Nossas marchas entre a Ética, a Estética e a Cosmética

6 de fevereiro de 2015
silas, bolsonaro e malta

Presença e visibilidade têm sido confundidas por diversas pessoas e instituições como sendo a expressão de uma mesma realidade. É preciso dizer: presença e visibilidade não são a mesma coisa. Presença tem a ver com o outro para o qual nos dedicamos, enquanto visibilidade tem a ver com o si mesmo em sua sanha por construir prestígio e desenvolver projetos de poder. Por isso é que marchar por visibilidade cega os olhos, ou pelo menos os condiciona, para ver só o que interessa a si mesmo e a seus projetos. Marcha-se pra se tornar visível às lentes das câmeras e às colunas de jornais, a fim de mais tarde se poder colher os louros políticos advindos dos números de participantes. Definitivamente essas marchas não são por presença, mas por visibilidade.

A imagem só confirma a lógica perversa das marchas. Marcha-se por quê? Pela família? Contra a corrupção? Ou pela disputa de espaço político que garante a tão sonhada e rentável visibilidade. Além dos digníssimos personagens da imagem, matéria do jornal O Dia diz que também o nobre deputado e irmão que preside a Câmara Federal de Deputados esteve na marcha. Claro, numa caminhada dessas (que poderia parecer a alguns uma corrida eleitoral) não poderia faltar o paladino da luta contra a corrupção. A marcha é por ser presente? Não! Não nos deixemos enganar. A marcha é por visibilidade. Visibilidade que mais tarde se converterá em poder, votos, capital político, que infelizmente não serão instrumentos de presença, mas mais uma vez servirão à lógica da visibilidade.

Dando uma volta a mais no parafuso precisamos nos perguntar por onde caminha a ética no que diz respeito as marchas. Se olhamos para a imagem a ética se escondeu para não corar de vergonha diante dos pedidos de sementes de R$ 10.000 de um, das imposições violentas e ditatoriais de outro, e da supressão de direitos sociais protagonizados por aquele que tem a al’cunha de defensor dos direitos do povo (afinal de contas o povo merece respeito) que não saiu na foto, quem sabe por causa de alguma disputa por visibilidade.

Não encontraremos a ética caminhando nessas marchas. É a estética? Como dizia Aristóteles, estética é a harmonia das partes com relação ao todo. Se admitimos que a noção todo para a Igreja poderia ser traduzida pelo conceito de Reino, como admitir que suas partes em marcha estejam harmonicamente caminhando. Há harmonia entre essas imagens e o anúncio feito pelo Mestre de Nazaré? Na marcha de Jesus (não na marcha para Jesus) havia espaço para a invisibilidade dos que sofrem, ou para o conluio exploratório? Não! Não há estética nessas machas.

E a cosmética, o que ela tem a ver com essas marchas? Tudo a ver. Cosmética é a arte de disfarçar, de produzir artificialmente aquilo que não se encontra na realidade. É cosmética a troca da presença pelas vantagens advindas da visibilidade. É cosmética a defesa da família que não se faz acompanhar pela presença junto às reais (mesmo que desafiadoras) formas de ser família. É cosmética a bandeira contra a corrupção que abriga a corrupção sacralizada pelo discurso religioso (a extorsão das sementes de R$ 10.000 é só um exemplo disso). A cosmética caminha nessas marchas? Sim! A cosmética caminha, e a passos largos.

Alessandro Rodrigues Rocha

Alessandro Rodrigues Rocha

Alessandro Rodrigues Rocha é pastor batista, doutor em teologia sistemática pela PUC-Rio e escritor nas áreas de teologia e espiritualidade. É casado com Adriana e pai de Maria Eduarda.

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