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Jesus sou gay. E agora?

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Jesus sou gay. E agora?

Jesus sou gay. E agora?

[Por Guilherme Sousa]

SILVA, Anderson; et al. Jesus sou gay. E agora? São José dos Campos (SP): Doma, 2019, 125pp.

Publicado em 2019, o livro organizado por Anderson Silva conta a história de vida de Claudinho Nascimento, Juliana Ferron, Luan Pablo e Robert Diego, além da visão do próprio organizador sobre o assunto. Capítulo após capítulo, as autobiografias vão sendo apresentadas ao leitor, todas imersas de profundo sofrimento e um anseio permanente por um preenchimento da alma. 

Anderson Silva é pastor da Igreja Vivo por Ti, em Brasília, heterossexual, casado e pai de 3 filhos. Conhecido por uma excelente oratória, e por atitudes e posicionamentos polêmicos e contraditórios, que vai de lavar os pés dos homossexuais como pedido de perdão pelos males que a igreja fez, a culpar a liderança religiosa do estado de Minas Gerais por calamidades públicas e ambientais. Ora pregador itinerante e inteiramente dentro do sistema, ora revoltado com o sistema e o atacando, sempre que as notícias o esquecem, ganha destaque novamente com uma nova polêmica.

Em seu prefácio, Anderson Silva enfatiza que não se trata de um livro teórico, mas de relatos das experiências de cada coautor em relação à sexualidade e à espiritualidade. Segundo relata, por causa de sua “rendição em amor aos homossexuais” foi difamado e perdeu amigos, dizimistas e reputação. E embora ainda não tenha todas as respostas para o tema, pretende continuar “teimosamente” tratando-o abertamente, até ser “testemunha de milagres”.

É no segundo capítulo do livro que Anderson Silva apresenta sua visão sobre a homossexualidade. Ele relata o que ele próprio chama de “Teologia do Processo”, segundo a qual não existe cura para a homossexualidade, mas um processo de discipulado que provavelmente durará a vida inteira, com diferentes intensidades. Para isso, tanto o homossexual quanto a igreja precisam ter um amor que não tenha “prazo de validade”, que esteja disposto a caminhar por toda a vida, mesmo sem viver ou presenciar o suposto milagre. Ele usa também uma ideia já bem clichê de afirmar que todos os pecados são iguais, e que o pecado da homossexualidade não deveria ser tratado de forma diferente pela igreja.

Um ponto interessante de sua argumentação é a analogia sobre os mercadores no templo (Marcos 11.15-17), em que destaca que o comércio feito no espaço destinado aos gentios, impedia-os de adorarem a Deus no local destinado a eles. Com essa analogia defende que a igreja não pode deixar que a liturgia seja construída com base na acepção de pessoas. Afirma: 

“Para que a Igreja possa impactar a vida de alguém, é necessário que haja afirmação de que tal pessoa é bem-vinda e está em um ambiente seguro, que não pretende lhe causar danos – não apenas em palavras, mas em ação. A Igreja deve ser um lugar de segurança, de pertencimento, de valor, que ajuda a reorganizar a visão e o caráter. Nesse sentido, nossas igrejas são para todos?” (p. 27).

Na última parte do capítulo ele passa a questionar conceitos e bandeiras progressistas, como o feminismo e a transexualidade. Segundo ele, Deus é amor, mas o mundo moderno quer transformar o amor em um deus. Para ele, sendo Deus amor, também não deixa de ser justiça ou qualquer outro atributo bíblico lhe atribuído. Logo, o amor não estaria acima da justiça, consequentemente Deus não poderia aceitar qualquer transgressão em nome do amor. 

Erro comum nessa crítica a respeito do tratamento dos atributos de Deus, também cometido por Anderson Silva, é acusar progressistas de colocar o Amor como o principal valor do Evangelho, desconsiderando que foi o próprio Jesus quem fez essa interpretação e deu centralidade ao Amor em sua interpretação da religião judaica, conforme sua polêmica com grupos religiosos (Mateus 22.34-40). Também o apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos romanos, segue o que diz o Mestre: “Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei.” (Romanos 13.8)

Curiosamente, Anderson Silva afirma taxativamente que essas bandeiras são transgressivas, sem sequer entrar numa análise mais aprofundada das mesmas. Há uma tentativa de explicar as razões da transexualidade, mas sem ultrapassar as analogias clichês e insuficientes para a complexidade do tema.

Os outros capítulos do livro são dedicados a contar a história de vida dos coautores, chamando atenção para o padrão que é visto em todas as histórias: vazio existencial, depressão, drogas e prostituição. 

Essas narrativas juntam-se ao coro dos testemunhos amplamente divulgados pela maior parte da igreja evangélica, e cabe aqui uma atenção especial a esse ponto. Primeiramente, as tradições religiosas são unânimes em afirmar que a espiritualidade é uma parte importante do ser humano, sem a qual ele estaria incompleto. Jesus simboliza essa necessidade usando a metáfora da “sede” em João 4.14, sede que só pode ser saciada por Ele próprio. Toda a tradição cristã acredita que o ser humano sempre busca saciar essa “sede”, e cada um tenta saciar de uma forma diferente. Logo, é razoável concordar que também o que são chamados de “vícios”, de forma geral, são formas do ser humano buscar preencher essa sede interior. A impossibilidade de ter essa sede saciada neles faz com que sua intensidade aumente, e consequentemente venha a tristeza, a angústia, o sentimento de vazio existencial e podendo levar até mesmo a doenças como a depressão e ideações suicidas. 

Esse sentimento de saciedade também pode ser buscado através do “sucesso profissional” ou amoroso, da aquisição de dinheiro, da fama ou de qualquer combinação de vários destes e muitas outras “necessidades humanas” que se poderia citar aqui. Mas nada disso tem relação com a sexualidade! A busca por preencher o vazio existencial com milhares de opções não está restrita a pessoas LGBTI, sendo um aspecto humano igualmente enfrentado também por heterossexuais. Associar qualquer tipo de “vício” ou “pecado” com a homoafetividade é fruto, no mínimo, da ignorância, mas em muitos casos é fruto de desonestidade intelectual. Supondo que essas pessoas tivessem sido expostas a outras percepções do Evangelho, provavelmente elas teriam passado pelo processo de serem libertas dos seus “vícios”, e continuariam sendo LGBTI e desenvolvendo a sua espiritualidade como qualquer pessoa hétero.

Outro problema preocupante com as experiências narradas é que todas elas passam pelo abandono das práticas homossexuais e até mesmo pelo “milagre” (que alguns chamam de cura). Se consideramos que cada ser é único, e portanto, se relaciona de forma única com Jesus e o Evangelho, não podemos impor um determinado padrão de comportamento a todos. Se alguém opta pelo celibato para agradar ao Senhor, essa pessoa não pode supor que a vontade do Senhor é que todos sejam celibatários. Conforme o texto bíblico:

“Aquele que come de tudo não deve desprezar o que não come, e aquele que não come de tudo não deve condenar aquele que come, pois Deus o aceitou; … Aquele que considera um dia como especial, para o Senhor assim o faz. Aquele que come carne, come para o Senhor, pois dá graças a Deus; e aquele que se abstém, para o Senhor se abstém, e dá graças a Deus. Pois nenhum de nós vive apenas para si, e nenhum de nós morre apenas para si.” (Romanos 14.3, 6 e 7)

Destaco aqui que conheço gays cristãos que são celibatários, conheço outros que namoram e outros casados. Também conheço vários outros que ainda buscam o “milagre” de deixarem de ser gays. Nenhum de nós tem autoridade para dizer que este ou aquele está errado, e qual o padrão que todos devem seguir. No entanto, um pouco mais de reflexão sobre o assunto nos leva a perceber que a busca por deixar de ser gay ocorre em decorrência de uma sociedade heteronormativa, sustentada por uma visão religiosa machista/patriarcal, e exemplificada como possível (e consequentemente como caminho obrigatório para qualquer um que queira se achegar a Deus) através dos testemunhos de pessoas que “deixaram de ser gays”, se casaram e estão “libertas”. Dar destaque a esses testemunhos é desumano e imoral!

Posso relatar que quando era adolescente sofri muito mais do que o necessário, pois me apresentavam exemplos de milagres, e eu perseguia isso como um ideal, sem conhecer a fundo qual a verdadeira realidade daquelas pessoas. Anos se passaram e eu vi cada um desses exemplos assumir posteriormente que na verdade nunca tinham deixado de ter sentimentos homoafetivos, e eu passei anos da minha vida preso à única opção que me deram, enquanto poderia ter desenvolvido meu relacionamento com Deus e ter encontrado minhas próprias respostas. Obviamente que atravessei esse caminho, mas com o atraso de no mínimo 10 anos.

Por último, é preciso retomar a fala do Anderson Silva de ter um amor que não tem prazo de validade. Aqui sua contradição quando fala desse tema. Tendo sido parte de sua comunidade por 4 anos, testemunhei a expulsão da Igreja Vivo por Ti de quase 50 pessoas LGBTI em 2017, um amor com um prazo de validade bem curto. Para ser mais exato, contando a partir do lava-pés pelo qual o Anderson ganhou notoriedade, os mesmos jovens acolhidos em ato tão memorável foram expulsos 2 anos depois. Ainda hoje o pastor Anderson Silva leva a fama, e posa de bom cristão, como demonstra este livro, por ter criado um ambiente seguro para esses jovens, fazendo-os acreditar que não seriam discriminados e que poderiam se relacionar com Deus e servir a igreja sem precisar mentir ou fingir uma conduta heteronormativa. Após criar esse ambiente e vencer a desconfiança desses jovens, por não querer mais ser difamado por ter gays na sua igreja, cancelou o Projeto Nouwen (que cuidava especificamente dos homossexuais) e retirou todos os gays dos ministérios da igreja, sem lhes dar nenhuma explicação. O argumento da “teologia do processo” parece bonito, mas é hipócrita quando nem ele mesmo foi capaz de sustentar no seu ministério.

Concluo sua leitura e afirmo que o livro não traz nada que possa efetivamente auxiliar a caminhada espiritual de qualquer pessoa LGBTI que queira se relacionar com Jesus. Pelo contrário, é mais um material para levá-los de volta ao cativeiro da condenação de lutar contra quem se é por toda a vida.

* Guilherme de Sousa é professor no Instituto Federal de Brasília, formado em Administração, mora em Brasília e integra o núcleo do Evangélicxs DF. Instagram: @ogui_lherme/ Email: uilson8@gmail.com

Personal Jesus Foto: Arte de André Mello

O Evangélicxs pela Diversidade é uma rede que reúne pessoas LGBTI e aliadxs que se identificam como evangélicas e que entendem que a diversidade sexual e a identidade de gênero devem ser celebradas como expressões da fé e espiritualidade, e que independente do gênero ou sexualidade, as comunidades de fé podem ser um lugar seguro para todxs.

2 Comentários

2 Comments

  1. Nathália

    17 de abril de 2020 em 18:23

    Sinto muito pelo atraso de 10 anos na sua vida. Mas glorifico a Deus por vc ter suas próprias respostas, Guilherme! Realmente este livro é um desserviço e maldito. ❤️

  2. Katia

    20 de abril de 2020 em 16:28

    eu creio que se ser gay é um pecado (se é que é pecado, pq não tenho certeza disso) deve ser tratado como qq outro pecado de todos os outros membros das igrejas. pq perfeito só Deus. todos os outros membros são aceitos com seus erros, pq essa divisão?? uma coisa tenho certeza. o amor de Jesus é exatamente igual por todos.

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