Missão espiritual frente ao Ídolo-Capital: a novidade de Alegria de Evangelho (Parte VI)

2 de junho de 2014
Aprenda a atrair dinheiro

Quero retomar o tema que apresentei no final do último artigo: o papel da teologia da graça frente à insensibilidade social.

O fetichismo que vivemos nas sociedades capitalistas leva muitas pessoas a pensarem que o valor e até a dignidade das pessoas dependem da riqueza que possuem. Como os pobres não têm dinheiro, eles são vistos como pessoas de “menos valor ou menor dignidade” e, portanto, seus problemas como não importantes. Com isso, as lutas e programas político-sociais contra a exclusão social não entram nas prioridades reais da nação.

Diante dessa realidade social e antropologia perversas, apontada pelo papa Francisco como um dos grandes desafios à evangelização, concluí o artigo anterior propondo que a “teologia da graça” é uma fonte para desmascaramento e superação dessa insensibilidade social. Essa proposta pode soar realmente estranha para muitos leitores acostumados com discursos religiosos cristãos. A “graça” é um tema da teologia dogmática ou da espiritualidade, e a insensibilidade social e exclusão social, como os próprios termos indicam, temas sociais. Isto é, parece que eu estou propondo misturar temas religiosos com sociais, a missão religiosa com ação social.

Diante dessa percepção, alguns poderão defender essa proposta dizendo que o cristianismo tem duas missões: a missão religiosa de anunciar o evangelho, e a missão social em favor dos pobres, em busca da justiça social. Outros poderiam dizer que a Igreja não pode perder de vista a sua missão fundamental, que é a religiosa, e devem deixar em segundo plano – para quando houver tempo e recursos sobrando– a missão social. Esses dois grupos, com posições conflitantes, compartem do mesmo pressuposto: a missão religiosa é diferente da missão social. Por isso, um grupo propõe assumir as duas missões, o outro assumir somente a missão religiosa.

Essas duas posturas tendem a separar “teologia da graça” (tema religioso) da discussão social sobre a exclusão social e a pobreza. O meu argumento, porém, vai em uma direção diferente. Diante de um mundo que classifica seres humanos pelo critério da riqueza (e também devemos incluir, o da raça, etnia, sexo etc.), é a missão do cristianismo testemunhar que Deus não faz distinção entre as pessoas (Rom 2,11). Isto é, anunciar Deus que reconhece as pessoas para além das suas classificações sociais (pobre ou rica, livre ou escrava, mulher ou homem, branco ou negro/indígena, hetero ou homossexual…), ou melhor, antes que as sociedades classifiquem as pessoas e a importância dos seus sofrimentos, Deus reconhece a dignidade humana – e a dignidade não pode ser medida – de todas as pessoas, independente do seu mérito ou do pecado, do sucesso ou fracasso. E isso porque Deus ama todas as pessoas gratuitamente, sem impor pré-condições.

Na medida em que vivemos em um mundo idólatra que classifica pessoas por sua posse e outros critérios (sociais, étnicos, sexuais…), anunciar a verdade sobre Deus e o ser humano é também denunciar, desmascarar a totalidade da cultura dominante que nega a dignidade de parcela majoritária da população.

Nesse sentido, a missão de evangelização do cristianismo não é uma missão religiosa como comumente entendemos hoje. A nossa missão é anunciar a boa nova de que, não importa a condição social das pessoas, Deus as ama e quer que todas tenham vida em abundância (Jo 10,10). E essa vida não é aquela apresentada pelo ídolo-dinheiro que faz da acumulação e concorrência o sentido último da vida humana. O papa Francisco, no seu documento “Alegria do Evangelho” nos lembra, citando o Documento de Aparecida: “A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isto é, definitivamente, a missão.” (AE, n. 10)

Em outras palavras, a evangelização não é uma missão religiosa que deve vir acompanhada também de uma missão social, que seria como um desdobramento ou aplicação da missão religiosa no campo social. Evangelização é uma missão “espiritual”, no sentido de nos deixar levar pelo Espírito de Deus que nos ama gratuitamente. A experiência de ser amado gratuitamente por Deus nos leva a testemunhar esse amor gratuito de Deus nos mais diversos espaços da nossa vida, seja no campo religioso, social, educacional, familiar… onde as pessoas são “esmagadas” em nome de leis sociais ou religiosas.

E a maior “máquina de esmagamento” que temos hoje é o sistema capitalista globalizado que se apresenta como absoluto, como Ídolo faminto de sacrifícios de vidas humanas e do próprio meio ambiente. Por isso, o papa desloca o tema da economia e problemas sociais da “periferia” da teologia para o centro da discussão sobre a missão da Igreja, a evangelização e, portanto, para o centro da teologia. A questão teológica fundamental do nosso tempo não é um tema religioso ou social, mas é o conflito entre o Ídolo-Dinheiro/Capital, que “se alimenta” de sacrifícios de vidas humanas e da destruição da natureza, e o Deus da Vida e da Graça. (a continuar: a Graça e as dinâmicas econômicas)

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung é Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993), com Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, com Nestor Míguez e Joerg Rieger, Para além do Espírito do Império: novas perspectivas em política e religião (Paulus, 2012).
Jung Mo Sung