Negócios e crime de guerra

9 de agosto de 2014
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As fotos obscenas de civis israelenses observando do topo de uma montanha o massacre estarrecedor do povo de Gaza por tanques e aviões relembram os piores horrores nazistas. Gaza não é nem um estado nem um país. Não tem exército. Imprensado entre o Egito, de um lado, e do exército israelense, do outro, palestinos majoritariamente indefesos foram massacrados por bombardeios implacáveis por uma das forças armadas mais poderosas da terra, armado até os dentes pelos Estados Unidos e seus aliados europeus.

Desgraçadamente, os Estados Unidos foram o único estado que votou contra uma resolução recente na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas por uma investigação de crimes de guerra cometidos pelas forças israelenses em Gaza. Vários países europeus se abstiveram. O típico jargão orwelliano “Israel tem o direito de se defender” tropeça em face das horrendas estatísticas: mais de mil palestinos mortos enquanto os civis israelenses mortos pelos mísseis do Hamas são contados em menos de dez!

Esta é a forma como Israel tem lutado suas guerras em décadas recentes, desprezando as leis internacionais e as regras de procedimento militar. (Para os números desproporcionais em recentes conflitos em Gaza, vejahttp://www.bbc.com/news/world-middle-east-28439404). Tenho muitas vezes comentado neste Blog da hipocrisia e dois pesos duas medidas das administrações norte-americanas quando se trata de direitos humanos, uma hipocrisia que mina os esforços de todos nós que buscamos responsabilizar os nossos próprios governos por crimes contra a humanidade.

Se o governo dos Estados Unidos e seus tímidos aliados europeus não podem ser pressionados para defender seres humanos na Palestina, a quem devemos recorrer?

A máquina militar israelense depende das empresas ocidentais. Isso levanta a questão da responsabilidade das empresas em matéria de direito internacional e direitos humanos. Israel adquire uma quantidade significativa de equipamento militar das empresas de defesa sediadas nos Estados Unidos, fato que solidifica a ligação entre a política externa dos EUA e agendas do setor empresarial.

Fico contente, portanto, em saber que a Igreja Presbiteriana (EUA) votou em junho o desinvestimento em três empresas (Caterpillar, Motorola Solutions e Hewlett-Packard) que vendiam equipamentos para Israel que facilitaram as atividades ilegais, tais como a demolição de casas palestinas, a construção de um muro de separação semelhante ao apartheid, e o uso de drones militares em áreas densamente povoadas por civis.

“Hewlett-Packard fornece scaners biométricos que são usados para identificar os palestinos racialmente e para rastrear e controlar seus movimentos”, explicou Anna Baltzer, organizadora nacional da “Campanha americana pelo fim da ocupação israelense”, uma coalizão nacional que tem mobilizado apoio para esforços de boicote e desinvestimento. “Não é nenhum exagero dizer que muitas dessas campanhas mudaram radicalmente o discurso sobre Israel/Palestina – na grande mídia, nas universidades, nas igrejas, entre outros – de uma forma sem precedentes”, acrescentou.

Em 2012, a Igreja Metodista Unida aprovou resoluções de apoio ao boicote de produtos feitos em assentamentos israelenses; e a Empresa Fiduciária dos Quakers desinvestiu de suas participações acionárias na Caterpillar, HP e Veolia Environnement, uma companhia francesa de gestão da água, resíduos e transportes envolvida na construção de um sistema eléctrico que está sendo construída por empresas de engenharia francesas em território palestino ocupado. Um ano depois, vários distritos regionais metodistas também votaram o desinvestimento, e o conselho de diretores do Comitê Central Menonita dos Estados Unidos (MCC US) decidiu por unanimidade que o MCC (US) não “investiria de modo consciente em empresas que se beneficiam de produtos ou serviços utilizados para perpetrar atos de violência contra os palestinos, israelenses e outros grupos”.

São, reconhecidamente, pequenos passos. Mas vários pequenos passos podem precipitar uma avalanche social.

Corporações com marcas de renome internacional (como as três acima) são rápidas em responder às críticas com pronunciamentos piedosos sobre suas políticas e compromissos éticos de respeito aos direitos. No entanto, a leitura da política de direitos humanos da Motorola mostra que a empresa só aborda questões internas, tais como a segurança no local de trabalho e pagamento justo de horas de trabalho.

Claro que não é justo culpar as corporações pelo uso de seus produtos. Mas eles não deveriam ser mais exigentes em suas vendas? Não estaríamos certos de culpar alguém que conscientemente vendesse álcool a um alcoólatra ou cigarros para um estudante?

O documento “Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos” das Nações Unidas de 2011 convida as empresas a “buscarem prevenir ou mitigar os impactos adversos de direitos humanos que estão diretamente ligados às suas operações, produtos ou serviços por seus relacionamentos empresariais, mesmo que não tenham contribuído para esses impactos.” O documento exorta também a compreenderem as “preocupações das partes interessadas potencialmente afetadas mediante consulta direta (…) em situações em que tal consulta não seja possível, as empresas devem considerar as alternativas razoáveis, como consultar especialistas independentes confiáveis, incluindo defensores de direitos humanos e outros atores da sociedade civil.”

O desconhecimento da Bíblia (especialmente do Antigo Testamento) foi em grande parte a razão para a cumplicidade chocante de muitos cristãos europeus nos maus tratos dos judeus ao longo dos séculos na Europa. Hoje ainda é a ignorância da Bíblia (especialmente do Novo Testamento), juntamente com a ignorância da história da Palestina no século 20, da Palestina, o que levou à traição chocante por muitos cristãos americanos de seus irmãos e irmãs em Gaza e na Cisjordânia.

Vinoth Ramachandra

Vinoth Ramachandra

Dr. Vinoth Ramachandra nasceu no Sri Lanka. É doutor em Engenharia Nuclear pela Universidade de Londres. Foi Secretário Regional da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE) para o Sul da Ásia. É atualmente Secretário para Diálogo e Engajamento Social da CIEE em nível global. Participa há muitos anos do Movimento de Direitos Humanos do Sri Lanka, da Rede Miquéias e d'A Rocha (organização internacional de conservação ambiental). É autor de vários livros e ensaios, entre os quais A Falência dos Deuses (ABU Editora). Os textos postados na revista podem ser encontrados na sua versão original em inglês no bloghttp://vinothramachandra.wordpress.com/.

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