Não há política sem conflito… nem temos ideia de quando deixará de ser assim

28 de março de 2010
politica&conflito

Neste texto, retomo dois aspectos do que escrevi antes: primeiro, que há uma notável expansão, em relação a nossas concepções tradicionais, do que é e de onde ocorre a política. E parte inseparável disso é a presença da política na religião, mesmo quando não se identifica com clareza alguma política da religião. Assim, tornou-se sempre possível, se soubermos olhar de uma certa maneira, identificar o liame entre os dois “domínios” (que, assim, deixam de ser coisas distintas), ao mesmo tempo em que há tensões entre a lógica da religião e a da política, tal como tradicionalmente definidas, que ora apontam para posições de manutenção, ora de questionamento ou de contestação da ordem existente. Ordem esta que já não se confunde com a sociedade como um todo, ou com o estado, mas designa dimensões macro e micro da vida social. Há ordens. E há diferentes relações entre “religião” e “política”.

Segundo, nas condições contemporâneas, tornou-se cada vez mais admitido, mesmo quando a contragosto, o caráter conflitivo dos assuntos políticos. A política suscita paixões, a política divide, a política exclui, reprime, explora, manipula. Isso não é novo. Há muito, e em quase todas as culturas existentes, desenvolveram-se representações negativas sobre a política, ou sobre as formas concretas como a autoridade é exercida em comunidades, organizações, grupos, movimentos e nações.

Gostaria de explorar neste texto dois pontos ligados a essa experiência da conflitividade da política que suscitam reflexão dos cristãos comprometidos com questões de justiça econômica e social. A compreensão desses pontos me parece fundamental para esclarecer as condições em que um testemunho e uma militância inspirados na fé cristã se dão no mundo de hoje.

No rastro do que já dissemos anteriormente, deveria estar claro que a política vai além de suas expressões institucionalizadas: vai além dos partidos políticos, das eleições, da formação de governos e das instâncias executiva, legislativa e judiciária do que convencionamos chamar de estado. Por isso, talvez seja interessante encontrar uma outra palavra para dar conta desse “ir além” da política que, no entanto, designa o lugar da política, dando-lhe diferentes formas e conteúdos. Alguns pensadores políticos têm sugerido que, nessa linha, se distinga entre “a política” e “o político”. O que esta última forma aponta é para as condições em que tudo o que existe socialmente vêm a se constituir. Em outras palavras, o político é o nome da dimensão instituinte de todos os processos e relações sociais.

E como se manifesta o político? Basicamente pela exposição do caráter contingente de toda estrutura social. Contingência que sinaliza para algumas condições de todo projeto, ao consolidar-se numa ordem: tudo o que é poderia ser diferente; tudo o que é só pode vir a ser a partir de decisões que excluem alternativas possíveis; tudo o que é procura encarnar os mais altos ideais ou pretensões de universalidade ao mesmo tempo que é apenas um ator/discurso falível, singular e incompleto.

Essa experiência da contingência, como marca do político, se dá fundamentalmente de duas maneiras: a) pela experiência de desestabilização que se produz quando as promessas que legitimaram o nascimento de uma nova ordem fracassam frente a obstáculos não previstos, ou são traídas, ou revelam-se baseadas em mentiras, exclusões e violências; b) pela emergência de discursos de resistência, questionamento e/ou contestação da ordem vigente, em nome de injustiças cometidas contra certos grupos ou de imagens da sociedade ideal. Ordens vêm e vão, emergem cheias de expectativas e promessas, mas nossa experiência mais elementar do mundo nos confirma que, cedo ou tarde, alguma coisa acontece para desacreditá-las e pô-las abaixo. Mais: os projetos que se tornam vencedores na história o fazem na grande maioria das vezes em aberto desafio ao que lhes precedeu, e assim, ao mesmo tempo em que “prometem o céu”, efetuam um corte na “carne” social: separam-se do que é dominante; contestam; resistem; por vezes, isso tem um cunho libertador; outras vezes manifesta-se como uma reafirmação da ordem ameaçada ou como uma volta a um tempo em que “tudo era diferente e melhor”.

Em outras palavras, quando procuramos compreender como as estruturas do mundo humano, social e histórico, surgem e funcionam, até caducarem ou morrerem “precocemente”, é do político que estamos falando. A política, se entendemos por isso um tipo específico de atividade que visa a distribuir ou alocar recursos; manter a ordem; administrar a justiça; fazer e aplicar leis; criar políticas (no plural: ações baseadas numa estratégia, num plano) — isso, a política, é apenas uma manifestação do político. Mas este vai além dos limites da política, multiplica os lugares onde haveria política, está onde quer que uma aspiração ou alguma forma de sofrimento se articula numa demanda para que o mundo seja de outro jeito.

Em suma, o conflito, o debate, o dissenso que são tão característicos da política — mesmo quando esta tenta coibi-lo, desautorizá-lo ou neutralizá-lo — são uma marca de todo processo de construção social e histórica. Política é conflitiva, divisiva, pela mesma razão pela qual é construtiva, associativa. Esta condição atravessa os diferentes discursos sobre a vida social, seculares e religiosos, de tal maneira que, independentemente do valor que atribuamos ao dissenso e ao conflito, por exemplo, em nome da harmonia, do amor, da amizade, da solidariedade, do consenso, da comunidade, estamos às voltas com ele o tempo inteiro.

Uma leitura superficial da Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamentos, permite observar isso com clareza — o que mostra que estamos para além de uma novidade moderna. O episódio de Jesus expulsando os comerciantes do Templo deixa claro como o amor mais altruístico e radical não se conteve frente à exploração econômica em nome de Deus que se praticava ali. As perseguições sofridas pelos cristãos ao longo da história, por confessarem a Cristo e/ou por tomarem posições firmes em nome de sua fé, reforçam este ponto. Assim, ao procurarmos as fontes e motivações para um compromisso concreto com a justiça em nosso tempo, faríamos bem em não confundir as coisas: “o político” só nos dá acesso a um novo momento por meio da experiência do conflito — seja ao sofrermos com o conflito, seja ao fincarmos pé, como um certo Lutero um dia, ante os muitos nomes do injusto e do imoral.

Joanildo Burity

Joanildo Burity

Joanildo Burity é doutor em Ciência Política pela University of Essex, Inglaterra, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e professor colaborador dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da UFPE. É membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Joanildo Burity