos seu reinado e aprendermos com ela a valorar igualmente todas as coisas, a nos encantarmos com pequenos detalhes e a enxergarmos grandiosidade em pequenas atitudes, aprenderemos também a valorizar e a respeitar a própria criança, suas ideias, opiniões, sentimentos e necessidades.

Compreenderemos, desta forma, o significado da Imperatriz Criança e a razão pela qual a sua existência é determinante para a nossa própria existência e bem-estar: não porque a sociedade que construímos necessita do adulto que esta criança se tornará, mas porque é imprescindível que hoje os adultos que convivem nesta sociedade voltem a ser como as crianças que um dia foram.

Notas
(1) Em entrevista concedida em 29.03.1985. Disponível em: http://www.michael-ende.de/galerie.htm.  Acesso em 09.07.2014.
(2) ENDE, Michael. A história sem fim. Trad. Maria do Carmo Cary. 9. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
(3) Disponível em: http://www.michaelende.de/en. Acesso em 09.07.2014.
(4) ENDE, Michael. Op. Cit. p. 23-24.
(5) SARMENTO, Manuel J.; FERNANDES, Natália; TOMÁS, Catarina. Políticas públicas e participação infantil. Educação, Sociedade & Culturas, n. 25, 2007, p. 183-206. Disponível em:http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC25/ManuelJacintoSarmento.pdf. Acesso em: 01 dez.2013.
(6) DALLARI, Dalmo A.; KORCZAK, Jausz. O direito da criança ao respeito. Trad. Yan Michalski. São Paulo: Summus, 1986. p. 68-91.
(7) ENDE, Michael. Op. Cit. p. 42.
(8) Idem, p. 73.
(9) ROSEMBERG, Fúlvia. Crianças e adolescentes na sociedade brasileira e a Constituição de 1988. In: Rubem George Oliven, Marcelo Ridenti e Gildo Marçal Brandão. (orgs.). A Constituição de 1988 na vida brasileira. São Paulo: Editora HUCITEC: ANPOCS, 2008. p. 1-3; SARMENTO, Manuel J.; FERNANDES, Natália; TOMÁS, Catarina. Op. Cit.

Sara Tironi

Sara Tironi

Sara Tironi é mestra em Direito do Estado na Faculdade de Direito da USP. Cursou sua graduação em Direito na mesma Universidade, no campus de Ribeirão Preto, período em que participou da Aliança Bíblica Universitária do Brasil e iniciou seu envolvimento com a Rede FALE. Atualmente, pesquisa sobre políticas públicas e direitos da infância.
Sara Tironi